Europa

O imperialismo alemão: pintado de verde

Os Verdes são um partido do establishment burguês como todos os outros, e não oferecem nenhuma saída para os trabalhadores e para a juventude. Eles são parte do problema, a “botina progressista” da classe dominante.

Por Florian Keller, via In Defense of Marxism, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Robert Habeck e Anton Hofreiter celebram a vitória eleitoral na Baviera. Via DPA.
Robert Habeck e Anton Hofreiter celebram a vitória eleitoral na Baviera. Via DPA.

O artigo que segue foi escrito no final de fevereiro e nos primeiros dias de março, logo antes do mundo ser atingido pelo crash dos mercados no dia 9 e pelo impacto total da pandemia do coronavírus. Essa mudança drástica no cenário obviamente também muda os planos da classe dominante. Mas as tendências econômicas e políticas estruturais em jogo ainda são as mesmas, ainda que a questão da mudança climática tenha saído dos holofotes. No caso dos Partidos Verdes, a natureza partidária às classes dominantes se comprova ainda mais durante estes tempos de crise.

Isso ficou mais evidente na Áustria, onde ocupam a posição de parceiros juniores do governo nacional. Para proteger os interesses específicos dos capitalistas austríacos, o governo se recusou a criticar o presidente húngaro Viktor Orbán pela dissolução do parlamento e outras medidas ditatoriais. Os Verdes participaram discretamente dessa política. Como são “campeões dos direitos humanos”, não é mesmo?!

Nos últimos anos, os Partidos Verdes em toda a Europa cresceram de forma inédita nas pesquisas e eleições. Especialmente na parte germanófona do continente, que nós examinaremos com mais detalhe aqui.

Na Áustria, os Verdes saíram do parlamento nas eleições gerais de 2017 como resultado de uma série de severas crises de liderança e divisões. Após o colapso do governo nacionalista-conservador ao fim da primavera de 2019 devido a uma série de escândalos, e uma crise da social democracia em curso, os Verdes retornaram ao parlamento nas eleições gerais em setembro de 2019. Nestas eleições alcançaram resultados nunca antes atingidos. Com 13,9% dos votos, não apenas retornaram ao parlamento como o quarto partido mais forte, mas qualificaram para serem escolhidos como o parceiro júnior favorito no governo liderado pelos conservadores.

Na Suíça, o Partido Verde também atingiu seu melhor resultados até então nas eleições de dezembro do ano passado, com 13,2%.

Na própria Alemanha, após um pico nas pesquisas no ano passado, que por algum tempo indicavam até mesmo que os Verdes poderiam se tornar o partido mais forte, ainda batem regularmente os 20%. As próximas eleições nacionais regulares na Alemanha estão programadas para o outono de 2021. Os partidos governistas dos conservadores e social-democratas enquanto isso estão em constantes crises internas, refletidas em lideranças efêmeras e instáveis. O SPD (Partido Social-Democrata) mudou seus líderes 7 vezes desde 2017. O Die Linke está em constante crise política. A chanceler Angela Merkel renunciou o cargo de líder do CDU (União Democrática Cristã) no outono de 2018, e sua sucessora Annegret Kramp-Karrenbauer também renunciou a liderança do partido em fevereiro de 2020, reavivando as divisões não resolvidas no principal partido da burguesia alemã.

O atual sucesso dos Verdes no mundo germânico contribui objetivamente para estabilização política do regime capitalista. O movimento contra a mudança climática foi um fator decisivo em sua popularidade acentuada. Mas o seu sucesso também representa, em algum nível, uma reação contra a propaganda racista e a ascensão da direita, que por anos tem dominado o debate público e a quem os partidos dos trabalhadores tem capitulado repetidamente. A juventude especialmente tem consciência disso. Em uma pesquisa do ano passado, três quartos dos alemães com menos de 25 anos que foram entrevistados disseram que a discriminação contra pessoas em relação a sua aparência e origem tem aumentado nos últimos anos. E 71% disse que a questão dos “refugiados” é inflada pela mídia e que assuntos mais importantes não são discutidos devido a isso.

Os Verdes se posicionaram como a força que se destacou mais claramente contra a mudança climática e o racismo neste caso. Nesse sentido, esse crescimento reflete em certo grau o cada vez maior ódio em relação aos partidos tradicionais e à crise do sistema capitalista. Mas não devem haver ilusões de que os Verdes são “progressistas” ou uma força de esquerda que de qualquer forma podem de fato contribuir para a superação da mudança climática – ou quaisquer problemas produzidos diariamente pelo sistema capitalista.

Do “radicalismo” à normal política burguesa

Inicialmente, os Verdes surgiram como um subproduto dos grandes movimentos contra a destruição ambiental, energia nuclear, armamento e opressão das mulheres, ao final dos anos 1970 e início dos 1980. No início, como resultado da militância desses movimentos, frequentemente eram cercados por uma aura de radicalismo pequeno-burguês. Muitas vezes tentavam parecer “revolucionários”, mas muitas de suas políticas eram reacionárias.

Nos países germanófonos, boa parte dos estudantes dos diversos grupos e grupelhos “comunistas” se uniram a eles e até mesmo dominaram algumas regiões, especialmente na própria Alemanha – com sua aura progressista, os Verdes pareciam ser uma alternativa aos estéreis e burocráticos partidos social-democratas, que estavam de rabo preso com a “parceria social” com o estado e os patrões. Mas sem nenhuma conexão com o movimento organizado dos trabalhadores e com pouco apelo à maioria deles, o único caminho para os grupos verdes eram uma lenta integração no sistema político como um partido burguês cada vez menos “radical” e mais “normal”.

Na Alemanha, de meados de 1980 em diante, houve diversos governos locais social-democratas-verdes, que fortaleceram a ala “realista” à direita do partido. Ao final da década de 1990, esse processo já havia se aprofundado ao nível que os Verdes já eram uma força totalmente confiável para a burguesia e “receberam o título” de parceiros juniores no governo liderado pelo SPD de Gerhard Schröder, que sob o manto de “progressistas” atacaram os trabalhadores com as mais duras contrarreformas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O caminho traçado pelos Verdes foi revelado quando os seus ministros e deputados (todos com origem no “movimento pela paz”) sancionaram o bombardeio da Iugoslávia em 1999, o primeiro ato de guerra do imperialismo alemão desde 1945. E grande parte destes deputados e ministros eram ex-“comunistas” ou “socialistas revolucionários”, que agora fazem carreira nesse partido.

Atualmente, os Verdes são um vulgar partido burguês. Na Alemanha, estão dentre os partidos com o eleitorado de maior renda média, ao lado da conservadora CDU e apenas atrás do ultra-liberal FDP. Grande parte de sua (pequena) base organizada é uma mistura de pequenos e médios capitalistas verdes, startups, servidores públicos bem-remunerados e uma classe média que aspira à riqueza. A liderança do partido está totalmente orientada aos objetivos dos grandes capitalistas alemães, visando posições no governo. Por isso, cada vez mais se orientam em direção a governos com os conservadores. Em Hesse, em 2013, serviram como “voto de minerva”, escolhendo contra uma coalizão com o SPD, e decidiram por uma coalizão verde-preta com a CDU. A região de Baden-Württemberg, com seus 11 milhões de habitantes e sedes de grandes indústrias como a Daimler, Porsche e Bosch, foi governada por nove anos por um primeiro-ministro verde (ex-maoísta), Winfried Kretschmann, em uma coalizão com a CDU, com total aprovação dos capitalistas: especialmente da indústria automobilística. De forma geral, os verdes estão se preparando para a possibilidade de uma coalizão com a CDU a nível federal, o que é muito bem-visto por parte dos grandes capitalistas.

Políticas verdes para os grandes negócios alemães

Não há coincidência. Para entender as razões para isso, nós não devemos prestar atenção nas belas palavras recitadas pelos líderes verdes em rede nacional. É mais revelador escutar o que eles têm a dizer para seus verdadeiros mestres: o grandes patrões. Em junho do ano passado, a co-presidente verde Annalena Baerbock participou da conferência da Associação de Industriais Alemães (BDI), que ocorreu sob o título de Perspektive Europa (que significa tanto “Europa como uma perspectiva”, quanto “perspectivas para a Europa”).

A co-presidente verde Annalena Baerbock durante a conferência da Associação dos Industriais Alemães, clamando para que o capitalismo europeu (alemão) assegure sua posição no mundo. Foto por Stephan Röhl.
A co-presidente verde Annalena Baerbock durante a conferência da Associação dos Industriais Alemães, clamando para que o capitalismo europeu (alemão) assegure sua posição no mundo. Foto por Stephan Röhl.

Agora, se você pensa que seu discurso foi recebido com relutância (afinal, essa é uma organização dos gigantes do aço, automóveis e máquinas, que na realidade são um cartel de alguns dos maiores responsáveis pela mudança climática), você está muito enganado. Pelo contrário, ela foi melhor recebida do que todos os outros políticos, incluindo a chanceler Merkel e o presidente do FDP, que discursou antes dela. Mas como isso é possível? Para entendermos, vamos citar seu discurso em profundidade.

O tema central foi a unidade da União Europeia – mas não uma “Europa da paz e dos direitos humanos” que os Verdes normalmente apelam. Ela falou, na verdade, sobre a necessidade de uma “maior autoconfiança europeia” e “autonomia estratégica”:

“De um lado, temos os chineses e do outro os americanos, e nós devemos escolher quem iremos seguir – eu não penso nem um pouco assim.”

E depois:

“O que fez a Europa forte nos últimos 70 anos foi que nós tomamos nosso próprio caminho europeu – um caminho europeu, que construiu um mercado comum europeu. E eu penso que devemos defender esse mercado comum europeu no século XXI com base nos valores comuns de nossa comunidade.”

Para Baerbock isso significa, como ela explica em seguida, que “infraestruturas críticas” como a nova rede 5G não deve ser concedida a empresas chinesas com a Huawei. Ao mesmo tempo, ela afirmou que o mercado comum europeu é grande o suficiente para que gigantes da tecnologia americanos como o Facebook ou Google não possam se dar ao luxo de “não obedecerem as regras europeias”.

O que tudo isso significa para ela em relação a questão climática? Ela diz claramente. Para ela, a mudança climática deve ser vista como uma oportunidade de negócios para os capitalistas alemães, que não podem competir com o know how dos gigantes estadunidenses e os preços baixos das empresas chinesas. De acordo com Baerbock, as regras europeias contra a mudança climática devem garantir vantagens competitivas às empresas europeias (o que na verdade significa alemãs). O que ela realmente sugere é ajustar as contas de carbono em favor dos capitalistas alemães. Ela explica como produtores de aço alemães devem desenvolver formas ambientalmente neutras de produzirem aço, que poderão vender para os produtores de carros alemães para compensarem seus poluentes motores a diesel e petróleo.

As empresas chinesas, por outro lado, com seus “preços de dumping”, devem ser submetidas aos chamados “impostos de ajuste de fronteira” – que é apenas uma expressão refinada para tarifas punitivas:

“Todos que recebem subsídios estatais devem pagar uma taxa de ao menos 20% por aqui. Isso seria uma resposta à competição, que na minha opinião é injusta, que vem de fora do mercado comum europeu.”

Assim, a política dos Verdes na Alemanha é na verdade uma guinada ao protecionismo e um reforço da União Europeia sob o disfarce da “luta contra a mudança climática”. E isso é exatamente o que o capital alemão precisa nesse momento.

A melhor aposta para os grandes negócios alemães

O capital alemão precisa garantir sua própria posição em um mundo dividido por conflitos comerciais, no qual seria impossível para a Alemanha sozinha competir contra os gigantes econômicos da China e dos Estados Unidos. Em uma situação onde o fim do crescimento econômico está no horizonte, essa situação só deve se agravar. Isso é a principal razão pela qual o capital alemão está se reorientando em direção a medidas protecionistas e políticas da União Europeia. Nesse sentido, a questão da mudança climática e a ascensão dos Verdes aparecem como uma oportunidade para os grandes industriais, que usam cinicamente essa pauta para seus próprios interesses, para protegerem “seu” mercado.

Mas o programa verde, apresentado por Baerbock, dialoga com os corações da Volkswagen, Daimler, Thyssen-Krupp e todos os outros industrialistas alemães. Para que a União Europeia aja no mercado mundial em favor dos interesses do capital alemão, é necessário que haja uma “unidade europeia” – voluntária ou não.

Apenas dois meses antes do discurso de Baerbock aos industriais, um acordo econômico entre China e Itália acionou os alarmes nas diretorias executivas dos grandes negócios alemães sobre a possibilidade de uma desintegração econômica da União Europeia, o que seria um desastre para o capitalismo alemão. Uma campanha massiva, especialmente relacionada às eleições europeias, “pela unidade da Europa” e “contra o populismo” foi lançada. Mas o principal partido do capital alemão, a conservadora CDU, nesse momento em especial (e até hoje, em certo grau) rachou em relação à questão dos refugiados, que também causou muitos conflitos dentro da própria Europa. Nesse caso, os capitalistas alemães podem se apoiar dos Verdes, com sua posição clara contra o nacionalismo alemão em “pequena escala”.

Não surpreende que estas posições de Baerbock tenham recebido total aprovação dos grandes capitalistas destruidores do meio-ambiente. É fácil imaginar os bem-vestidos e cínicos executivos das grandes fabricantes de carros piscando uns aos outros, quando Baerbock falou de “luta contra a mudança climática”, apenas para aplaudir alegremente cada ataque contra os competidores chineses e os renegados italianos.

É apenas lógico que desde então os capitalistas alemães fizeram de tudo para impor esse tipo de medidas na União Europeia. A nova presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen (a ex-Ministra de Defesa alemã da CDU) tomou para si a responsabilidade de pressionar por um sistema de “impostos de carbono”. No dia 4 de março, ela oficialmente apresentou o plano em nome da Comissão Europeia, mas os detalhes, no entanto, não estão previstos para antes do início de 2021. Até 2050 a União Europeia deve eliminar toda sua emissão de carbono, e produtos de países que “não estão trabalhando para reduzir suas emissões” serão submetidos a tarifas. A revista Time comentou sobre isso, acertadamente: “O plano da UE é uma escalada significativa, mas não é uma total surpresa”.

Quando o mundo está sacudindo, você precisa de uma base sólida

Mas os Verdes oferecem aos capitalistas algo mais que desesperadamente precisam: a legitimidade para governar e uma certa base social. Em tempos onde milhões de pessoas, principalmente estudantes em todo o mundo, se manifestam contra a mudança climática através do movimento Fridays for Future, é um tanto quanto vantajoso para os capitalistas que um partido que existe há anos levantado essa bandeira, mas que está seguramente nas mãos dos grandes empresários.

A influência dos Verdes é uma ameaça direta ao movimento contra a mudança climática – já que são um “cavalo de tróia”: uma ferramenta de inserir políticas capitalistas no programa do movimento. Eles dizem: “Nós gostamos do que vocês fazem, não iremos tentar mudar o que estão fazendo, mas nós seremos sua voz no parlamento com reformas que ajudam a combater a mudança climática” – e dessa forma, dando a ilusão de que existe uma saída “fácil” para a mudança climática no capitalismo, enquanto coloca uma coleira no movimento.

Por exemplo, na Alemanha e Áustria, os grupos da Fridays for Future adotaram a demanda pela taxação de carbono, que é uma medida promovida há tempos pelos Verdes como uma forma “realista” de acabar com a mudança climática. Não entraremos em detalhe nessa questão, mas essa não é só uma medida que não irá parar ou reduzir a mudança climática, mas na realidade será mais um grilhão para a classe trabalhadora e a juventude em suas tentativas de resolver a profunda crise do capitalismo. Dessa forma, os capitalistas estão usando a influência verde para dirigirem o movimento para “caminhos seguros”. Ao invés de ações radicais contra o sistema capitalista, o que eles querem é um movimento verde liberal com nenhuma conexão com a classe trabalhadora, o que pode ser usado como alavanca para “reformas impopulares” sob o disfarce de “luta contra a mudança climática”.

Por fim, os Verdes podem atuar como uma “opção de governo segura” para a classe dominante caso necessário. O exemplo é a Áustria onde, após a ruptura com a antiga coalizão de direita com o FPÖ (Partido da Liberdade da Áustria), o Partido Verde é o novo parceiro júnior do chanceler conservador Sebastian Kurz. Em todas as medidas de ataque aos padrões de vida dos trabalhadores, e até mesmo em políticas racistas, o atual programa de governo é quase indistinguível do anterior. Em alguns sentidos, é até pior. Por exemplo, esse governo coloca de forma muito mais explícita o fardo do cuidado aos idosos nas costas das mulheres trabalhadoras, e ataca as condições de trabalho do setor da saúde.

A mais notável diferença na política austríaca é o uso excessivo das palavras “verde” e “sustentável”. Elas servem para encobrir um simples fato: os Verdes são um partido do establishment burguês como todos os outros, e não oferecem nenhuma saída para os trabalhadores e para a juventude. Eles são parte do problema, a “botina progressista” da classe dominante.

Nesse momento, os partidos da classe trabalhadora estão em profunda crise, refletindo o impasse geral de reformismo em nosso período histórico. Uma posição clara não apenas contra os partidos reacionários de direita, mas também contra os projetos “progressistas” da burguesia é uma pré-condição programática para resolver o grave problema de liderança para os trabalhadores.

Apenas assim pode a classe trabalhadora assumir a tarefa de superar o capitalismo, e com isso, os males que dele decorrem.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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