Oriente Próximo

A ofensiva imperialista no Iêmen e a escalada da Covid-19

Por Khaled Malachi, via Socialist Revolution, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Rebeldes houthis armados em uma caminhonete, do lado de fora da residência do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, em Sanaa, dia 4 de dezembro de 2017. Foto por Mohammed Huwais/AFP.
Rebeldes houthis armados em uma caminhonete, do lado de fora da residência do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, em Sanaa, dia 4 de dezembro de 2017. Foto por Mohammed Huwais/AFP.

Com todas as atenções do mundo voltadas à crise do coronavírus, a guerra saudita apoiada pela ocidente no Iêmen continua inalterada. A máquina de guerra e a indústria de armas, que alimentam essa selvageria, foram consideradas essenciais demais para serem paralisadas durante a pandemia.

É certo que na última quinta-feira (23/04/2020), a Arábia Saudita declarou um cessar-fogo unilateral de duas semanas nas chamadas “áreas humanitárias”. No entanto, horas após o início da trégua, os Houthis alegaram a continuidade de ataques aéreos. Mesmo assim, a atuação dos sauditas fede a hipocrisia. Não tem relação com humanismo, mas sim com o fato de que perderam a guerra, e buscam um caminho de saída. As forças da coalizão liderada pelos sauditas têm levado a cabo uma guerra sangrenta de atrito não apenas contra os Houthis, mas contra o povo iemenita. Tanto o Reino Unido quanto os Estados Unidos têm feito de tudo, menos apertar o gatilho. Esses três países – EUA, Arábia Saudita e Reino Unido – são o primeiro, terceiro e sétimo maiores consumidores de armas do mundo. Juntos, encurralaram o país mais pobre do Oriente Médio.

Os seis anos de guerra civil foram descritos pela ONU como a pior crise humanitária do mundo. De acordo com o Comitê de Resgate Internacional, 230.000 pessoas já morreram como resultado indireto desse massacre unilateral. Todas as infraestruturas essenciais foram destruídas: rodovias, rede elétrica, usinas de energia, saneamento, portos, plantações, escolas e hospitais. Milhares de bombas jogaram o país na absoluta barbárie.

Uma análise recente co-publicada pelo Physicians for Human Rights e o grupo iemenita de direitos humanos Mwatana evidenciou os efeitos causados pela guerra no sistema de saúde. “O que nosso relatório mostra é como as leis humanitárias internacionais foram escancaradamente ignoradas no conflito no Iémen e como, em particular, o ataque nos complexos de saúde causa um impacto de amplo alcance e longo prazo”, disse Osamah Alfakih, diretor da defensoria do Mwatana. O estudo é altamente crítico em relação à negligência das nações imperialistas com os hospitais, clínicas e centros de vacinação, e detalha como os ataques em hospitais e clínicas fecharam mais da metade da infraestrutura iemenita pré-guerra.

O grupo iemenita de direitos humanos documentou 35 ataques aéreos da coalizão em infraestruturas de saúde: isso é “evidência da negligência [da coalizão] em relação ao status de proteção dessas estruturas e aparente falta de vontade ou inabilidade de cumprir com os princípios de distinção e proporcionalidade”. Isso é uma grave condenação dos sanguinários sauditas que estão supostamente preocupados com a segurança do Iêmen e de seus cidadãos.

Atualmente, conforme o coronavírus começa a se propagar pelo país, ainda restam apenas 500 respiradores e dois centros de testes para uma população de quase 30 milhões. Como qualquer tratamento sério pode ser feito nessas condições? Some isso às ansiedades dos profissionais da saúde por serem alvos durante seu trabalho, e nós podemos ver com clareza o quão despreparado o Iêmen está para essa pandemia. “O teste de coronavírus é caro e não está amplamente disponível no Iêmen,” explicou o farmacêutico iemenita Nasri Abdulaziz para o Middle East Eye, “então creio que os casos surgirão subitamente, todos ao mesmo tempo, e enfrentaremos graves problemas”.

O Iêmen já sofreu surtos de cólera inéditos em tempos modernos. Em outubro de 2018, houveram mais de 1,2 milhões de casos registrados. Mais de 2.500 pessoas, a maioria delas crianças, morreram devido a este surto. A falta de moradias adequadas e saneamento básico torna a estratégia de “achatamento da curva” através do distanciamento social impossível.

E além disso tudo, no mês passado (março), o governo Trump cortou auxílios essenciais, dos quais dois terços dos 28 milhões de iemenitas dependem para sobreviver. As autoridades afirmaram que isso foi uma respostas necessários à interferência dos rebeldes Houthi. Essa manobra expôs a real crueldade da classe dominante americana; estão dispostos a explorarem essa pandemia para aumentar a pressão sobre o povo do Iêmen. A Oxfam alertou que esses cortes podem chegar até US$ 200 milhões por ano, e irá reduzir os projetos de saneamento e outros tantos. Na sexta-feira (24/04/2020), o Programa de Alimentação Mundial da ONU confirmou que foi forçado a reduzir pela metade o auxílio para as áreas do Iémen controladas pelos Houthis. As vidas colocadas em risco desnecessariamente por essa manobra marcam o ponto baixo de uma já grave situação.

O Reino Unido

Nosso estado “democrático” britânico é inteiramente cúmplice da guerra e tem licenciado £ 5,3 bilhões em exportações de armamentos para os sauditas desde o início do conflito. No ano passado, o licenciamento da exportações de armas foi julgado ilegal. Desde então, o governo conservador têm acabado com as burocracias, e essas empresas cujas exportações foram julgadas ilegais têm sido liberadas para continuarem seus negócios como de costume. Para piorar ainda mais, no último setembro, os tories admitiram liberar “acidentalmente” novas licenças que poderiam ser usadas na guerra no Iêmen. As lágrimas de crocodilo dos tories quando pressionados sobre esse tema exigem uma grande ingenuidade para serem levadas a sério!

Ao fornecerem jatos Typhoon e Tornado, o Reino Unido tem sido essencial no esforço da Arábia Saudita. Mas seu envolvimento não acaba na exportação de armamentos. O fornecimento constante de treinamento, manutenção e apoio técnico têm sido cruciais para as operações sauditas. O Ministro da Defesa até mesmo confirmou que conselheiros militares britânicos estão em salas de controle ajudando os sauditas em bombardeios. Documentos apresentados à ONU mostram que bombardeios sauditas em alvos civis aconteceram apenas dias depois desses treinamentos. Colocando de forma clara, autoridades britânicas são responsáveis por treinarem seus aliados nas artes sombrias que assolaram e dividiram o Iêmen.

Enquanto Secretário de Assuntos Estrangeiros, Boris Johnson sempre elogiava nosso rigoroso controle da exportação de armamentos. Na mesma linha, ele garantiu que “é uma loucura e ilusão” sugerir que a catástrofe tem qualquer relação com o Reino Unido. Infelizmente para Johnson, os fatos são coisas teimosas. A Arábia Saudita é de longe o maior comprador de armamentos britânicos. Ameaçar esses contratos e vendas colocariam em cheque os lucros das mesmas corporações que financiam o partido.

Nós vimos os apelos do governo para que todos fiquem em casa para salvar vidas. Lastimavelmente, esse conselho não pode ser oferecido aos milhões de iemenitas que perderam suas casas e comunidades devido a nada menos que o papel de nosso governo neste conflito. O conceito de “distanciamento social”, quando os iemenitas são constantemente desalojados pelo massacre em curso, muitas vezes abrigados em campos de refugiados lotados, se prova uma piada cruel.

Enquanto isso, os tories tem desenhado discretamente planos para “um novo fundo de £ 1 bilhão para apoiar compradores internacionais de bens e serviços britânicos de defesa e segurança”. Justamente enquanto o coronavírus começa a atingir o Iêmen, os tories estão oferecendo dinheiro público para que os gangsters em Riade potencializem seu imperialismo. O Departamento de Comércio Internacional tem até mesmo uma equipe especializada em promover tais vendas. Enquanto os tories pregam a segurança e unidade na TV, nos bastidores estão dispostos a apoiar qualquer tipo de morte e destruição – desde que haja lucro envolvido.

O imperialismo estadunidense

Os Estados Unidos, assim como o Reino Unido, não têm um “plano final” para esse conflito desde o início. Na verdade, nós podemos observar que seus apoios são sempre alinhados com seus objetivos permanentes na região: defender seus rasos interesses imperialistas e lucrar com desastres, dos quais eles (frequentemente) são os arquitetos.

Primeiro apoiaram o governo do reacionário presidente Abdullah Saleh, que foi derrubado após os eventos revolucionários em meio a Primavera Árabe. Então, apoiaram o aliado de longa data de Saleh, Abdreabbuh Mansur Hadi, visando desviar a revolução para caminhos seguros que protegessem seus interesses. Naquele momento, eles também se apoiaram nos Houthis na luta contra a Al-Qaeda. Depois, se esconderam atrás da Arábia Saudita e de Hadi para combater os Houthis, que tinham apoio popular muito maior do que o governo de Hadi. Fizeram isso apenas para manter a tensa relação com os sauditas, mas foi a maior ajuda possível para a Al-Qaeda (seus supostos “inimigos” na região), que ganharam espaço. Conforme escreve o jornalista Patrick Cockburn, as forças terroristas no país são os reais vencedores desta guerra, apesar da suposta linha dura de Trump nesse aspecto.

Longe de estabilizar a região, o presidente Donald Trump tem jogado lenha na fogueira. Em 2017, assinou uma série de cartas de intenção para a compra de armamentos com os gangsters de Riade. As vendas totalizaram US$ 110 bilhões de imediato, e US$ 350 bilhões em 10 anos. Desde o início da guerra do Iêmen, a monarquia saudita tem sido o maior importador mundial de armamentos. Inicialmente, o establishment liberal tentou pintar Mohammad Bin Salman (MBS) como um grande reformador. Essa narrativa foi destruída após o jornalista saudita Jamal Khashoggi ter sido esquartejado no consulado saudita em Istambul.

Conforme MBS se tornou um pilar de sustentação para Trump, eles se voltaram contra ele. Os dois homens são agora estreitamente dependentes um do outro. Trump usou seu veto múltiplas vezes no ano passado no Congresso para impedir a retirada de apoio para MBS, mas os democratas, por sua vez, não são inocentes, já que foi o governo Obama quem deu início à guerra no Iêmen ao lado do príncipe saudita. Dois ex-membros do governo Obama recentemente testemunharam ao Congresso que autoridades estadunidenses sabiam desde, ao menos 2016, que altos militares seniores sauditas e dos Emirados Árabes não tinham nenhum interesse em reduzir as mortes de civis no Iêmen. Ao contrário, vidas são sacrificadas no altar do capital, potencializado pela maior desestabilização da região.

A hipocrisia dos políticos ocidentais só serve como um fino véu sobre os crimes que seguem cometendo no Iêmen. Repetidamente, nós observamos que a classe dominante não pode resolver o flagelo das massas na região – ela é em si o problema. Com o coronavírus no horizonte a situação só irá piorar. A classe dominante e seu sistema são as verdadeiras doenças e o único caminho para o avanço da humanidade é derrubá-los de uma vez por todas.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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