EUA

Os bilionários são os vilões da pandemia, não os seus heróis

Ao mesmo passo que dezenas de milhões de americanos perdem seus empregos durante a crise do coronavírus, os mais ricos viram um aumento em suas fortunas na casa de centenas de bilhões de dólares. E não é mera coincidência.

Por Meagan Day, via Jacobin, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Enquanto os trabalhadores morrem sufocados de Covid-19 nos países capitalistas, Jeff Bezos, fundador da Amazon, se deleita com o aumento de 25 bilhões de dólares de lucro durante o período da crise. Foto por Saul Loeb/AFP.
Enquanto os trabalhadores morrem sufocados de Covid-19 nos países capitalistas, Jeff Bezos, fundador da Amazon, se deleita com o aumento de 25 bilhões de dólares de lucro durante o período da crise. Foto por Saul Loeb/AFP.

Ao mesmo passo que dezenas de milhões de americanos perdem seus empregos durante a crise do coronavírus, os mais ricos viram um aumento em suas fortunas na casa de centenas de bilhões de dólares. E não é mera coincidência.

Mais de 24 milhões de estadunidenses entraram com pedidos de seguro-desemprego nas últimas cinco semanas. Esse número representa mais de 1 em cada 7 trabalhadores. Em comparação, nos tempos anteriores à crise, 1 milhão de trabalhadores fizeram pedidos no mesmo período de cinco semanas.

Um congelamento nas atividades econômicas é necessário para manter o máximo de pessoas possível em casa e conter a propagação do vírus. Mas a devastação econômica em massa não é um resultado inevitável.

Nos países da Europa ocidental e do norte, por exemplo, os governos tomaram medidas agressivas – muitas vezes por pressão da esquerda e dos sindicatos – para proteger os empregos durante a crise, garantindo que, ao retornar a normalidade, estes trabalhadores mantenham suas vagas, e oferecendo auxílio adequado nesse meio tempo. Pesquisadores do Economic Policy Institute chamam esse método de “congelamento da economia”, com a idéia de que pode ser descongelada e restaurada rapidamente ao final da pandemia. Sim, isto custa dinheiro, mas uma recessão econômica interminável também.

Os Estados Unidos escolheram não seguir essa rota. O Congresso autorizou trilhões em gastos, mas com uma só exceção – a indústria de aviação, e apenas pela pressão do sindicato dos comissários de bordo – não tomou nenhuma medida sequer de garantia de salários, permitindo que ocorresse demissões em massa livremente. Estes empregos não estarão necessariamente disponíveis quando as atividades econômicas recomeçarem, provavelmente garantindo uma alta taxa de desemprego por um longo período.

O contexto da austeridade

Nesse meio tempo, enquanto o governo federal estendeu o seguro-desemprego, os trabalhadores estadunidenses sofrem com uma infraestrutura de assistência social inadequada. No verão passado, o National Employment Law Project publicou um artigo intitulado “Os sistemas estaduais de seguro-desemprego ainda são capazes de rebater recessões?” (“Are State Unemployment Systems Still Able to Counter Recessions?”, em inglês). A resposta, concluíram, é negativa: na realidade, muitos sistemas de seguro-desemprego são intencionalmente disfuncionais, projetados para dificultar os pedidos e o recebimento, um tipo de austeridade burocrática. Os autores do estudo recomendaram grandes ajustes anti-austeridade como preparação para a próxima e inevitável recessão.

Mas agora já é tarde demais. Nos estados mais afetados, como a Flórida e a Carolina do Norte, as infraestruturas falidas dos auxílios-desemprego “estão causando um caos na entrada de pedidos. Como resultado, os trabalhadores que precisam dos benefícios estão impedidos de acessá-los”. Além disso, muitos outros estados “que projetaram seus programas para falhar podem colapsar sob o peso da explosão de novos pedidos.”

Como resultado destes e outros erros – nenhum deles acidentais, todos desenvolvidos com os interesses dos contribuintes ricos em mente – a classe trabalhadora dos EUA, que não havia ainda se reerguido da última crise econômico devastadora há pouco mais de uma década atrás, está fadada a sofrer com uma miséria desnecessária. Uma grande parte deste sofrimento poderia ser evitado com o investimento social adequado e um programa anti-austeridade, mas ao contrário, os parlamentares estadunidenses continuaram a destruir a já frágil seguridade social do país, enquanto a desigualdade tem disparado e as fortunas dos mais ricos têm aumentado exponencialmente.

A bonança dos bilionários

E como estão passando os mega-ricos nesses tempos? O relatório anual Billionaire Bonanza do Institute for Policy Studies acabou de ser divulgado, e concluiu que muitos deles estão melhores do que nunca. Trinta e quatro bilionários estadunidenses viram suas riquezas crescerem na casa de dezenas de milhões de dólares desde o início de 2020. Oito deles tiveram um crescimento de mais de um bilhão de dólares. A riqueza combinada de todos os bilionários dos Estados Unidos aumentou cerca de 10%.

“Nessa primavera, em meio à uma pandemia global, as manchetes estampam a benevolência dos bilionários que estão doando quantias equivalentes a 0,00001% de suas fortunas para ajudar seus pares humanos em necessidade”, escrevem os autores do relatório. Eles destacam que a Forbes até mesmo publicou uma servil edição intitulada “Agentes da transformação: Como os bilionários do mundo estão usando suas fortunas para reinventarem seus negócios e fornecer ajuda em meio à pandemia de coronavírus.” (“Agents of Change: How the World’s Billionaires Are Using Their Wealth to Reinvent Their Businesses and Provide Aid Amid the Coronavirus Pandemic.”, em inglês).

Estas são as mesmas pessoas que influenciam, pressionam e balançam doações em frente aos políticos para reduzirem os impostos sobre os ricos. Como resultado de seus esforços, os impostos sobre os bilionários foram reduzidos em 79% nas últimas quatro décadas, e a soma total dos bilionários estadunidenses aumentou de 240 bilhões em 1990 para cerca de 3 trilhões de dólares atualmente.

E tudo isso ao custo, é claro, da austeridade e da precarização dos serviços públicos. Em outras palavras, essas são as mesmas pessoas que convenceram os políticos a projetarem os sistemas de seguro-desemprega para que deixem os trabalhadores na mão. Eles não são os heróis da crise – são os vilões.

O rei da evasão fiscal

O maior especulador da crise é Jeff Bezos. “O fechamento de centenas de milhares de pequenos negócios está dando à Amazon a oportunidade de aumentar sua fatia de mercado, fortalecer sua posição na cadeia de abastecimento, e ganhar maior poder de controle de preços sobre os consumidores”, notam os autores do estudo.

Enquanto é verdade que a Amazon está vendendo e enviando produtos úteis durante o isolamento, também é verdade que Bezos tem sujeitado seus empregados a condições perigosas em relação à pandemia, as quais não podem evitar a não ser que percam seus salários. Consequentemente, depósitos da Amazon em todo o país se tornaram focos de Covid-19. Quando os trabalhadores se levantaram em defesa de sua segurança e da população, sofreram retaliações, incluindo demissões e difamações públicas.

No curso da crise, a fortuna de Bezos aumentou em 25 bilhões de dólares, mais do que o PIB anual de 88 países. Como amostra de sua generosidade filantrópica, ele doou 100 milhões desse montante para a Feeding America.

É claro, Bezos também é o rei da evasão fiscal, o exato mesmo hábito dos mega-ricos que deixou a assistência social de joelhos, agravando o sofrimento das massas trabalhadoras causado pela paralisação econômica. Mas não deixe que isso te distraia.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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