EUA

O que a inteligência estadunidense realmente sabia sobre o ‘vírus chinês’?

Por Pepe Escobar, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Donald Trump e Mike Pence com membros da Força-Tarefa do Coronavírus, em coletiva de imprensa na Casa Branca, 26 de fevereiro de 2020. Foto por D. Myles Cullen/White House.
Donald Trump e Mike Pence com membros da Força-Tarefa do Coronavírus, em coletiva de imprensa na Casa Branca, 26 de fevereiro de 2020. Foto por D. Myles Cullen/White House.

A guerra híbrida 2.0 contra a China, uma operação bipartidária americana, já está atingindo um ponto insustentável. Sua guerra informacional 24/7 culpa a China por tudo relacionado ao coronavírus – servindo como uma tática diversionista contra quaisquer críticas em relação à lamentável falta de preparo estadunidense.

A histeria reina, como esperado. E isso é só o começo.

Uma enxurrada de ações judiciais é iminente – como uma no distrito sul da Flórida pelo Barman Law Group (ligado aos democratas) e Lucas-Compton (ligado aos republicanos). Resumindo: a China deve pagar toneladas de dinheiro. Na casa de pelo menos US$ 1,2 trilhões, que calha de ser – por uma ironia surrealista – a quantidade de títulos do Tesouro dos EUA nas mãos de Pequim, chegando até o valor de US$ 20 trilhões, alegado por uma ação no Texas.

A acusação, como Scott Ritter bem nos lembrou, parece sair diretamente de Monty Python. Funciona dessa maneira:

“Se ela pesa o mesmo que um pato… ela é feita de madeira! E portanto… uma bruxa!!!”

Nos termos da guerra híbrida 2.0, o atual estilo-CIA da narrativa se traduz na malvada China não nos dizendo, ao ocidente civilizado, que havia um novo terrível vírus à solta. Caso tivessem avisado, nós teríamos tido tempo para nos prepararmos.

No entanto eles mentiram e trapacearam – por falar nisso, marcas registradas da CIA, de acordo com o próprio Mike “mentimos, trapaceamos, roubamos” Pompeo. E eles encobriram tudo. E eles censuraram a verdade. Então, queriam infectar todos nós. Agora eles devem pagar por todo o dano financeiro e econômico que estamos sofrendo, e por todas as pessoas mortas. É culpa da China.

Todo esse barulho e fúria nos forçam a retornar ao final de 2019 para conferir o que a inteligência estadunidense realmente sabia até então sobre o que seria depois identificado como Sars-Cov-2.

“Tal dossiê não existe”

O padrão de ouro continua sendo a reportagem da ABC News, segundo o qual informações coletadas em novembro de 2019 pelo National Center for Medical Intelligence (NCMI), uma subsidiária da Pentagon’s Defense Intelligence Agency (DIA), já alertavam sobre um novo contágio virulento saindo de controle em Wuhan, baseado em “análises detalhadas de comunicações interceptadas e imagens de satélite”.

Uma fonte anônima disse à ABC, “os analistas concluíram que podia ser um evento cataclísmico”, afirmando também que as informações foram “notificadas múltiplas vezes” para a DIA, aos Chefes do Estado-Maior do Pentágono, e até mesmo à Casa Branca.

Não é surpresa que o Pentágono foi forçado a emitir uma negativa proverbial – em “pentagonês”, através do Coronel R. Shane Day, o diretor do NCMI da DIA: “Em favor da transparência durante essa atual crise de saúde pública, nós confirmamos que a reportagem sobre a existência/publicação de um dossiê do NCMI sobre o coronavírus em 2019 não está correta. Tal dossiê não existe”.

Bem, se tal “dossiê” houvesse existido, o atual chefe do Pentágono e ex-lobista da Raytheon Mark Esper estaria muito bem informado a respeito. Ele foi devidamente questionado sobre isso por George Stephanopoulos da ABC.

George: “O Pentágono recebeu um dossiê de inteligência sobre a Covid na China no último novembro do NCMI da DIA?”

Esper: “Ah, eu não me lembro, George . […] Mas, nós temos muitas pessoas que acompanham isso de perto.”

George: “Esse dossiê foi feito em novembro, e foi apresentado para o Conselho de Segurança Nacional [NSC, em inglês] no começo de dezembro para avaliar o impacto na preparação militar, o que, é claro, o tornaria importante para você, e a possível propagação nos Estados Unidos. Então, você saberia se existiu uma apresentação para o NSC em dezembro, não saberia?”

Esper: “Sim […] Eu não estou a par disso.”

Então “tal dossiê não existe”? É uma falsificação? É uma invenção da CIA e do Deep State para emboscar Trump? Ou estão os suspeitos de sempre mentindo, ao estilo registrado da CIA?

Vamos revisar alguns acontecimentos de fundo essenciais. No dia 12 de novembro, um casal do interior da Mongólia deu entrada em um hospital de Pequim, buscando tratamento para uma infecção pulmonar.

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) chinês afirmou publicamente no Weibo – o Twitter chinês – que as chances disso se tornar uma nova epidemia eram “extremamente baixas”. O casal foi colocado em quarentena.

Quatro dias depois, um terceiro caso de infecção pulmonar foi identificado: um homem também do interior da Mongólia, sem relações com o casal. Vinte oito pessoas que estiveram em contato próximo com o homem foram colocadas em quarentena. Nenhuma teve sintomas da doença. A infecção pulmonar tem sintomas de insuficiência respiratória similares à pneumonia.

Ainda que o CDC repetisse, “não há de se preocupar com o risco de infecção”, é claro que havia um grande ceticismo. Apesar do CDC ter confirmado publicamente os casos de infecção pulmonar no dia 12 de novembro, Li Jifeng, que trabalha no hospital Chaoyang, onde as três pessoas da Mongólia estavam recebendo tratamento, publicou privadamente, no WeChat, que eles foram transportados para Pequim, na verdade, no dia 3 de novembro.

O ponto central do post de Li Jinfeng – depois censurado – foi quando ela escreveu, “eu sou familiarizada com o diagnóstico e tratamento da maioria das doenças respiratórias (…) Mas desta vez, eu tentei, mas não consegui identificar qual patógeno causou a pneumonia. Eu apenas pensei que era uma condição rara e não colhi muitas informações para além dos históricos dos pacientes”.

Mesmo se esse fosse o caso, o ponto central é que os três casos do interior da Mongólia parecem ter sido causados por uma bactéria detectável. A Covid-19 é causada pelo vírus Sars-Cov-2, e não uma bactéria. O primeiro caso de Sars-Cov-2 só foi detectado em Wuhan na segunda metade de dezembro. E foi apenas no mês passado (março) que os cientistas chineses puderam traçar retroativamente o primeiro caso real de Sars-Cov-2 para o dia 17 de novembro – alguns dias depois do trio mongol.

Sabendo exatamente onde procurar

Está fora de questão imaginar que a inteligência estadunidense, e nesse caso o NCMI, estava alheio a esses acontecimentos na China, considerando a espionagem e que essas discussões ocorreram abertamente no Weibo e WeChat. Então, se o “dossiê” do NCMI não é falso e realmente existe, apenas encontrou evidências, ainda em novembro, de algumas vagas instâncias de infecção pulmonar.

Então o alerta – para a DIA, o Pentágono, o NSC, e até mesmo para a Casa Branca – teria sido sobre isso. Ele não poderia ter sido sobre o coronavírus.

A questão ardente é inevitável: como o NCMI possivelmente poderia saber sobre uma pandemia viral, ainda em novembro, quando os médicos chineses só identificaram os primeiro casos de um novo tipo de pneumonia apenas no dia 26 de dezembro?

Some isso à questão intrigante do porquê o NCMI estava tão interessado nessa particular gripe sazonal na China, em primeiro lugar – desde os casos de infecção tratados em Pequim aos primeiros sinais de um “surto misterioso de pneumonia” em Wuhan.

De fato ocorreram sinais sutis de um ligeiro aumento de atividade nas clínicas em Wuhan no final de novembro e início de dezembro. Mas naquele momento ninguém – médicos chineses, o governo, sem mencionar a inteligência estadunidense – poderiam saber o que de fato estava ocorrendo.

A China não poderia estar “encobrindo” o que só foi identificado como uma nova doença no dia 30 de dezembro, e devidamente comunicado à OMS. Então, no dia 3 de janeiro, o chefe do CDC estadunidense, Robert Redfield, telefonou ao chefe do CDC chinês. Os médicos chineses sequenciaram o vírus, e apenas no dia 8 de janeiro estava determinado que se tratava do Sars-Cov-2 – o causador da Covid-19.

Essa sequência de eventos reabre, novamente, uma potente Caixa de Pandora. Nós temos o oportuno Evento 201; a cômoda relação entre a Bill and Melinda Gates Foundation e a OMS, assim como O Fórum Econômico Mundial e a galáxia de Johns Hopkins em Baltimore, incluindo a Bloomberg School of Public Health; o combo ID digital/vacina ID2020; o Dark Winter – que simulou um bio ataque de varíola nos Estados Unidos, antes dos ataques de antraz de 2001 serem imputados aos Iraque; senadores estadunidenses vendendo ações após uma reunião com a CDC; mais de 1.300 executivos abandonaram suas poltronas macias em 2019, “profetizando” o total colapso do mercado; o Fed jogando dinheiro do helicóptero já em setembro de 2019 – como parte do QE4.

E então, validando a reportagem da ABC News, Israel entra no jogo. A inteligência israelense confirma que a inteligência estadunidense de fato os alertou em novembro sobre uma pandemia potencialmente catastrófica em Wuhan (e novamente: como eles possivelmente poderiam saber isso na segunda semana de novembro, tão cedo?) e aliados da OTAN também foram alertados – em novembro.

A conclusão é explosiva: o governo Trump assim como o CDC tiveram um alerta prévio de nada menos que quatro meses – de novembro a março – para se prepararem propriamente para a chegada da Covid-19 nos Estados Unidos. E eles não fizeram nada. Todo o caso de “a China é uma bruxa” está desmascarado.

Além do mais, a revelação israelense sustenta algo nada menos que extraordinário: a inteligência estadunidense sabia sobre o Sars-Cov-2 pelo menos um mês antes dos primeiros casos confirmados e detectados pelos médicos de um hospital em Wuhan. Põe intervenção divina nisso.

Isto só poderia acontecer se a inteligência estadunidense soubesse, com certeza, sobre uma cadeia de eventos anteriores que levaria necessariamente ao “surto misterioso” em Wuhan. E não apenas isso: eles sabiam exatamente onde procurar. Não no interior da Mongólia, não em Pequim, não na província de Guangdong.

Nunca é demais repetir a questão: como poderia a inteligência estadunidense saber sobre um contágio um mês antes dos médicos chineses terem detectado um vírus desconhecido?

Mike “mentimos, trapaceamos, roubamos” Pompeo pode ter entregado o jogo quando disse, publicamente, que a Covid-19 era um “exercício ao vivo”. Somando isso à reportagem da ABC News e os informes israelenses, a única conclusão possível e lógica é que o Pentágono – e a CIA – sabiam previamente que uma pandemia seria inevitável.

Essa é a prova cabal. E agora todo o poder do governo dos Estados Unidos está encobrindo as brechas ao, proativamente e retroativamente, culpar a China.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s