África

O tabuleiro africano: a Coreia do Sul

A partir de 2006, durante a presidência de Roh Moo-hyun, Seul começaria a fixar novamente seu interesse no continente africano, com um projeto de investimentos e comércio que tem crescido exponencialmente.

Por Laura Revenga, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine

Encontro anual do Banco de Desenvolvimento Africano, que ocorreu em 2018 na cidade de Busan, Coreia do Sul. Via ABD.
Encontro anual do Banco de Desenvolvimento Africano, que ocorreu em 2018 na cidade de Busan, Coreia do Sul. Via ABD.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Nas últimas décadas temos testemunhado a entrada de um novo ator na disputa por África. Após obter um crescimento econômico sem precedentes, conhecido como “o milagre do Rio Han”1, a Coreia do Sul necessita de recursos e aliados para consolidar sua posição frente as atuais tensões geopolíticas e regionais. Sobretudo, deseja conter a iniciativa diplomática da República Popular Democrática da Coreia no continente africano.

Os vínculos entre Seul e África são recentes. Na década de 1960, a Coreia do Sul formalizou relações com estados africanos que se mantiveram neutros durante a Guerra da Coreia (1950-53), como o Chade, Camarões, Costa do Marfim e Niger em 19612. Durante a Guerra Fria, Seul não concentrou seu interesse diplomático pelo continente, e com o fim do conflito, esta situação se transformou drasticamente.

A partir de 2006, durante a presidência de Roh Moo-hyun, Seul começaria a fixar novamente seu interesse no continente africano, com um projeto de investimentos e comércio que tem crescido exponencialmente.

Tendência comercial entre a Coreia do Sul e África (Total das exportações sul-coreanas a África em milhões de US$, porcentagem de África nas exportações sul-coreanas, total de importações sul-coreanas de África, porcentagem de África nas importações sul-coreanas, comércio total entre África e Coreia do Sul em milhões de US$, e porcentagem da Coreia do Sul no comércio africano. Via afdb.com
Tendência comercial entre a Coreia do Sul e África (Total das exportações sul-coreanas a África em milhões de US$, porcentagem de África nas exportações sul-coreanas, total de importações sul-coreanas de África, porcentagem de África nas importações sul-coreanas, comércio total entre África e Coreia do Sul em milhões de US$, e porcentagem da Coreia do Sul no comércio africano. Via afdb.com

A estratégia sul-coreana vai de acordo com sua maneira de conceber as relações internacionais. Ela se baseia no soft-power para garantir que os países africanos orbitem em torno de seus interesses e minimizar a presença de Pyongyang no continente. Os países africanos enfrentam uma população em constante crescimento e infraestruturas insuficientes para desenvolver uma economia competitiva. O compromisso de Seul no continente, sobretudo na África subsaariana, está motivado por três fatores: a busca por segurança alimentar e energética, o estabelecimento de novos mercados para os produtos manufaturados sul-coreanos e a melhora de suas credenciais como potência mundial3.

Um exemplo disso é a iniciativa sul-coreana Saemaul Undong (Movimento de Novas Cidades), para modernização do campo em quatro etapas: estabelecer líderes comunitários e reunir fundos, organizar reuniões na comunidade para envolver a todos, modernizar casas e criar instalações culturais, e constituir conselhos locais e se associar com povos vizinhos.

Durante a última década do século XXI, os subsídios e projetos tem se convertido no principal pilar da estratégia de Seul para forjar associações chave em África4. Cabe mencionar que Seul proporcionou 11 milhões de dólares a Ruanda para um projeto de desenvolvimento comunitário rural em 2015 e convidou funcionários do governo ruandês ao Foro de Liderança Global Saemaul, na Coreia do Sul, para a formação dos funcionários dos países em desenvolvimento5.

O restante dos atores em África, como a República da França, também realizam investimentos em diversos âmbitos, como o comércio, infraestrutura, etc. Vale lembrar que a empresa francesa Eiffage firmou um contrato de construção de um terminal de contêineres no Togo em 20146. No entanto, a Coreia do Sul tem uma carta na manga, já que Seul é um dos líderes da Quarta Revolução Industrial7 e foi etiquetado em 2017 como o país mais inovador do mundo8. Se destaca o acordo entre o governo de Ruanda e a Korea Telecom (KT Corp, em inglês), com um investimento de 140 milhões de dólares para a criação de uma rede de 4G para 95% dos cidadãos ruandeses9.

A diplomacia e cooperação têm sido outros pontos fortes para os interesses sul-coreanos. Sobretudo, com o governo de Lee Myung-bak (2008-2013), já que Seul passaria da cooperação econômica para a política internacional10. Isso tem se traduzido no fomento da integração bilateral e multilateral. A nível bilateral, é relevante a aproximação com Uganda. Em março de 2013, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, e sua contraparte sul-coreana, Park Geun-hye, discutiram a expansão dos laços comerciais, a cooperação em matéria de segurança e a assistência em campos como a educação11. Este passo tem significado o aumento da cooperação de Uganda com Seul, em detrimento da Coreia do Norte.

No plano multilateral, em 2010, o governo sul-coreano foi pioneiro na entrada das questões de desenvolvimento na agenda do G2012, como um aceno a África. Também, Seul tem criado laços com a União Africana, com o Banco de Desenvolvimento Africano (ADB, em inglês), através da iniciativo da Cooperação Econômica Coreia-África13, entre outros orgãos.

No setor da infraestrutura, Seul tem centrado seus esforços e firmado vários acordo com os governos africanos. Cabe mencionar a empresa sul-coreana Fortune, Fuel and Frontier Markets, que conseguiu seu maior contrato estrangeiro em 2013, em Marrocos14. Da mesma forma, na Tanzânia, as empresas sul-coreanas têm centrado seus esforços na construção do hospital de Mloganzila, a construção da ponte Kigongo-Busisi e uma rodovia de 42km na região de Tabora15. Na Etiópia, ambos governo acordaram um empréstimo de 86 milhões de dólares para a construção de centros de pesquisa na Universidade de Ciência e Tecnologia de Adama16.

As empresas sul-coreanas têm se deslocado a África, atraídas por novos mercados para suas exportações, negócios e a obtenção de recursos naturais. as exportações de Seul para África estão se diversificando, desde o setor eletrônico à indústria pesada, entre outros. No entanto, o grosso das importações por parte da Coreia do Sul do continente africano se concentra em petróleo e gás, entre outras matérias primas.

Seul mantém uma alta dependência das importações energéticas dos estados que conformam o Conselho de Cooperação do Golfo. Isso provoca que a Coreia do Sul seja um estado muito vulnerável a qualquer volatilidade ou qualquer disrupção em seu fornecimento de gás e petróleo17. Por isso, o país sul-coreano tem centrado seus esforços na diversificação de suas rotas energéticas.

Um exemplo seria a empresa Daewoo, que firmou um acordo de 350 milhões de dólares em 2010 para a construção de cinco navios petroleiros para a empresa estatal Sonagol. Da mesma forma, a Hyundai e Samsung estão atualmente construindo seis navios de gás natural liquefeito (GNL) para a Nigéria. O SK Group foi pré-selecionado para a construção de uma refinaria de petróleo de 2,5 bilhões de dólares em Uganda. Outro exemplo é o consórcio sul-coreano-canadense, Daewoo e POSCO, sendo um dos três grupos pré-selecionados para a licitação do projeto hidrelétrico Inga 3 na República Democrática do Congo18.

Presença da Coreia do Sul em África. Via koreatimes.co.kr
Presença da Coreia do Sul em África. Via koreatimes.co.kr

No plano militar, a Coreia do Sul tampouco está ficando atrás. Seul tem focado seus esforços nas zonas costeiras africanas. Por exemplo, um navio da marinha sul-coreana patrulhou o Chifre da África em 2017 como parte de um grupo de trabalho dirigido pela União Européia19. Outra atividade em que participa a Coreia do Sul são as operações de luta contra a pirataria, sob a Operação Liberdade Duradoura (OEF, em inglês), nas águas da Somália. Desde seu início em 2008, a unidade de Cheonghae já rastreou 31 navios piratas e escoltou 2.048 navios de carga sul-coreanos através do Golfo de Adén, por onde passam ao redor de 30% dos navios comerciais sul-coreanos20.

Além disso, Seul está fomentando o programa World Friends Korea, que é uma iniciativa estatal de voluntários no estrangeiro similar ao Corpo de Paz dos Estados Unidos, como o objetivo de promover a marca sul-coreana na África Subsahariana21. Muito embora os estados da África Oriental tenham um dilema entre cooperar com a Coreia do Sul ou a Coreia do Norte. Caberia mencionar que Uganda tem começado a cooperar com tropas sul-coreanas em missões da ONU no Sudão Meridional22. No entanto, a maioria dos estados africanos seguem sendo resistentes a deixarem de cooperar com Pyongyang.

Seul está se envolvendo cada vez mais em missões de paz. As Forças Armadas da República da Coreia começaram a aumentar sua participação em assuntos internacionais, como os esforços humanitários e de emergência em casos de desastre por todo o mundo. Da mesma forma, está desempenhando um papel proativo na comunidade internacional23. O país tem participado em operações da ONU na Costa do Marfim e no Sudão com envio de efetivos. Atualmente, participa na missão da ONU para o referendo no Saara Ocidental e em Darfur.

A Companhia de Engenharia Militar da Coréia do Sul doou equipamentos em Bor, no Sudão do Sul. Via gurtong.net
A Companhia de Engenharia Militar da Coréia do Sul doou equipamentos em Bor, no Sudão do Sul. Via gurtong.net

A quinta reunião do Fórum Coreia-África (KAF, em inglês) celebrada em 2016, contou com delegações da maioria dos estados africanos, Coreia do Sul e participantes de diversas naturezas. Esse foi o maior conclave diplomático celebrado entre ambas as partes desde sua primeira conferência em 2006. Nesta edição, se abordou a “transformação da qualidade da agricultura africana através a industrialização e das finanças inclusivas”. Esta temática se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e o Plano de Ação de Addis Abeba, entre outros assuntos24.

Delegados africanos e sul-coreanos que participaram da última edição em 2016. Via nigrizia.it
Delegados africanos e sul-coreanos que participaram da última edição em 2016. Via nigrizia.it

A emergência de potências como a China, e sobretudo, a presença da Coreia do Norte, tem feito com que certas regiões esquecidas como África voltem a ter relevância para Seul. Estes novos atores têm colocado um fim às antigas práticas consistentes em uma vantagem efetiva das potências frente aos estados africanos.

Do mesmo modo, o envolvimento de Seul em África tem crescido a um ritmo constante em diversas esferas, como infraestrutura. A Coreia do Sul terá de manter um hábil equilíbrio e presença no continente africano para seu próprio benefício. No entanto, o comércio bilateral entre África e Coreia do Sul segue sendo baixo e representa apenas 2% do comércio mundial do país asiático.

Além disso, a maioria das exportações sul-coreanas se concentram na Libéria, Nigéria e África do Sul25. Essas exportações se baseiam no setor de eletrônicos e da indústria pesada. Porém, em 2011 a empresa KORES firmou um acordo com a empresa sul-africana Frontier Rare Earths para a exploração conjunta de terras raras no sudoeste da África do Sul26. Esse movimento mostra o interesse de Seul em diversificar e aumentar sua presença nos seus principais mercados africanos.

Seul tem o potencial de estabelecer uma relação com as nações africanas baseada no benefício mútuo. Esse vínculo poderá se concentrar no potencial das pequenas e médias empresas sul-coreanas para aumentar o êxito da presença da Coreia do Sul na África Subsaariana27. Da mesma forma, esses laços no médio e longo prazo podem modificar as atuais dinâmicas africanas, relegando outros atores atualmente predominantes, como por exemplo, a França.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://elordenmundial.com/el-milagro-del-rio-han-un-referente-para-el-desarrollo/

2  https://thediplomat.com/2019/08/south-koreas-africa-outreach/

3  https://thediplomat.com/2017/10/south-koreas-saemaul-undong-in-africa/

4  Ibid.

5  Ibid.

6  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

7  https://www.brookings.edu/opinions/korea-africa-relations-hold-enormous-trade-development-and-investment-potential/

8  https://www.koreaexpose.com/fourth-industrial-revolution/

9  https://www.theguardian.com/world/2013/jun/11/rwanda-4g-internet-south-korea

10  https://thediplomat.com/2019/08/south-koreas-africa-outreach/

11  Ibid.

12  https://www.theguardian.com/global-development/2010/oct/04/south-korea-development-g20-summit

13  https://www.afdb.org/en/countries/non-regional-member-countries/coree

14  https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/field/field_document/20141027SouthKoreaAfricaDarracqNeville.pdf

15  https://www.thecitizen.co.tz/news/South-Korea–Tanzania-ramp-up-diplomatic–economic-ties/1840340-4675814-ta3sukz/index.html

16  https://borkena.com/2019/08/26/ethiopia-south-korea-agreed-to-establish-the-ministerial-joint-committee/

17  https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/field/field_document/20141027SouthKoreaAfricaDarracqNeville.pdf

18  Ibid.

19  https://navaltoday.com/2017/04/21/south-korea-joins-anti-piracy-drill-in-gulf-of-aden/

20  http://blog.keia.org/2016/07/south-koreas-overseas-peacekeeping-activities-part-i-the-history-and-current-status/

21  https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/field/field_document/20141027SouthKoreaAfricaDarracqNeville.pdf

22  https://www.chathamhouse.org/expert/comment/regional-competition-could-obstruct-south-korea-s-charm-offensive-east-africa

23  http://blog.keia.org/2016/07/south-koreas-overseas-peacekeeping-activities-part-i-the-history-and-current-status/

24  https://www.afdb-org.kr/news-and-info/292/

25  https://www.chathamhouse.org/publication/south-korea%E2%80%99s-engagement-sub-saharan-africa-fortune-fuel-and-frontier-markets

26  Ibid.

27  Ibid.

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