Oriente Próximo

Sozinho e sob sanções: como o Irã combate eficientemente o coronavírus e os EUA

No Irã, o coronavírus infectou até agora 66.000 pessoas e matou 4.100. A posição do país no número de casos confirmados, no entanto, decaiu da 2ª para 8ª no último mês.

Por Ivan Kesić, via Stretegic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre.

Um membro do exército iraniano caminha por um hospital temporário com 2000 leitos, preparado para o combate ao coronavírus em um centro de eventos em Teerã. Foto por Ebrahim Noroozi/AP.
Um membro do exército iraniano caminha por um hospital temporário com 2000 leitos, preparado para o combate ao coronavírus em um centro de eventos em Teerã. Foto por Ebrahim Noroozi/AP.

A pandemia de coronavírus de 2019-2020 está causando impacto em todo o planeta, severas disrupções econômicas, quebra dos mercados de ações, milhões de desempregados, adiamento de eventos culturais e políticos, e o medo do desabastecimento que resulta em surtos de compras. O coronavírus, que causa uma doença respiratória conhecida como Covid-19, afeta atualmente (22/04/2020) mais de 200 países e territórios. Já infectou mais de 1,6 milhões de pessoas e matou mais de 100.000. O fato é, ao contrário de muitas pandemias na história, o atual desastre tem afetado mais gravemente os países mais desenvolvidos do mundo, incluindo suas regiões mais desenvolvidas, os pegando em maioria surpresos e despreparados. Assim, virtualmente todos os países no pico de contágios buscaram e receberam ajuda externa, seja de outros países ou de organizações internacionais. Por outro lado, há um país que, dadas as circunstâncias impostas, é forçado a lutar completamente sozinho.

O Irã registrou seus primeiros casos do SARS-COV-2 no dia 19 de fevereiro de 2020 na cidade de Qom, provavelmente trazidos ao país por comerciantes que viajaram à China, e nos dias seguintes, se tornou um centro de disseminação do vírus na região, assim como o segundo país mais afetado no mundo. Na primeira semana de março, o Irã registrou dúzias de mortos e centenas de infectados por dia, atrás apenas da China como epicentro da pandemia. Ao mesmo tempo, o governo fechou escolas, universidades, shopping centers, bazares, templos sagrados, e cancelou eventos e celebrações públicas. Conforme crescia o número de casos, o Ministro da Saúde anunciou que pontos de controle seriam estabelecidos entre as cidades para limitar o deslocamento. A situação inédita deixou o Irã necessitado de máscaras, respiradores e outros equipamentos médicos, mas as importações são virtualmente impossíveis devido às sanções econômicas unilaterais dos Estados Unidos.

Sustentando a si próprio

Diante de uma política tão desumana, inédita na história das guerras econômicas, o Irã se voltou aos seus próprios recursos. O governo alocou 1.000 trilhões de rials (cerca de US$ 24 bilhões) para reduzir o impacto do surto de coronavírus na economia nacional. No começo de março, uma missão técnica de apoio de cinco dias, que incluía especialistas alemães e chineses, confirmaram a rápida melhora das capacidades de testagem do Irã. Quando a equipe desembarcou, o Irã possuía apenas 22 laboratórios de testagem, e ao irem embora no dia 10 de março, já haviam cerca de 40. Cinco dias depois, o chefe do Pasteur Institute of Iran (IPI), Alireza Beglari, anunciou que o país estava fazendo 6.000 testes por dia em 50 laboratórios, e duas semanas depois, anunciou que os números haviam subido para 20.000 testes e 100 laboratórios.

Ao mesmo tempo, diversas empresas iranianas de biomedicina obtiveram certificados de autoridades sanitárias para produzirem kits de testes de Covid-19 em escala comercial, com cada uma produzindo ao menos 80.000 kits por semana. E além disso, as autoridades sanitárias do Irã examinaram mais de 10 milhões de pessoas em busca de sintomas até o dia 15 de março, 41 milhões na semana seguinte, e 65 milhões ao final do mês. No início de abril, o Irã já havia conduzido cerca de 250.000 testes, tanto quanto a França e o Reino Unido.

Várias organizações governamentais também demonstraram esforços e sucessos tremendos na luta contra a pandemia. A Volunteer Basij Force Organization do Irã abriu laboratórios portáteis de testes rápidos, com resultados em apenas duas horas. O Irã também criou softwares inteligentes nacionais que ajudam os médicos no diagnóstico da Covid-19 com o auxílio de inteligência artificial que analisa as tomografias computadorizadas. O software foi desenvolvido em um projeto conjunto envolvendo pesquisadores de diversas universidades iranianas em apenas um mês. De acordo com o professor de tecnologias de inteligência artificial da Sharif University, a margem de erro do programa na detecção da Covid-19 é muito menor do que os similares produzidos pela China e pela Stanford University nos Estados Unidos.

Pesquisadores na Shahid Beheshti University também desenvolveram testes que podem diagnosticar a doença em 20 minutos, além de máscaras anti-coronavírus e respiradores leves. A universidade criou seis departamentos de pesquisa científica para ajudar as autoridades encarregadas do setor de saúde na contenção da pandemia. Diversas instituições científicas se envolveram no desenvolvimento de medicamentos e terapias para o coronavírus, incluíndo o cientista de células tronco Dr. Masoud Soleimani, recentemente detido de forma ilegal em uma prisão estadunidense, que está desenvolvendo um método que utiliza células mesenquimais do estroma (MSC, em inglês) para tratar pacientes da Covid-19.

O Quartel-General de Execução das Ordens do Imam Khomeini (EIKO), conhecido como Setad, mobilizou todos os equipamentos disponíveis para garantir as necessidades populares e sancionou medicamentos logo no início do surto. Até agora, seus serviços incluem 25 milhões de máscaras de três camadas e N95, lançando uma linha de produção de máscaras médicas – apesar das tentativas estadunidenses de impedir o Irã de acessar respiradores mecânicos, produção de kits de testes iranianos, pesquisas de medicamentos para a doença, abertura da linha telefônica 4030 com a ajuda de 2.200 médicos e paramédicos para tirar dúvidas da população sobre o coronavírus, quebra do monopólio dos Estados Unidos na produção de concentradores de oxigênio (com a produção de 50 máquinas por dia), a produção de 400.000 litros de gel desinfectante, etc.

A Ruptly divulgou que as “autoridades da organização também inauguraram uma fábrica de máscaras que é supostamente a maior no Sudoeste Asiático, em meio a explosiva demanda devido à pandemia de Covid-19, na cidade de Eshtehard, província de Alborz, na terça-feira.”

O chefe do Setad, Mohammad Mokhber, afirmou que a fábrica irá produzir 4 milhões de máscaras por dia equipadas com um nano-filtro, que garante um alto nível de proteção.

A Barakat Foundation, uma subsidiária do Setad, lançou uma linha de produção com capacidade de produzir 1,5 milhões de máscaras de três camadas com nanofibras. Hadi Johari, o vice-diretor, expressou que espera que a empresa consiga ampliar sua produção para 3 milhões por dia, e assim garantir grande parte da demanda interna do produto. Comentando sobre as medidas da Barakat Foundation para conter a disseminação do vírus no Irã, ele disse que desde o início da pandemia, a empresa do noroeste do Irã afiliada à fundação, que antes apenas produzia batas médicas, começou a produzir roupas de isolamento assim que o país se deparou com essa carência. Ele afirmou um número diário de produção dessas roupas entre 2.000 e 2.500, destacando que já haviam sido produzidas mais de 35.000 e distribuídas por hospitais e centros médicos de todo o país.

Em relação à produção de máscaras, Johari disse que diversos pequenos ateliês por todo o país estão trabalhando nesse aspecto sob supervisão da fundação. Ele afirmou que a maioria desses ateliês estão localizados em áreas carentes e distritos rurais, e que produzem cerca de 70.000 máscaras por dia, que são distribuídas em suas respectivas regiões. Segundo Johari, a produção de máscaras nas zonas carentes tem levado a um grande aumento na oferta do produto e nas oportunidades de emprego. Também observou que a Barakat Foundation já distribuiu para os centros médicos roupas de isolamento, máscaras e desinfectantes, em sete zonas carentes do país, incluindo regiões nas províncias de Yazd, Sistan e Balucestan e Kerman, além de regiões do nordeste.

A grande demanda por máscaras deu origem a um fenômeno incrível: a conversão temporária de mesquitas e templos sagrados em fábricas de máscaras locais. Dentro da mesquita Imamzadeh-Masum, localizada no sul da capital Teerã, mulheres se organizaram com máquinas de costura para produzirem máscaras, enquanto outras mulheres dobram e arrumam os materiais conforme são produzidos. Em outra sala, homens sentados em tapetes de reza produzem luvas de plástico com equipamentos rudimentares de vedação térmica. “Nós distribuímos esses produtos para os hospitais e áreas carentes em Teerã e algumas outras cidades”, explicou Fatemeh Saidi, uma mulher de 27 anos envolvida no Basij com seu marido. O templo sagrado de Shah Cheragh na cidade iraniana de Shiraz também foi transformado em ateliê, onde mulheres produzem mais de 3.000 máscaras por dia.

No templo de Shah Cheragh, o filho do Imam Mousa Kazem (AS), o sétimo Imam Shia, na cidade de Shiraz, a capital da província de Fars no sul do Irã, pessoas produzem mais de 3.000 máscaras por dia para combater o coronavírus. Foto via FarsNews.
No templo de Shah Cheragh, o filho do Imam Mousa Kazem (AS), o sétimo Imam Shia, na cidade de Shiraz, a capital da província de Fars no sul do Irã, pessoas produzem mais de 3.000 máscaras por dia para combater o coronavírus. Foto via FarsNews.

De forma similar, o Iran Mall, o maior shopping mall do mundo, que foi construído sob as sanções mais duras, foi transformado em um hospital de Covid-19 com 3.000 leitos. As Forças Armadas do Irã prepararam hospitais com milhares de leitos de Teerã a Bushehr, e o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC, em inglês) tem fornecido o Quartel-General Nacional para o Controle do Coronavírus com 24 hospitais permanentes e 13 móveis, juntamente com 380 clínicas militares em diferentes cidades. Em um discurso na base biológica do IRGC, o Major General Salami disse que o Hospital de Baquiatallah do IRGC forneceu o maior número de leitos para pacientes de coronavírus no país e tem um dos maiores laboratórios de diagnóstico do vírus.

Os resultados de todos esses esforços é abundantemente claro. De acordo com as últimas atualizações divulgadas pelo Ministério da Saúde iraniano, o coronavírus infectou até agora 66.000 pessoas e matou 4.100. A posição do país no número de casos confirmados, no entanto, decaiu da 2ª para 8ª no último mês. Hoje, o Irã está atrás dos Estados Unidos, Espanha, Itália, Alemanha, França, China e Reino Unido. Em comparação com todos esses países, exceto a China, o Irã tem o menor número de casos ativos e menos número de mortes por milhão de habitantes, além do maior número de pessoas recuperadas. O número de infecções e a mortalidade no Irã estão em queda há mais de um semana, ao contrário da maioria dos países. Todo esse sucesso do Irã foi conquistado com menos recursos, tempos e experiência, e com grande participação de organizações classificadas como “terroristas” ou “corporações luxuosas” pelos Estados Unidos.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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