América Latina

Guaidó e a fracassada operação militar contra a Venezuela: traição e corrupção

Uma dúzia de paramilitares foram capturados na região costeira de La Guaira e Chuao com a ajuda de pescadores. Dentre os detidos se encontram desertores das forças armadas e da polícia Venezuelana, além de soldados estadunidenses.

Por Patricio Zamorano, via COHA, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, mostra uma foto do contrato supostamente assinado por Juan Guaidó com mercenários estadunidenses. Foto por Manaure Quintero/Reuters.
O procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, mostra uma foto do contrato supostamente assinado por Juan Guaidó com mercenários estadunidenses. Foto por Manaure Quintero/Reuters.

Agora que já tivemos alguns dias para estudar a fracassada e ilegal incursão paramilitar de um grupo de mercenários estadunidenses e venezuelanos na Venezuela, alguns pontos chave emergiram nessa história inacreditável. Estes pontos revelam a dinâmica interna de natureza fraturada, desmoralizada e financeiramente corrupta dos setores linha-dura da oposição. Muitas das informações foram fornecidas pelo ex-soldado estadunidense Jordan Goudreau, contratado da Operation Gideon pelo próprio Juan Guaidó e os assessores Sergio Vergara, Juan José Rendón, e o conselheiro jurídico Manuel Retureta, todos os quais assinaram o plano de serviço (chamado “Acordo de Serviços Gerais”, ou “General Services Agreement”, em inglês) para lançar a operação paramilitar.

Uma dúzia de paramilitares foram capturados entre o domingo e a segunda-feira (3 e 4 de maio/2020) na região costeira de La Guaira e Chuao1 com a ajuda de pescadores. Dentre os detidos se encontram desertores das forças armadas e da polícia venezuelana, além de soldados estadunidenses. Oito dos mercenários foram mortos pelas forças de segurança do país2.

O baú de evidências torna impossível para Guaidó e seus assessores negarem seu involvimento na contratação dos serviços. Não apenas há cópias do acordo de 8 páginas circulando na internet3, há também uma gravação telefônica do momento em que o assinavam4.

Mercenários capturados em Chuao. Foto por Governo da Venezuela.
Mercenários capturados em Chuao. Foto por Governo da Venezuela.

Um contrato de milhões de dólares

O mercenário estadunidense Jordan Goudreau, proprietário da Florida Silvercorp USA Inc, empresa que já atua há dois anos, está relevando todas as informações internas pelo simples motivo de Juan Guaidó nunca ter pago a taxa do acordo, incluindo um adiantamento de US$ 1,5 milhões. Ele alega ter recebido apenas US$ 50.0005 através de Rendón.

Nascido no Canadá, Goudreau é um veterano do exército americano no Iraque e Afeganistão. De acordo com seu simples website centrado ao redor de sua imagem pessoal, Jordan Goudreau “também já planejou e liderou equipes de segurança internacional para o presidente dos Estados Unidos assim como para o Secretário da Defesa”6. De acordo com um perfil sobre ele escrito pela AP7, essa afirmação parece ser um exagero em relação à sua relação próxima com Keith Schiller, que serviu como chefe de segurança e guarda-costas de Trump. Diversas entrevistas conduzidas pela AP com pessoas próximas ao mercenário sugerem que Goudreau é politicamente ingênuo, impulsivo, e possui aspirações ilusórias de grandeza.

Expondo tudo publicamente

A partir das extensas entrevistas gravadas de Goudreau, é visível que na esteira de uma operação fracassada repleta de incompetência e que resultou na morte de vários mercenários, o matador de aluguel está revelando tudo para a imprensa mundial às pressas, para redirecionar a culpa para Juan Guaidó. Também está claro que suas declarações públicas são motivadas pela fato de que não recebeu seus pagamentos, e que eles não tem nenhuma obrigação de manter a confidencialidade, já que “nessa altura o contrato já foi completamente rasgado e nada foi honrado por parte da oposição (…) eu fiz tudo o que foi delineado no contrato”8.

Um grande arsenal de armas foi confiscado dos mercenários. Foto por Governo da Venezuela.
Um grande arsenal de armas foi confiscado dos mercenários. Foto por Governo da Venezuela.

O contrato de fato tem mais de 70 páginas de acordo com Goudreau. O Acordo de Serviços Gerais, mais curto, promete à Silvercorp um pagamento de mais de US$ 200 milhões9 para derrubar o governo de Nicolás Maduro. De acordo com o contratado, o dinheiro tem origem de amplos fundos ilegalmente confiscados pelos Estados Unidos da empresa petroleira Citgo, de propriedade do estado venezuelano, e que foi transferido para a conta de Guaidó10. Goudreau também citou o Tratado do Rio (o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, ou TIAR) como justificativa para a operação, o acordo que a oposição venezuelana tem infrutiferamente tentado invocar na Organização dos Estados Americanos (OEA) para incitar uma ação militar contra a Venezuela11.

Goudreau crítica Guaidó no plano moral

O mercenário também questionou o caráter de Guaidó:

“Eles atrapalham mais do que ajudam. No início eles disseram que iriam nos ajudar. Você tem esses caras com acesso a milhões de dólares. Eles receberam 90 milhões de dólares, dos quais 9 milhões foram destinados à defesa. Olha, eles vão negar tudo isso. Ele sabiam que havia gente na fronteira. Você tem 60 venezuelanos que estavam famintos, treinando, pensando sobre libertação, e eles foram e fizeram. Enquanto isso seu governo de oposição está ganhando muito dinheiro. Eu acho que existe um problema”. Quando questionado sobre o porquê ele pensa que Guaidó retirou o apoio ao ataque, Goudreau acrescentou, “Eu acho que tem muito dinheiro envolvido agora. Quando as pessoas estão ganhando dinheiro, elas estão confortáveis. Eu não acho que existe um incentivo real para ‘libertar o país’”12.

A desilusão cada vez maior da oposição com Guaidó

Apesar de todas as evidências contra ele, particularmente as reclamações do contratado pela falta de pagamento e sua suposta assinatura no contrato, o auto-proclamado presidente da Venezuela foi rápido em negar qualquer envolvimento com a operação paramilitar13.

Documentos de identidade que provam a presença de ex-soldados estadunidenses dentre os mercenários. Foto por Governo da Venezuela.
Documentos de identidade que provam a presença de ex-soldados estadunidenses dentre os mercenários. Foto por Governo da Venezuela.

Essas revelações todas têm duas implicações. Primeiro, elas confirmam as acusações contínuas feitas pelo governo Maduro nos últimos anos sobre a existência de uma real ameaça paramilitar vinda do território colombiano14. Segundo, elas geram uma onda de críticas dentre muitos da oposição, particularmente nos Estados Unidos, que têm condenado fortemente Guaidó por abandonar os ex-militares venezuelanos15. Até mesmo a jornalista que entrevistou Goudreau, Patricia Poleo, que é contrária ao governo chavista de Maduro, está sendo duramente criticada pelos elementos mais extremistas da oposição16.

Escândalos e críticas são temas conhecidos. Esse caso é evocatório do abandono de dúzias de desertores militares venezuelanos na Colômbia, muitos com suas famílias, após a frustrada operação de falsa “ajuda humanitária” encenada em fevereiro de 2019 na fronteira entre ambos países. Naquela ocasião foi revelado, e confirmado pelos serviços de inteligência colombianos, que a equipe de Guaidó roubou milhares de dólares que foram arrecadados para aquela campanha. Os desertores venezuelanos, encorajados pela oposição, foram abandonados em quartos de hotel, sem pagamento17.

A oposição está claramente disposta a usar violência paramilitar

Esse caso prova alguns pontos fundamentais: que Guaidó está manejando imensas quantias de dinheiro; seus constantes ataques ao governo venezuelano têm efeito limitado; e ele não teve sucesso em quebrar a unidade dos militares venezuelanos. Também está claro que ele está financiando atividades privadas semi-clandestinas, e não há nada até agora que prove o contrário. E está também disposto a contratar forças mercenárias para lançar aventuras militares que colocam em risco a vida dos cúmplices e de civis na Colômbia e Venezuela.

Enquanto as forças moderadas de oposição continuam a dialogar com o governo de Nicolás Maduro, a cada vez mais isolada facção linha-dura continua com seus esforços para agravar as sanções estadunidenses e validar uma intervenção militar estrangeira, além de lançar ataques paramilitares.

Também está claro que a incompetência e a baixa moral estão causando um impacto significativo na oposição extremista na Venezuela, que por algum motivo desconhecido, abandonou o grupo de mercenários no início de seu ataque à nação caribenha. Esse caso é similar a diversas outras operações na história das intervenções estadunidenses na América Latina, quando grupos de mercenários são abandonados no último minuto por razões políticas, cálculos militares que indicam ao fracasso, escândalos de desvio de dinheiro, ou simplesmente por incompetência militar.

“Acordo de Serviços Gerais” assinado por Guaidó, valendo mais de 200 milhões de dólares. Na parte grifada lê-se, “A Administração concorda em pagar ao Provedor de Serviço a quantia mínima de dinheiro necessária para honrar esse acordo que é de US$ 212.900.000,00 ao longo da duração do termo. A quantia de dinheiro necessária para cumprir a primeira parte dos serviços do Provedor é de US$ 50.000.000,00. Todo dinheiro será garantido com barris de petróleo venezuelano. Todo dinheiro neste acordo são em dólares”. Imagem fornecida por Goudreau à imprensa.
“Acordo de Serviços Gerais” assinado por Guaidó, valendo mais de 200 milhões de dólares. Na parte grifada lê-se, “A Administração concorda em pagar ao Provedor de Serviço a quantia mínima de dinheiro necessária para honrar esse acordo que é de US$ 212.900.000,00 ao longo da duração do termo. A quantia de dinheiro necessária para cumprir a primeira parte dos serviços do Provedor é de US$ 50.000.000,00. Todo dinheiro será garantido com barris de petróleo venezuelano. Todo dinheiro neste acordo são em dólares”. Imagem fornecida por Goudreau à imprensa.

Deixando provas óbvias: ingenuidade operacional e o fim de Guaidó

Todos os recentes escândalos ao redor de Guaidó tem causado um definhamento significativo de seu apoio. Existe um claro desapontamento com sua falta de resultados, já que as centenas de milhões de dólares que o governo estadunidense tem colocado à disposição do governo clandestino não têm rendido frutos. Também mostram que Guaidó é politicamente imaturo e inepto, deixando rastros tão evidentes como um contrato de serviços mercenários assinados em próprio punho em um escritório de advocacia que não pode refutar as evidências.

Não há dúvidas que isso marca o início do fim da influência de Guaidó no setor linha-dura da oposição venezuelana, e pode talvez impulsionar a posição dos moderados que preferem uma solução política ao contrário de sanções, violência e intervenção estrangeira. Esse ataque militar infundado, mal-preparado e repleto de erros custou vidas humanas – cerca de oito soldados morreram, muitos deles jovens ex-soldados e policiais que apareceram nos vídeos gravados antes do ataque18. Todos aqueles que conspiraram em favor da operação e de seu abandono carregam essa culpa.

As palavras de Jordan Goudreau não deixam dúvidas sobre o sentimento de grande parte da oposição nesse momento, após o fracasso dessa aventura pseudo-militar: “Eu fui um guerreiro da liberdade por toda minha vida. Eu lutei no Iraque, no Afeganistão, eu sou um soldado condecorado. Eu tomei tiros. Mas eu nunca havia visto em minha vida tal traição e nível de desprezo por homens em combate”.

Assinaturas de (da esquerda para direita) Juan Guaidó, Jordan Goudreau, Sergio Vergara e Juan Rendón, no “Acordo de Serviços Gerais”. Imagem fornecida por Goudreau à imprensa.
Assinaturas de (da esquerda para direita) Juan Guaidó, Jordan Goudreau, Sergio Vergara e Juan Rendón, no “Acordo de Serviços Gerais”. Imagem fornecida por Goudreau à imprensa.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://www.elnacional.com/venezuela/hijo-de-raul-baduel-se-encuentra-entre-los-detenidos-en-la-embarcacion-de-chuao/

2  http://www.avn.info.ve/node/481798

3  Várias fontes: https://venezuelanalysis.com/news/14861, https://pbs.twimg.com/media/EXImw1yWkAA1a2B?format=jpg&name=medium, https://dialogosdelsur.operamundi.uol.com.br/america-latina/64517/venezuela-revelan-el-contrato-firmado-por-guaido-para-ejecutar-golpe-de-estado

4  https://anoncandanga.com/jordan-goudreaus-telephone-conversation-with-juan-guaido-prior-signed-contract/

5  https://www.msn.com/en-us/news/world/ex-green-beret-says-plan-to-oust-venezuela-e2-80-99s-maduro-is-ongoing/ar-BB13AKhH

6  https://www.silvercorpusa.com/about-jordan-goudreau

7  https://apnews.com/79346b4e428676424c0e5669c80fc310

8  https://www.youtube.com/watch?v=1-L2VQPnZMI

9  https://dialogosdelsur.operamundi.uol.com.br/america-latina/64517/venezuela-revelan-el-contrato-firmado-por-guaido-para-ejecutar-golpe-de-estado

10  https://www.notimerica.com/politica/noticia-venezuela-ex-boina-verde-acusado-incursion-naval-venezuela-dice-plan-contra-maduro-sigue-marcha-20200505120944.html

11  https://www.youtube.com/watch?v=1-L2VQPnZMI

12  https://www.youtube.com/watch?v=mGsao-iBZGk

13  https://www.chicagotribune.com/espanol/sns-es-coronavirus-guaido-niega-vinculo-intento-invasion-venezuela-20200505-uiditc4i6nbdda3nyx24n26zee-story.html

14  https://www.trt.net.tr/espanol/espana-y-america-latina/2019/09/01/acusacion-de-campamento-paramilitar-de-venezuela-a-colombia-1261825

15  https://www.youtube.com/watch?v=PJGudB6zJv4

16  https://www.youtube.com/watch?v=VJ_p6ZyS7Pg&t=1s

17  http://www.coha.org/guaidos-star-fades-as-his-envoys-to-colombia-allegedly-commit-fraud-with-humanitarian-funds-for-venezuela/

18  https://www.youtube.com/watch?v=PJGudB6zJv4&t=549s

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