América Latina

Eleições estadunidenses, coronavírus e a América Latina

A expansão dos interesses estadunidenses na América Latina parece um fato, ainda mais em um cenário pós-pandemia em que os Estados Unidos precisarão recuperar sua declinante proeminência no marco do sistema internacional.

Por Arantxa Tirado, Tamara Lajtman e Aníbal García Fernández, via CELAG, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O curso das eleições previstas para o final de 2020 nos Estados Unidos sofreu uma reviravolta significativa com a renúncia de Sanders e a crise desatada pelo coronavírus. Via CELAG.
O curso das eleições previstas para o final de 2020 nos Estados Unidos sofreu uma reviravolta significativa com a renúncia de Sanders e a crise desatada pelo coronavírus. Via CELAG.

Em uma declaração que surpreendeu a muitos, o pré candidato democrata Bernie Sanders anunciou sua retirada das primárias de seu partido, deixando o caminho livre a Joe Biden como candidato democrata de facto para enfrentar Donald Trump. A decisão de abandonar a campanha por parte de Sander, um outsider marginalizado em seu próprio partido, seu posterior respaldo à candidatura de Biden e a chegada do coronavírus têm alterado as primárias democratas, deixando no limbo algumas das eleições estaduais pendentes frente a essa espantosa situação. No entanto, Biden não é ainda o candidato oficial, pois deverá ser nomeado pelo partido na convenção que está prevista para o próximo agosto1.

O calendário eleitoral segue seu curso; no dia 3 de novembro de 2020 ocorrerão as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em um cenário pós-pandemia que determinará, em boa medida, o equilíbrio das preferências do eleitorado. Sem dúvida, a irrupção imprevista do coronavírus e seu forte impacto em número de mortes e na polarização política no país podem mudar por completo o resultado das eleições.

Coronavírus, eleições e lideranças

Os Estados Unidos são o país com maior número de infectados e mortos por coronavírus no mundo, com mais de 780.000 e 42.000 (22/04/2020), respectivamente. Donald Trump pareceu apostar desde o início em não sacrificar a economia em nome da preservação de um maior número de vidas humanas. Declarou estado de alerta e resgatou a Lei de Produção para a Defesa de 1950 para a compra de respiradores2. Mas suas declarações sobre a quantidade de mortos que calculavam ter pelo impacto da crise, como um fato inevitável, mostravam sua vontade de não paralisar a economia nem restringir e mobilidade. Se trata de uma postura que recebe apoio por parte de seus seguidores mas que tem encontrado oposição em alguns governadores.

A forma de gerir a crise está causando o embate entre diferentes leituras do momento e o choque entre o Governo Federal e os outros níveis de poder do país, assim como as prioridades de cada uma das lideranças políticas, com algumas delas ganhando muita força. Os governadores dos estados da Califórnia, Oregon e Washington anunciaram um “Pacto dos Estados do Oeste” para coordenar a reabertura de suas economias e, sobretudo, a atenção sanitária aos seus habitantes, com ênfase especial nas comunidades mais vulneráveis3. O governador de Nova Iorque, o democrata Andrew Cuomo, denunciou a especulação com o preço dos respiradores4, adiou as primárias em seu estado e tem se destacado por sua liderança na resposta à pandemia, o que o tem levado a um confronto com o presidente Trump5.

Ainda que faltem seis meses para as eleições de novembro – e se possa prever que até lá o impacto da pandemia já terá sido controlado – se fala da possibilidade de adiar sua realização. Tal decisão não depende do presidente, mas sim do Congresso, que deve iniciar um procedimento que finalmente deve ser aprovado por Trump. A volatilidade dos acontecimentos fazem com que qualquer coisa possa suceder até novembro, no entanto, salvo em caso de algum imprevisto maior, nunca descartável no atual contexto, Joe Biden e Donald Trump serão nomeados como os respectivos candidatos dos partidos Democrata e Republicano nas convenções de agosto e disputarão a presidência dos Estados Unidos.

Biden na América Latina e Caribe: preencher o “vazio de liderança”

Joe Biden tem uma vida política recheada de escândalos6. Foi presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado durante seus seis mandatos como senador por Delaware. Como vice-presidente do governo de Barack Obama, liderou as relações estadunidenses com a América Latina e o Caribe em diversos setores7.

Em 2013 disse que a região já não é o “quintal” estadunidense, mas sim o “pátio da frente”8. Em 2018, se gabou de ter estabelecido, junto a Obama, uma base de cooperação na região, centrada na responsabilidade conjunta, cujos principais exemplos estariam no aprofundamento das relações com o México, uma agenda global de cooperação com o Brasil, a revitalização do compromisso com a América Central, a reconstrução do Haiti após o terremoto, o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, o apoio ao processo de paz na Colômbia e uma melhora da segurança energética no Caribe9.

Com o horizonte próximo das eleições, Biden afirmou que a gestão de Trump destruiu os êxitos do governo democrata, gerando um “vazio de liderança” que abriu espaço para o avanço da China e Rússia na região: “Nossos rivais geopolíticos estão preenchendo com entusiasmo o vazio de liderança enquanto os Estados Unidos ficam para trás”10. Em uma entrevista realizada nos finais de março de 2020, o candidato voltou a afirmar que a “atual ausência de liderança americana no hemisfério ocidental é a ameaça mais importante à segurança nacional dos Estados Unidos”, afirmando que a incompetência e o descuido de Trump na América Latina e Caribe (ALC) acabarão no primeiro dia de seu governo”11.

Um informe recente da American Society/Council of the Americas (AS/COA) destaca as prioridades da campanha de Biden para a ALC12:

Tabela 1: Via CELAG, tradução de Eduardo Pessine.
Tabela 1: Via CELAG, tradução de Eduardo Pessine.

As pesquisas sobre o embate presidencial e a Covid-19

Ainda que tenha recentemente desaparecido da agenda midiática, o envolvimento do filho de Joe Biden em um suposto caso de corrupção, e a solicitação de Donald Trump ao presidente ucraniano para investigar a suposta participação política de Biden no caso, desencadeou o Ucraniangate, o que poderia ser o gatilho para o impeachment do presidente Trump. Este processo, ao fortalecer a coesão de seu campo, poderia reforçar a liderança de Trump e garantir sua reeleição, mas a irrupção do coronavírus e a gestão de seu governo podem levar a resultados distintos.

A aprovação do presidente Donald Trump

Em relação à aprovação/desaprovação de Trump, o site FiveThirtyEight13 publicou os seguintes dados:

Tabela 2: Aprovação/Desaprovação de Donald Trump de janeiro a abril de 2020. Dados de 4 agências de pesquisas (Yougov, Morning Consult, RR/POR, IPSOS), aprovação acima, desaprovação abaixo.
Tabela 2: Aprovação/Desaprovação de Donald Trump de janeiro a abril de 2020. Dados de 4 agências de pesquisas (Yougov, Morning Consult, RR/POR, IPSOS), aprovação acima, desaprovação abaixo.

Em termos gerais, segundo as agências de pesquisa que tem trabalhado desde janeiro, a desaprovação do governo Trump não tem aumentado demasiadamente, ainda que represente mais de 50% em várias pesquisas.

Se observamos os dados de aprovação de Trump por estado, o MorningConsult apresentava os seguintes resultados para o mês de fevereiro14:

Tabela 3: Desaprovação/Aprovação de Donald Trump por estado, fevereiro de 2020. Estados com aprovação majoritária à direita, com desaprovação à esquerda.
Tabela 3: Desaprovação/Aprovação de Donald Trump por estado, fevereiro de 2020. Estados com aprovação majoritária à direita, com desaprovação à esquerda.

Segundo o 270towin, os estados que ainda não estão definidos são: Arizona, Wisconsin, Michigan, Pensivânia, Carolina do Norte e Flórida15.

A gestão do coronavírus

O Pew Research divulgou dados no dia 16 de abril sobre a gestão do coronavírus. Cerca de 65% dos estadunidenses considera a resposta de Trump frente a crise “lenta demais”, e 34% considera “rápida”. Além disso, 73% dos entrevistados expressaram que o pior ainda estava por vir16.

Em meados de fevereiro, 46,8% aprovaram a gestão frente o coronavírus, enquanto 26,5% desaprovaram. No dia 3 de março, depois da primeira morte por Covid-19, 43,4% aprovaram e 42,8% desaprovaram. No dia 13 de março, quando Trump declarou emergência nacional a desaprovação subiu para 49,1%, e a aprovação caiu para 43,5%. Já no dia 21 de março, quando a cifra de desemprego nos Estados Unidos superou mais de 10 milhões, 46,8% desaprovaram, e 46,5% aprovaram. No último dia 6 de abril, com mais de mil mortes por Covid-19, a desaprovação era de 46,7% e a aprovação de 48,6%. Em 20 de abril, 49,1% desaprovaram, e 47,3% aprovaram a gestão da crise17.

Por partido, a aprovação de Trump frente a crise da pandemia em março era: 82,4% de republicanos e 21% de democratas. No 1º de abril, 86% de republicanos e 20% de democratas aprovaram sua resposta frente à pandemia18. Parece evidente que as afinidades ideológicas dão maior margem de credibilidade à gestão do governo, ainda que em termos gerais também parece evidente que o impacto do coronavírus poderá dificultar a reeleição de Trump em novembro.

Pesquisas eleitorais

Em relação às eleições, na segunda semana de abril a FiveThirtyEight publicou19:

Tabela 4: Preferências eleitorais Trump-Biden em abril de 2020. Três agências de pesquisa (PublicPolicyPolling, Change Research e MorningConsult), Trump à esquerda, Biden à direita.
Tabela 4: Preferências eleitorais Trump-Biden em abril de 2020. Três agências de pesquisa (PublicPolicyPolling, Change Research e MorningConsult), Trump à esquerda, Biden à direita.

Em março, antes da renúncia de Sanders, as pesquisas realizadas entre 10 e 24 de março davam 47% de intenção de voto a Sanders, frente à cerca de 39% para Trump. Se o candidato democrata fosse Biden, a porcentagem era de 48% contra 36% de Trump. E, por último, o também ex-candidato Buttigieg obteria 56% contra 44% de Trump20.

Sanders recebia cerca de 70% dos votos da chamada geração Z (18-22 anos) frente a 20% de Biden, segundo dados da MorningConsult. Entre os millenials (23-38 anos) a distância se reduzia a 59% para Sanders e 39% para Biden21. Biden terá de capitalizar o voto dos jovens (18-38), que em sua maioria apoiavam Sanders, deu um dos primeiros acenos ao defender a remissão das dívidas por empréstimos universitários22.

Ainda veremos se Joe Biden receberá todo o respaldo do Partido Democrata. Segundo a Pew Research, dos democratas que apoiavam Biden em janeiro de 2020, 73% consideram que sim. No entanto, entre os democratas que apoiavam Sanders no mesmo período, 53% consideram que o partido respaldará Biden unanimemente. Em termos gerais, 63% dos eleitores democratas registrados consideram que o partido respaldará Biden23.

Algumas reflexões finais

A renúncia de Bernie Sanders e a irrupção do coronavírus, com o impacto que terá nos Estados Unidos e no planeta, podem facilitar a chegada à Casa Branca do candidato democrata Joe Biden. Trump irá enfrentar duas situações que não previa: um Partido Democrata presumivelmente aglutinado em torno da figura de apenas um candidato, e a gestão desgastante de uma crise nunca antes vista na história dos Estados Unidos, com questionamentos internos por parte de outras lideranças políticas emergentes, no marco de uma economia em recessão. Os bons resultados econômicos não servirão para a campanha eleitoral, que será marcada sem dúvidas pelo impacto da pandemia, e por uma população que, com toda probabilidade, ficará muito afetada psicológica e economicamente. A maioria dos mortos por Covid-19 sendo afroamericanos24, grupo que tende votar majoritariamente nos democratas, também pode ter um efeito na campanha para Biden, que pode canalizar o descontentamento deste setor social marginalizado em seu próprio país.

Essas dificuldades internas explicam, em parte, os últimos movimentos do governo Trump anunciando manobras antinarcóticos no Caribe, focadas em ameaçar a Venezuela. O desvio de atenção dos problemas internos buscando um inimigo externo, como cortina de fumaça e forma de reduzir as diferenças. Um eventual eleição de Biden não implicaria, no entanto, em melhores notícias para a ALC. A continuidade das políticas de ingerência e expansão dos interesses estadunidenses na região parece um fato, ainda mais em um cenário pós-pandemia em que os Estados Unidos precisarão recuperar sua declinante proeminência no marco do sistema internacional, pela via já conhecido de reforçar sua posição na ALC.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://www.theguardian.com/us-news/2020/apr/10/us-election-coronavirus-voting-trump-biden

2  https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/memorandum-order-defense-production-act-regarding-3m-company/

3  https://www.gov.ca.gov/2020/04/13/california-oregon-washington-announce-western-states-pact/

4  https://www.independent.co.uk/news/world/americas/coronavirus-ventilator-new-york-cases-andrew-cuomo-price-cost-a9431861.html

5  https://www.infobae.com/america/eeuu/2020/04/17/el-momento-en-el-que-donald-trump-y-andrew-cuomo-se-cruzaron-en-vivo-por-sus-gestiones-ante-la-pandemia-de-coronavirus/

6  https://elpais.com/internacional/2020-04-18/las-fortalezas-del-candidato-biden-son-tambien-sus-debilidades.html

7  https://br.usembassy.gov/remarks-vice-president-joe-biden-20th-annual-caf-conference/

8  https://www.americaeconomia.com/node/136614

9  https://www.americasquarterly.org/content/joe-biden-el-hemisferio-occidental-necesita-el-liderazgo-de-los-estados-unidos

10  https://www.americasquarterly.org/content/joe-biden-el-hemisferio-occidental-necesita-el-liderazgo-de-los-estados-unidos

11  https://www.americasquarterly.org/content/los-candidatos-2020-responden-preguntas-sobre-latinoamerica

12  https://www.as-coa.org/articles/eeuu-2020-joe-biden-sobre-los-temas-que-afectan-am%C3%A9rica-latina

13  https://projects.fivethirtyeight.com/trump-approval-ratings/

14  https://morningconsult.com/tracking-trump-2/

15  https://www.270towin.com/maps/consensus-2020-electoral-map-forecast

16  https://www.people-press.org/2020/04/16/most-americans-say-trump-was-too-slow-in-initial-response-to-coronavirus-threat/

17  https://projects.fivethirtyeight.com/coronavirus-polls/

18  https://projects.fivethirtyeight.com/coronavirus-polls/

19  https://projects.fivethirtyeight.com/polls/

20  https://projects.fivethirtyeight.com/polls/

21  https://morningconsult.com/2020-democratic-primary/

22  https://www.forbes.com/sites/zackfriedman/2020/04/09/student-loans-forgiveness-biden

23  https://www.people-press.org/2020/04/16/most-americans-say-trump-was-too-slow-in-initial-response-to-coronavirus-threat/

24  https://www.theguardian.com/world/2020/apr/08/its-a-racial-justice-issue-black-americans-are-dying-in-greater-numbers-from-covid-19

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