Brasil

Isolamento social: entre o ‘privilégio’ e a luta de classes

Por Eduardo Pessine

Se você não tem uma BMW igual a da foto, saiba que está abandonado pelo governo Bolsonaro, e também pela dita ‘esquerda’, já que ambos defendem, de maneiras diferentes, o lucro e o isolamento deles, e não o seu. Foto por Eduardo Matysiak.
Se você não tem uma BMW igual a da foto, saiba que está abandonado pelo governo Bolsonaro, e também pela dita ‘esquerda’, já que ambos defendem, de maneiras diferentes, o lucro e o isolamento deles, e não o seu. Foto por Eduardo Matysiak.

A eclosão da pandemia de coronavírus expõe a total precarização dos serviços públicos brasileiros, a expressão mais pura da luta de classes, em um país onde a grande maioria da população vive com metade de um salário mínimo por mês, enquanto os bancos lucram bilhões através do fraudulento sistema da dívida pública.

E nesse conflito sangrento, onde as mortes ocorrem não apenas pela força das armas – expressa no massacre da população negra e pobre das periferias – mas também pela total negligência do estado em relação aos serviços públicos, a classe trabalhadora está isolada entre dois campos da política vulgar e liberal: uma direita proto-fascista, que veste falsamente as cores verde-amerela de nossa bandeira enquanto se ajoelha aos bilionários banqueiros e vendedores de bugigangas estrangeiras e comidas congeladas – como o ‘véio da Havan’ e o ‘véio do Madero’ –, que vivem em suas casas na Flórida; e uma ‘ex-querda’ parlamentar que comemora a esmola de R$600 e culpa os trabalhadores pelas baixas taxas de adesão ao isolamento social.

Ao contrário do que te fazem crer, Bolsonaro não nega o isolamento social por ser ‘louco’, por ser ‘terraplanista’, ou qualquer outra baboseira moralista repetida por essa esquerda degenerada. Ele o faz pela posição que ocupa na luta de classes: o lado da podre burguesia ‘brasileira’, que se preocupa mais com seus lucros do que com a vida dos trabalhadores. O isolamento social significa, na prática, uma paralisia econômica, que impede que aqueles ‘véios’ vendam suas porcarias superfaturadas. Isso significa menos lucro, menos grana. E Bolsonaro se propôs a defender esses interesses. E continuará dificultando ao máximo o isolamento social, pois se não o fizer, não terá mais utilidade aos seus patrões.

Do outro lado, no entanto, temos os supostos defensores do isolamento, a ‘esquerda’. Supostos, já que evitam tocar no ponto central, no que irá decidir se haverá isolamento ou não: a garantia de renda e emprego aos trabalhadores, assim como a suspensão da execução de dívidas e aluguéis, um amplo programa de assistência alimentar e uma linha de crédito aos pequenos empresários. E assim como Bolsonaro, estão impedidos de tocar nesses assuntos – e novamente, não por qualquer justificativa moral, mas porque servem, no fundo, aos mesmos patrões. Pelo contrário, querem fazer crer que R$600 é o valor que nosso povo trabalhador merece e deve se contentar. E além disso: os culpam do isolamento não surtir efeito, fazendo comparações com os ‘civilizados’ europeus, que obedecem às orientações da OMS. Mas ignoram que seus estados, no centro do sistema, garantem seus salários e empregos.

No fim das contas, do que se trata o isolamento social? Certamente não diz respeito a uma simples constatação técnica e científica, como especialistas e cientistas espalham em programas da grande mídia (e até mesmo lives com o Luciano Hulk!), mas se trata da luta de classes. Se trata de escolher entre a vida dos trabalhadores e o lucro dos patrões. E só é possível o isolamento, se o povo trabalhador brasileiro tiver força política suficiente para impor seus interesses, que são resguardar sua saúde e sua renda, sobre a classe dominante. E isso seria o caso em qualquer governo que fosse: Bolsonaro, Haddad, Ciro.

Mas como a política brasileira, em seus dois pólos, se resume hoje à atuação parlamentar e a decisões jurídicas, o isolamento social se torna impossível. Dado que o conflito central, a luta de classes, acontece fora do parlamento, ela se encontra fora do campo de visão dos ‘progressistas’. Mas como afirmou Trotsky1: “Toda revolução é impossível… até que se torne inevitável”. O isolamento social pode seguir o mesmo caminho, já que as perspectivas de propagação do vírus no Brasil atingem cada vez mais contornos catastróficos. Mas isso não cairá do céu – custará milhares de vidas brasileiras.

Vidas essas que podem ser salvas, caso as forças verdadeiramente nacionalistas assumam o caráter de classe do isolamento social – e não com baboseiras de ‘privilégios’ – e atuem com firmeza pela garantia da renda dos trabalhadores e de seus empregos, e para que a burguesia ‘brasileira’ pague essa conta. Não há outra saída.


1  Por razões políticas, é importante ressaltar que, mesmo reconhecendo as contribuições teóricas e políticas de Leon Trotsky, não somos uma publicação trotskista.

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