Ásia

Não há ‘neocolonialismo’ chinês em África

Por Deborah Bräutigam, via The Washington Post, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Os empréstimos e investimentos chineses têm contribuído para os países africanos desenvolverem sua infraestrutura em diversos setores. Via ft.com.
Os empréstimos e investimentos chineses têm contribuído para os países africanos desenvolverem sua infraestrutura em diversos setores. Via ft.com.

Em Washington, republicanos e democratas geralmente vêem a China como uma nova potência imperial em África, para a penúria dos africanos. Mas isso é realmente verdade?

Logo antes de sua visita a África no mês passado (março), o ex-Secretário de Estado Rex Tillerson acusou a China de “conceder empréstimos predatórios”, minando o crescimento e criando “poucos senão nenhum” empregos no continente. Na Etiópia, Tillerson acusou os chineses de conceder empréstimos “obscuros” para projetos que aumentam as dívidas sem fornecer treinamento significativo. Como Secretária de Estado, Hillary Clinton seguiu a mesma narrativa, alertando os africanos em relação a esse “novo colonialismo”. A China, como normalmente nos contam, está empregando apenas seus próprios trabalhadores, ou grilando terras africanas para produção de alimentos para seu próprio país.

Mas pesquisadores que estudam o papel da China em África sugerem que muitas das coisas que nossos políticos acreditam sobre esse enlace chinês não são verdadeiras.

1. Empregos e capacitação

Lina Benabdallah, uma professora de ciência política na Wake Forest University, estuda os investimentos chineses em programas africanos de desenvolvimento de recursos humanos. “Os africanos estão sendo convidados para universidades chinesas. A China está oferecendo bolsas de estudo”, disse ela. “Quando os africanos pensam sobre capacitação tecnológica, eles estão pensando na China como uma opção válida”.

Pesquisas sobre os empregados em projetos chineses em África concluem repetidamente que três quartos ou mais da mão de obra é, na realidade, local. Isso faz sentido economicamente. Na China, trabalhadores da indústria têxtil ganham hoje cerca de US$500 por mês – muito mais do que os trabalhadores na maioria dos países africanos. Investidores chineses afluindo fábricas em direção a países de baixo-custo como a Etiópia não estão pensando em importar trabalhadores chineses. Como os empresários estadunidenses e europeus que moveram suas fábricas para a China nas décadas passadas, as empresas chinesas estão agora exportando sua própria produção para países mais baratos.

2. Empréstimos predatórios

Estão os chineses dando empréstimos predatórios? Esse ponto também pode ser iluminado por pesquisadores. Acadêmicos na Boston University e John Hopkins University têm reunido meticulosamente bases de dados sobre empréstimos chineses desde 2000.

Em África, descobrimos que a China já emprestou ao menos US$ 95,5 bilhões entre 2000 e 2015. Isso é muita dívida. No entanto, em geral, os empréstimos chineses em nossa base de dados têm realizado um serviço valioso: financiado a grande defasagem de infraestrutura em África. Em um continente onde mais de 600 milhões de africanos não têm acesso à eletricidade, 40% dos empréstimos chineses pagaram pela geração e transmissão de energia. Outros 30% serviram para modernizar a precária infraestrutura de transporte africana.

Alguns destes projetos foram, sem dúvidas, eleitoreiros e elefantes brancos: aeroportos com poucos passageiros, ou pontes para lugar nenhum. Os presidentes africanos, como os outros, amam inaugurar e deixar legados de grandes construções. Empresas chinesas recebem quase todos os contratos para construírem essas infraestruturas financiadas pela China. Dúvidas foram levantadas sobre sua qualidade. Mas de forma geral, energia e transporte são investimentos que aumentam o crescimento econômico, e observamos que os empréstimos chineses têm comparativamente baixas taxas de juros e prazos longos.

3. Grilagem de terras

As “grilagens de terras” – termo usado para qualquer compra, aluguel ou roubo de grandes porções de terras – são um problema no mundo todo, mas especialmente em África, onde potências coloniais como o Reino Unido e França grilaram praticamente todo o continente. Os relatos de que a China seria agora uma “grileira” aparentam fazer sentido. Afinal, a China tem 9% da terra agricultável do mundo, 6% da água e mais de 20% de sua população. África possui terras abundantes e as maiores reservas de terra e água subutilizadas do planeta. E as empresas chinesas estavam claramente interessadas em investir em África; algumas sondando em relação a terras.

E assim os rumores de grilagem começaram a se espalhar. No site da CBS News: “A China recentemente comprou metade das terras produtivas no Congo”. O principal consultor sobre África da chanceler alemã Angela Merkel disse aos repórteres que uma fome devastadora no Chifre de África há alguns anos foi causada pela “compra de terras em larga escala” por parte da China. Até mesmo o escritor sueco Henning Mankell replicou um relato de “grilagem”: “Eu li outro dia que a China alugou terras no Quênia para enviar um milhão de camponeses para África”.

Intrigada por esses relatos, eu fiz o que pesquisadores fazem. Ao invés de twittar o que podem ser fake news, eu iniciei um projeto de pesquisa.

Nossa equipe no International Food Policy Research Institute e na John Hopkins University coletou uma base de dados de 57 casos onde empresas chinesas (ou o governo) foram acusados de adquirirem ou negociarem grandes (acima de 500 hectares) porções de terras aráveis africanas. Caso todas essas acusações fossem verdadeiras, isso seria o equivalente a alarmantes 6 milhões de hectares – 1% de todas as terras férteis em África.

Nós passamos três anos monitorando cada um desses casos. Nós viajamos de Madagascar a Moçambique, do Zimbábue a Zâmbia. Nós confirmamos que cerca de um terço desses relatos, incluíndo os três citados anteriormente, eram literalmente falsos. Nos demais, encontramos investimentos chineses reais. Mas o total de terras de fato adquiridas por empresas chinesas eram apenas 240.000 hectares: 4% da quantidade relatada.

Os relatos de grilagens em larga escala e envio de camponeses chineses a África para produzir alimentos para a China eram fundamentalmente mitos. Como os pesquisadores do Center for International Forestry Research concluíram após suas rigorosas pesquisas: “A China não é um investidor dominante em agricultura de plantation em África, em contraste com a forma que é retratada frequentemente”.

Nós encontramos um caso de globalização, não colonização; um caso de agência africana, ao invés de rapina chinesa. Em Moçambique, conheci investidores africanos como Zaidi Aly, que viajou ao Brasil para aprender como produzir soja para alimentação local de aves. Por lá, ele conheceu uma empresa chinesa compradora de soja, e os convidou para investirem no grão conjuntamente. Devido a uma estiagem prolongada, a joint venture fracassou, e os chineses voltaram para seu país. Mas Aly me disse que valeu a pena: “Eu aprendi muito com eles”.

Sem dúvidas, o maior envolvimento chinês traz desafios muito reais e significativos para muitos africanos. Comerciantes reclamam da competição com imigrantes chineses. Em nossa pesquisa sobre fábricas chinesas em África entrevistamos trabalhadores africanos que agora estão empregados, mas reclamam dos patrões chineses que esperam por longas jornadas a baixos salários.

A demanda chinesa por marfim, haliote, chifres de rinoceronte e materiais de outras espécies em risco de extinção têm dificultado consideravelmente os esforços de conservação. E a decisão recente do presidente Xi Jinping de acabar com o limite de mandatos pode encorajar líderes africanos que estão relutantes em deixar seus confortáveis cargos presidenciais.

A China é frequentemente vilipendiada como um ator nefasto em seus negócios com África, mas as evidências nos mostram uma história mais complexa. Os empréstimos chineses estão fortalecendo África, e as empresas chineses estão gerando empregos. O investimento agrícola chinês é bem mais modesto do que o divulgado, e bem-vindo por alguns africanos. A China pode impulsionar a transformação econômica em África, ou podem se equivocar – assim como os esforços de desenvolvimento estadunidenses muitas vezes acabam mal.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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