Europa

Reino Unido: incompetência, húbris e austeridade

Por Adam Booth, via In Defense of Marxism, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Via POOL News.
Primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Via POOL News.

Uma recente reportagem chocante do Sunday Times revela os erros fatais cometidos pelos tories (conservadores), cuja incompetência e inércia resultaram em milhares de mortes evitáveis. Os trabalhadores e a juventude devem lutar para derrubar esse regime apodrecido.

“O Reino Unido sonambulou para o desastre”. Assim concluíram os jornalistas do Sunday Times, investigando o rosário de erros fatais cometidos pelo governo conservador no manejo da pandemia de Covid-19.

Observados de forma isolada, cada um desses incidentes podem parecer um erro honesto; o resultado de uma situação caótica, inédita e imprevisível. Mas quando reunidos, surge uma imagem clara, em que a húbris e arrogância de Boris Johnson e de seus ministros elitistas custaram milhares de vidas.

Esses crimes não serão esquecidos, não podem ser jogados para debaixo do tapete, como foi feito com as decisões fatais que levaram ao desastre de Grenfell. Um dia – em breve – Boris Johnson e os tories haverão de pagar, e a classe trabalhadora se organizará para fazer justiça contra esses assassinos.

O fracasso do governo

A reportagem de ontem (20/04/2020) do Sunday Times é clara e inequívoca. Esse foi um fracasso governamental em escala monumental.

“Boris Johnson se omitiu em cinco reuniões sobre o vírus”, logo no início do artigo. “Pedidos para encomendar equipamentos de proteção foram ignorados e alertas de cientistas não foram ouvidos”.

“As falhas em fevereiro podem ter custado milhares de vidas.”

Semanas que poderiam ter sidos usadas para preparação foram perdidas. Equipamentos vitais – como ventiladores, proteção individual e kits de testes – não foram adquiridos. Enquanto isso, os assessores do governo riam de nervos entre si, sabendo que o país estava completamente desequipado para lidar com uma doença altamente infecciosa e letal.

De acordo com uma fonte anônima de Downing Street:

“[Os assessores do governo] faziam piadas entre si, ‘ha-ha, tomara que não tenhamos uma pandemia’, porque não havia uma única área de atuação sendo fomentada para atingirmos os requesitos básicos para lidar com uma pandemia, sequer ainda lidar bem”.

“Se você conviveu com gerentes sênior do NHS nos últimos dois anos, você sabe que o maior medo, o pior pesadelo, era uma pandemia, porque eles não estavam preparados para isso.”

A inércia e incompetência

Enquanto o restante do mundo estava soando os alarmes, no Reino Unido, Whitehall e Westminster estavam paralisados pela incompetência e a inércia.

Ministros conservadores se exibiam indiferentes em relação à iminente ameaça. Após a reunião inicial do Cobra – o conselho emergencial do governo – no dia 24 de janeiro, o Secretário de Saúde Matt Hancock declarou que o coronavírus teria apenas “baixo” risco no Reino Unido. No entanto, a doença já estava assolando a China, e cientistas já a comparavam com a pandemia de gripe espanhola de 1918, que matou 50 milhões de pessoas.

Quase um mês depois, no dia 21 de fevereiro, os oficiais do governo decidiram manter o nível de risco em moderado. Isso tudo apesar do fato que o vírus estava espalhando por todo o globo, com 76.000 casos estimados internacionalmente, e 2.300 mortes relacionadas ao vírus na China. No dia seguinte, a Itália registrou 51 casos e duas mortes. E, mais importante, o Reino Unido já havia registrado casos em diferentes áreas do país.

No entanto, durante essas semanas, praticamente nada foi feito. Em todos os níveis, decisões urgentes foram adiadas. E apelos de conselheiros especialistas para aumentar o grau de risco foram ignorados.

A carência e escassez

A austeridade dos conservadores, segundo o Sunday Times, também contribuiu. Os estoques de equipamentos de proteção se esvaíram ao longo dos anos, conforme os recursos escassos do NHS (sistema público de saúde britânico) eram direcionados para carências mais imediatas.

A aquisição de equipamentos essenciais pelo governo, no entanto, era baseada em contratos “just-in-time” e nas redes globais, que evaporaram rapidamente quando países passaram a fazer de tudo para obter máscaras e luvas.

Na verdade, o Reino Unido estava até mesmo enviando equipamentos para outra direção – a China – nesse período, reduzindo os estoques para além dos seus níveis já perigosamente baixos.

Tentativas para superar a carência de respiradores, enquanto isso, eram um caso ainda mais ridículo. Apenas nos últimos instantes o primeiro-ministro reconheceu o problema. Mas mesmo assim, ao invés de controlar a indústria para produzir novas máquinas, ele implorou aos donos das fábricas para participarem de sua indelicadamente nomeada ‘Last Gasp Operation’ (‘Operação Último Suspiro’, em inglês).

Passaram semanas, no entanto, e poucas das aguardadas máquinas apareceram. Os ministros conservadores prometeram milhares de novos respiradores através de uma vasta gama de consórcios com grandes empresas. Mas a maioria dos projetos e protótipos foram rejeitados por falharem em atender as exigências necessárias e padrões de qualidade, deixando o NHS desprovido das ferramentas urgentemente necessárias para salvar vidas.

A indiferença e arrogância

Programas de testes foram pontuais, nos melhores do casos, e inexistentes, nos piores. Desde o início, agentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) bradavam aos países “testem, testem, testem!” para identificar e conter a doença. Mas Johnson e os tories – imbuídos de uma arrogância etoniana típica da degenerada classe dominante britânica que representam – ignoraram essa orientação deliberadamente.

O Reino Unido possui uma gama de laboratórios e centros de testes. Eles poderiam ter sido utilizados para implementar um programa de testagem em massa para isolar os surtos da doença. Isso foi feito em outros países, como na Alemanha, onde o atual número de morte é uma fração do número britânico. Mas o governo fracassou até mesmo em entrar em contato com o setor de testagem.

De acordo com Doris-Ann Williams, a chefe da British In Vitro Diagnostics Association, que representa 110 companhias de testagem britânicas, sua organização não foi abordada pelo governo até o dia 1º de abril – muito após o início das medidas de isolamento, e após o vírus já ter saído de controle.

O governo conservador é claramente responsável por essa negligência. A estratégia em relação à pandemia colocada em prática foi totalmente inadequada. O planejamento existente era voltado ao combate de uma doenças como a gripe – e não o muito mais letal novo Coronavírus. Como resultado, a agora infame “imunização de manada” foi adotada e mantida, muito depois de já estar claro que levaria à uma catástrofe.

Em verdade, os cientistas-chefe do governo, como Chris Whitty, apoiaram o conceito de “imunização de manada”. Mas é evidente que a estratégia ganhou terreno fértil dentre os indiferentes ministros conservadores, aos quais a idéia de isolamento social e paralisação econômica era uma anátema.

O conselheiro-chefe e Svengali de Downing Street, Dominic Cummings, foi dito como um firme defensor do plano; assim como Boris Johnson e seu time de libertários, que sem dúvidas queriam manter os negócios funcionando normalmente, a fim de proteger o lucro dos patrões.

Condenados pela húbris

Tão cedo quanto dia 26 de fevereiro, estudos e modelos científicos já surgiam, alertando sobre a necessidade de medidas de distanciamento social serem implementadas no Reino Unido a fim de evitar um número de mortes na casa de centenas de milhares.

Nas semanas seguintes, quarentenas foram impostas em toda Europa – com escolas, restaurantes e bares fechados e grandes agrupamentos proibidos – para proteger a saúde pública. No Reino Unido, no entanto, a mensagem oficial ainda era de “mantenham a calma e lavem as mãos”.

Apenas no dia 23 de março o país foi oficialmente colocado em isolamento. Mas com dias e semanas vitais perdidas, a doença já havia se espalhado. Como resultado, as mortes tragicamente – e desnecessariamente – aumentaram. E o Reino Unido está agora a caminho de registrar o maior número de mortes por Covid-19 na Europa, e o segundo maior do mundo, depois dos Estados Unidos.

“Eu havia assistido o que ocorreu em Wuhan”, declarou um funcionário do Departamento de Saúde ao Sunday Times, “mas presumi que não devíamos nos preocupar porque estávamos fazendo nada. Nós apenas assistimos”.

“Uma pandemia sempre esteve no topo de nossos registros de risco nacional – sempre – mas quando ela veio, nós simplesmente assistimos. Nós podíamos ser a Alemanha, mas ao contrário, nos condenamos por nossa incompetência, nossa arrogância e nossa austeridade.”

Desaparecido em meio ao combate

E onde estava Boris Johnson durante tudo isso? A reportagem do Sunday Times é conclusiva: o primeiro-ministro se ausentou nas ações.

Inebriado com seu sucesso eleitoral de dezembro, e imerso nas celebrações do Brexit Day, o primeiro-ministro ignorou todos os alertas de uma catástrofe anunciada. A atitude complacente de Johnson é exemplificada por sua omissão em 5 reuniões do Cobra sobre o coronavírus. Apenas no dia 2 de março o líder conservador participou de sua primeira reunião sobre a pandemia.

Mas o primeiro-ministro não se ausentou apenas das reuniões. Durante grande parte desse tempo, ele esteve totalmente sumido do governo, passando semanas em sua casa de campo em Chevening, com sua noiva, Carrie Symonds, que está grávida.

“Não há como estar em guerra se o seu primeiro-ministro não está presente”, afirmou um dos assessores de Downing Street ao Sunday Times. “O que você descobre sobre o Boris é que ele não participava de nenhuma reunião. Ele gostava de suas folgas no campo. Ele não trabalhava durante os finais de semana. Era como trabalhar para um executivo-chefe antiquado de um governo local há 20 anos atrás. Havia um sentimento real que ele não havia feito um planejamento de urgência. E aconteceu exatamente como as pessoas temiam que seria.”

A quem os deuses desejam destruir

Boris Johnson é sem dúvida um bufão; um imbecil; um palhaço renomado. Mas sua atitude negligente e complacente frente a esse desastre histórico não é inédita. Na verdade, cada um dos regimes apodrecidos ao longo da histórica mostraram a mesma húbris e insensibilidade em seus momentos finais.

Assim foi com Luís XVI e sua esposa mimada, Maria Antonieta, que promoviam bailes decadentes enquanto as massas revolucionárias morriam de fome e, mais tarde, decidiram invadir o paraíso na França. Assim foi com o czar russo e o kaiser alemão, que trocaram correspondências fraternais às vésperas da Primeira Guerra. E assim foi com o odiado imperador romano Nero, que supostamente tocava sua lira em seu palácio enquanto Roma – e seus cidadãos – queimavam no furioso incêndio.

Mas essas características comuns não são acidentais. Como representantes de um sistema que já passou há tempos de sua data de validade, tais figuras são destinadas pela história a serem impotentes e insensíveis nos momentos mais decisivos.

“A resolução, a hipocrisia, a falsidade”, disse Leon Trotsky, notando as similaridades entre as desafortunadas monarquias francesa e russa, “foram, nos dois casos, a expressão não tanto duma fraqueza pessoal, mas da completa impossibilidade em manterem-se em posições herdadas.”

“Os historiadores e os biógrafos com tendências psicológicas infrequentemente procuram e descobrem o elemento puramente individual, ocasional, onde se reflectem, através das individualidades, as grandes forças históricas.”, continua Trotsky, em História da Revolução Russa. “Como os antigos diziam, aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco.”

Esses comentários sobre os antigos regimes da França e Rússia são uma apta explicação para a perversidade e degeneração do atual governo conservador – os defensores de um sistema capitalista senil e decadente que deve ser, da mesma forma, derrubado.

O establishment retomando o controle

O conteúdo chocante da reportagem do Sunday Times tem certamente chamado a atenção aos erros letais daqueles no topo. E seguindo exemplo deste porta-voz da classe capitalista pertencente ao império Murdoch, o restante da mídia mainstream se alinhou com investigações semelhantes que descrevem os graves erros do governo.

Similarmente, o novo líder trabalhista Keir Starmer apareceu recentemente de seu esconderijo, e finalmente começou a lançar questionamentos mais contundentes ao governo. Até agora, Starmer havia feito uma maravilhosa imitação do “Homem-Invisível” – notável, em maior parte, por sua ausência.

Nas vezes que o “Sir” Keir Starmer se pronunciou, foi principalmente para oferecer seus serviços ao establishment para a formação de um governo de união nacional. Ou, escandalosamente, para pressionar os tories a discutirem estratégias pós-isolamento, quando o foco do país deveria ser salvar vidas agora, e aumentar o fornecimento de equipamentos de segurança, respiradores e testes.

Mas a existência destes artigos – e da nova linha de atuação de Starmer – levanta mais questões do que responde. Mais importante, por que agora? Por que tais revelações só estão sendo expostas neste momento?

Afinal, até mesmo a Reuters – a agência internacional de notícias – noticiou os mesmos eventos na semana passada. A Socialist Appeal tem denunciado os perigos da arrogância dos conservadores desde antes do início do isolamento, após a reviravolta do governo e o abandono de sua estratégia de “imunização de manada”.

O fato de que o Sunday Times – um jornal dos grandes negócios – tenha feito críticas tão fortes ao governo conservador é significativo. Mostra que a classe dominante não confia em Boris Johnson e seu grupo de Brexiteers para controlarem esta crise. Ao invés dos atuais dissidentes que ocupam Downing Street, preferem muito mais uma aposta segura neste momento.

Não há dúvidas que o establishment adoraria cortar as asas da facção de Johnson e Cummings. Antes da epidemia, eles planejavam declarar guerra a servidores públicos veteranos, e substituir “a bolha” de Whitehall por uma série de “desajustados”. Agora, os “adultos” querem retomar o controle e colocar pessoas “sérias” no comando.

“O establishment ataca novamente”, proclamou a edição mais recente do The Economist, por exemplo, celebrando como a pandemia tem supostamente isolado os “populistas”.

Governo de união nacional

A questão de um “governo de união nacional” também vem à tona. Com Corbyn de fora e a direita trabalhista retomando o controle do partido, o terreno agora está preparado para uma coalizão do establishment em Westminster.

Tal movimento teria muitos benefícios no ponto de vista dos capitalistas. Por um lado, permitiria aos tories dividir as responsabilidades de erros futuros. Por outro, também permitiria a classe dominante utilizar do Partido Trabalhista como um “escudo” contra os trabalhadores radicalizados, conforme a luta de classes se aprofundar nas semanas e meses que virão.

Por essa razão, os membros do partido trabalhista devem se organizar e lutar contra quaisquer movimentos em direção à formação de um governo de “união nacional”. Tal medida seria uma “maçã envenenada” para o partido, vinculando o movimento trabalhista aos interesses da classe dominante.

Ao contrário de uma “unidade nacional” reacionária, os trabalhistas devem lutar por uma unidade de classe contra os capitalistas, a fim de proteger os trabalhadores da pandemia e demandar que os patrões paguem pela crise.

Divisões no topo

Ao mesmo tempo, a reportagem do Sunday Times é outro sintoma de uma divisão que emergiu dentro da própria classe dominante. Muitas das “fontes” no artigo, por exemplo, são de dentro de Downing Street. As tensões no governo conservador estão sendo abertamente denunciadas pelas principais vozes do capital.

Na superfície, essas divisões são em relação à questão do isolamento – sobre quando e como as medidas impostas serão suspensas. Por um lado, ministros como Rishi Sunak e Michael Gove refletem as pressões dos patrões, que estão desesperados para reabertura da economia o mais cedo possível. Por outro lado, Matt Hancock reflete as visões de um setor mais judicioso da classe dominante, que vê o perigo político de uma explosão no número de mortes.

Ironicamente, Johnson e Cummings se alinharam de forma oportunista ao último grupo. Afinal, Boris só tem um único interesse: seu próprio avanço pessoal. E o líder conservador sabe que deve ser visto como salvador de vidas se quiser continuar como primeiro-ministro.

Essas divisões, na verdade, refletem uma crise ainda mais profunda para a classe dominante. Como Trotsky explicou, divisões no topo são um elemento de qualquer situação pré-revolucionária – refletindo o fato de que a classe dominante não mais governa como no passado. Qualquer decisão que tomarem será errada, já que buscam sustentar um sistema moribundo.

Por sua vez, essas divisões criam as condições para a revolução. Conforme diferentes setores do establishment atacam uns aos outros, expondo seus podres ao povo, revelam a fossa no coração do capitalismo. E isso prepara o caminho para um profundo questionamento do sistema, com saltos dramáticos de consciência de classe.

Se prepare para a luta

“Um dia haverá um julgamento sobre a falta de preparação durante aquelas cinco semanas perdidas a partir do dia 24 de janeiro”, concluem os autores do artigo do Sunday Times. “Serão os políticos que sofrerão o mais intenso escrutínio.”

Os estrategistas mais astutos do capital frequentemente chegam a conclusões similares às dos marxistas, mas do ponto de vista da classe oposta. Atualmente, também enxergam os desenvolvimentos explosivos que podem acontecer. As greves espontâneas de trabalhadores contra condições inseguras vistas recentemente são presságio disso.

E tudo isso é apenas a ponta do iceberg. Até mesmo economistas mainstream preveem uma nova depressão – um retorno a níveis de desemprego nunca vistos desde os anos 1930, e com isso, o intenso aprofundamento da luta de classes.

A classe dominante quer se preparar para esses eventos limpando os estábulos aúgios e colocando no lugar as figuras “confiáveis”. Nós também devemos nos preparar – construindo as forças do marxismo.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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