Ásia

A conspiração das ‘urnas funerárias chinesas’: uma distração ao fracasso estadunidense

Por Ajit Singh, via The Grayzone, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Um grupo de funcionários atrás de uma exposição de urnas funerárias biodegradáveis em um cemitério em Tianjin, ao norte da China, no dia 20 de julho de 2010. Foto por Frederic J. Brown/AFP.
Um grupo de funcionários atrás de uma exposição de urnas funerárias biodegradáveis em um cemitério em Tianjin, ao norte da China, no dia 20 de julho de 2010. Foto por Frederic J. Brown/AFP.

Uma conspiração amplamente disseminada e altamente dúbia, afirmando que a China escondeu dezenas de milhares de mortes originou de um meio de propaganda do governo estadunidense e de um membro veterano de um culto da extrema-direita anti-China.

Enquanto os Estados Unidos sofrem da pior explosão de coronavírus no mundo, o presidente Donald Trump tem insistido que, caso seu governo consiga manter o número de mortos abaixo de 100.000, eles terão feito um “ótimo trabalho”. Para causar uma distração dos exorbitantes fracassos e erros que permitiram à pandemia se propagar profundamente pela população estadunidense, a Casa Branca lançou uma campanha publicitária de culpabilização mirando a China. No centro da narrativa de Washington está a acusação de que Pequim orquestrou uma “encobrimento” que é responsável pela situação desastrosa dos Estados Unidos.

Ao sistematicamente demonizar a China durante o pico da crise de coronavírus, a mídia corporativa estadunidense faz um esforço para redirecionar a indignação dos americanos ao espantalho estrangeiro. Até mesmo ao alegar que a resposta dos Estados Unidos à crise está sendo “prejudicada” pela “desinformação” russa e chinesa, a mídia estadunidense está na verdade, promovendo teorias da conspiração obscenas, que alegam que o número de mortos na China é supostamente maior do que o divulgado oficialmente na ordem de dezenas de milhares.

Uma teoria da conspiração promovida pela rede de propaganda do governo americano, a Radio Free Asia

A acusação sobre dezenas de milhares de mortes encobertas parece ter sido publicada inicialmente pela Radio Free Asia (RFA), uma agência de notícias do governo estadunidense criada durante a Guerra Fria como parte de um “Rede Mundial de Propaganda construída pela CIA”, de acordo com o New York Times. A RFA é operada pela Broadcasting Board of Governors (BBG), uma agência federal do governo estadunidense supervisionada pelo Departamento de Estado. Descrevendo seu trabalho como “vital para os interesses nacionais dos EUA”, o primeiro critério de transmissão da BBG é ser “consistente com os amplos objetivos da política externa dos Estados Unidos”.

Em um artigo publicado no dia 27 de março, a RFA faz alegações explosivas e condenatórias de que o número de mortes relacionadas ao coronavírus na China é muito maior do que os oficiais, acusando as autoridades chinesas de perpetrar um encobrimento. Como esperado, as evidências extraordinárias para as afirmações extraordinárias da RFA sobre a China são fraquíssimas.

A RFA se baseia na “matemática básica” de “algumas postagens de mídias sociais” para concluir que “estimativas apontam” que 42.000 a 46.800 pessoas morreram de Covid-19 em Wuhan, o epicentro do coronavírus na China. Estes número excedem de longe os números oficiais de 2.548 mortes em Wuhan, e 3.312 em todo o país. Isto seria semelhante às mídias estatais chinesas publicarem alegações sobre os Estados Unidos com base em postagens anônimas encontradas em recantos obscuros do Twitter. Curiosamente, nenhuma das postagens nas mídias sociais referidas pela RFA foram citadas em seu artigo.

As “estimativas” da RFA são baseadas em especulações mórbidas em relação à capacidade de cremação das casas funerárias de Wuhan. A RFA cita um relato de uma publicação chinesa, a Caixin, sobre preparativos de funerais feitos por residentes de Wuhan durante a crise. No dia 26 de março, a Caixin publicou que 5.000 urnas funerárias haviam chegado em um velório em Wuhan no período de 2 dias. Isso foi tomado como uma evidência nefasta do embuste do governo chinês somente porque excede o total de mortes oficial de Wuhan.

A RFA ignora completamente o fato de que os residentes continuaram a morrer de outras causas durante a pandemia, além do acúmulo de funerais e cremações causadas pelo confinamento que durou alguns meses na cidade. Em 2019, aproximadamente 56.000 cremações aconteceram em Wuhan, de acordo com as estatísticas oficiais da cidade.

Isso significa que cerca de 4.600 pessoas morreram por mês, um número que foi provavelmente maior durante os meses de inverno e com o sistema de saúde de Wuhan sobrecarregado pela epidemia. Com Wuhan sob confinamento desde o dia 23 de janeiro, um aumento substancial no uso de casas funerárias e crematórios há de ser esperado.

Despreocupada com a falta de evidências por parte da RFA, ou sua metodologia claramente fajuta, a mídia corporativa estadunidense – ao lado dos senadores neoconservadores e de extrema-direita Ted Cruz e Tom Cotton – amplificou as acusações incendiárias da agência governamental. Agências que promoveram a reportagem incluem a Bloomberg, TIME, VICE, Yahoo! News, Newsweek, e Fox News.

Washington se apoderou da teoria da conspiração para fortalecer seus esforços de desviar as atenções de sua inépcia em relação à epidemia do coronavírus. Logo após essas publicações na mídia, as agências de inteligências estadunidenses declararam que eles “concluíram” que “os números da China são falsos” em relação às infecções e mortes de coronavírus. Essas descobertas foram baseadas em um “relatório secreto” preparado para a Casa Branca – cujo conteúdo o aparato de inteligência se negou a revelar.

Falun Gong, o culto de extrema-direita por trás das alegações

Ainda que a RFA não tenha revelado a fonte de suas alegações, elas parecem ter originado do culto anti-governo, de extrema-direita, Falun Gong. Na reportagem da VICE sobre a “história da urnas”, eles citam um tweet de uma veterana do culto, Jennifer Zeng, no qual ela faz declarações grotescas sobre os totais de mortes e infecções de coronavírus da China. É importante destacar que, o tweet de Zeng, datado de 26 de março, foi publicado apenas um dia antes do artigo inicial da RFA.

Zeng é uma veterana do culto de extrema-direita Falun Gong, juntando-se o grupo em 1997. Como Ryan McCarthy denunciou ao The Grayzone, os seguidores do Falun Gong acreditam que “Trump foi enviado dos céus para destruir o Partido Comunista”. O grupo também acredita que a ciência moderna foi inventada por alienígenas, como parte de um esquema para dominar os corpos humanos; que o feminismo, o ambientalismo, e a homossexualidade são parte de um plano de Satã para nos tornar comunistas; e que a mistura de raças rompe nossa conexão com os deuses.

Desde 2001, Zeng tem trabalhado como repórter para o braço propagandístico do Falun Gong e para a rede de mídia ardentemente pró-Trump, o The Epoch Times. Um exposé da NBC News publicado em agosto de 2019 mostra que a organização gastou mais de US$ 1,5 milhões em cerca de 11.000 propagandas pró-Trump em apenas seis meses, “mais do que qualquer organização para além da própria campanha de Trump, e mais do que a maioria dos candidatos presidenciais Democratas gastaram em suas próprias campanhas.”

Zeng se uniu às forças de extrema-direita estadunidenses para se opor aos movimentos progressistas e socialistas em ascensão no país. Em uma manifestação chamada “Pare o Socialismo, Escolha a Liberdade” (“Stop Socialism, Choose Freedom”, em inglês), organizada pelos Tea Party Patriots em Washington D.C. em setembro de 2019, Zeng fez um discurso intitulado “Eu escapei do ‘Socialismo com Características Chinesas’; Eu não quero viver sob o Socialismo novamente nos EUA” (“I Escaped ‘Socialism with Chinese Characteristics’; I Don’t Want to Live under Socialism again in the US.”, em inglês).

“Eu não quero viver em nenhuma forma de socialismo novamente”, declarou Zeng diante da multidão. “Mas aqui nos Estados Unidos, estou começando a achar que ele me seguiu”.

Zeng discursando na manifestação organizada pelos Tea Party Patriots no dia 19 de setembro de 2019. Foto por Lynn Lin/The Epoch Times.
Zeng discursando na manifestação organizada pelos Tea Party Patriots no dia 19 de setembro de 2019. Foto por Lynn Lin/The Epoch Times.

Zeng escreve que o povo chinês vê Trump como seu “avô poderoso” e espera que ele “dê um fim no Partido Comunista Chinês” da mesma forma que o ex-presidente estadunidense Ronald Reagan “se livrou do Partido Comunista na União Soviética”.

Torcendo para que a China retorne ao estado de dominação pelo ocidente, Zeng defende que os Estados Unidos “regulem o comportamento da China […] com o padrão americano, regras americanas, e normas americanas, que são, é claro, também as normas universais do mundo livre”.

A comunidade médica e científica internacional contesta a propaganda estadunidense anti-China

A recente onda de acusações de que a China está escondendo suas mortes relacionadas ao vírus é apenas o caso mais recente da mídia corporativa de depreciar a resposta chinesa à pandemia, como documentado por Alan MacLeod para a Fairness and Accuracy in Media e a pesquisadora independente Amanda Yu Mei-Na.

Em um brutal contraste com as denúncias do establishment estadunidense, lideranças da Organização Mundial da Saúde (OMS) têm louvado os esforços da China no combate à pandemia de coronavírus e sugerido que o mundo siga suas medidas.

“Em face de um vírus anteriormente desconhecido, a China levou a cabo talvez o mais ambicioso, ágil e agressivo esforço de contenção de doenças da história”, descreve o relatório da missão da OMS, com 25 especialistas médicos que viajaram à China para investigar o surto de Covid-19 em fevereiro de 2020. “A abordagem corajosa da China para conter a rápida propagação desse novo patógeno respiratório tem mudado o curso de uma epidemia fatal e altamente contagiosa”.

“Se eu pegar a Covid, eu vou para a China”, disse o Dr. Bruce Aylward, o diretor-geral assistente da OMS e líder da missão para o Covid-19. “Eles sabem como manter as pessoas vivas”.

“O que eu presenciei foi um tremendo senso de responsabilidade e de dever de proteger suas famílias, suas comunidades, e até mesmo o mundo, dessa doença”, refletiu Aylward. “Eu fui embora com uma profunda admiração pelo povo de Wuhan e pela sociedade chinesa no geral”.

A OMS tem rejeitado categoricamente acusações de que a China foi responsável pela propagação global do Covid-19. De acordo com o diretor-geral Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, “as ações [da China] na realidade ajudaram a impedir a propagação do vírus aos outros países”.

“Eu estou declarando uma emergência de saúde pública de interesse internacional em relação ao surto global do coronavírus, não devido ao que está ocorrendo na China, mas devido ao que está ocorrendo em outros países”, disse Tedros, como é conhecido. “De muitas formas, a China está na verdade criando um novo padrão de resposta a pandemias”.

O Dr. Michael Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências Sanitárias da OMS, reiterou esses sentimentos, dizendo que a agência “não havia nunca antes visto a escala e comprometimento de uma resposta epidêmica nesse nível” e que a China estava “tomando medidas extraordinárias em face de um desafio extraordinário”.

Tragicamente, Washington e a mídia corporativa estadunidense parecem mais determinadas em desviar a culpa de sua resposta completamente inadequada à pandemia do que em proteger os americanos. Com suas alegações belicosas e cada vez mais graves, estão preparando o terreno para outra crise global. Como disseram recentemente duas autoridades do governo a um repórter, “Trump está furioso [com a China] e quer agir”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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