Oriente Próximo

O impacto da Nova Rota da Seda no Oriente Médio

A Nova Rota da Seda tem no Oriente Médio um espaço estratégico de interconexão entre a Ásia, Europa e África, portanto, é central na estruturação de grande parte das ramificações desse projeto.

Por Àngel Marrades, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Bandeiras da China e de países árabes no Grande Salão do Povo, em Pequim, dia 10 de julho de 2018. Foto por Thomas Peter/Reuters.
Bandeiras da China e de países árabes no Grande Salão do Povo, em Pequim, dia 10 de julho de 2018. Foto por Thomas Peter/Reuters.

“O mundo árabe está estrategicamente localizado e abençoado com abundantes recursos energéticos. Com nossa forte complementaridade e interesses convergentes, [devemos] harmonizar nossas estratégias de desenvolvimento em busca de nossos respectivos sonhos de rejuvenescimento”.

Presidente chinês Xi Jinping durante a cerimônia de abertura da oitava reunião do Fórum de Cooperação Sino-Árabe em Pequim, julho de 2018.

Os laços entre o Oriente Médio e a China são cada vez mais importantes e abarcam um espectro muito amplo de temáticas, desde o comércio energético até a segurança. Os interesses da China na região são peças chave para sua ascensão como grande potência, tanto por tratar-se de uma área geopolítica estratégica para a proteção de seu poder, quanto devido às contribuições imprescindíveis que fornece à economia chinesa. No entanto a influência da China em matéria política e diplomática se distancia muito da que exercem outros poderes como os Estados Unidos, Rússia ou União Européia. A China mantém uma relação de amizade com todos os países da região graças aos seus investimentos e ao grande mercado que oferece, mas também não costuma exercer um papel de mediação em áreas muito instáveis e de confronto geopolítico entre grandes poderes. Portanto, trataremos principalmente sobre como a China tem se envolvido no Oriente Médio através da sua Nova Rota da Seda.

Mapa da Nova Rota da Seda. Via Merics (abrir em outra aba para aproximar).
Mapa da Nova Rota da Seda. Via Merics (abrir em outra aba para aproximar).

A Nova Rota da Seda (BRI, em inglês) tem no Oriente Médio um espaço estratégico de interconexão entre 3 continentes, Ásia, Europa e África, portanto, é central na estruturação de grande parte das ramificações desse projeto.

O colar de pérolas e o comércio energético

Um dos setores chave para China na região do Oriente Médio é o de energia, já que cerca de 40% dos produtos importados pela China desse setor vêm dessa zona. Para um economia principalmente de serviços e industrial que carece de grandes reservas energéticas internas, esse é um setor muito sensível e que forma parte das prioridades da segurança nacional chinesa. Para assegurar o transporte seguro, a China está realizando múltiplos investimento no marco da BRI, assim como outros projetos paralelos. As reivindicações no Mar do Sul da China vão além de assegurar o abastecimento energético, mas são certamente uma parte vital do projeto. Os portos chineses se encontram voltados ao Oceano Pacífico e rodeados do que chamam de “cadeias de ilhas”. Estas cadeias que a China busca contornar para conseguir um espaço de segurança incluem, em primeiro lugar, ilhotas como as Spratly, já que precisam assegurar que os navios de petróleo e gás cheguem de maneira segura do Oriente Médio (e outras partes como a África) através do Estreito de Malaca. Outras iniciativas para evitar esta rota e ter abastecimentos alternativos são o oleoduto da Birmânia ou o Corredor Econômico Sino-Paquistanês, cujo ponto nevrálgico é o porto de Gwadar. Mas isso não é suficiente, e a China tem desenvolvido o chamado “colar de pérolas” ou a Rota da Seda Marítima do Século XXI, um plano que consiste em realizar investimentos principalmente em portos do Oceano Índico, para conseguir uma rede segura para o transporte marítimo de mercadorias.

Porcentagem de petróleo bruto importado pela China de diversos países – a região do Oriente Médio domina. Via CSIS: China Power.
Porcentagem de petróleo bruto importado pela China de diversos países – a região do Oriente Médio domina. Via CSIS: China Power.

Tratar apenas das importações energéticas da China seria superficial, a influência de Pequim neste setor é muito mais ampla, sendo o principal investidor em projetos de exploração e extração de combustíveis fósseis. Exemplos disso são os campos petrolíferos de Azadegan e Masjid Suleiman no Irã, onde a China tem investido bilhões. Também nos Emirados Árabes onde a Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC) firmou um contrato de 1,6 bilhões de dólares com a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC, em inglês) para levar à cabo explorações em terra e alto-mar para buscar novas reservas de petróleo e gás. Outro campo em que a China se sobressai é o de refino de petróleo, sendo o segundo país do mundo em capacidade, apenas atrás dos Estados Unidos, com uma indústria nacional com capacidade de refinar 14,5 milhões de barris por dia. A prova de importância desta indústria é o último contrato firmado com a Arábia Saudita durante a visita do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman à Pequim, no qual a Saudi Arábico se compromete em formar um empresa conjunta (Huanjin Aramco Petrochemical Co) com os conglomerados chineses Norinco e Panjin Sincen para desenvolver um complexo petroleiro de refino na cidade de Panjin, na província de Liaoning, por um valor de 10 bilhões de dólares, com capacidade de refinar 300 mil barris de petróleo por dia.

Isso mostra que a China não é simplesmente um comprador de peso ou que a relação seja unidirecional, mas que é um país que se envolve, a dependência não é apenas da China em relação ao abastecimento energético fóssil, mas também destes países do Oriente Médio em relação aos investimentos chineses. A relação é neste formato bilateral e tem importantes implicações políticas, de segurança e econômicas, a Arábia Saudita ou o Irã não podem simplesmente mudar de comprador e buscar outros mercado que demandem seus produtos energéticos, mas devem negociar com a China a necessidade de diversificar sua economia. O fato da China ser a segunda maior refinaria do mundo tem implicações para o transporte e distribuição mundial de petróleo como parte das políticas energéticas, e isto é algo que notável com a contração produzida pela crise do coronavírus em Wuhan.

Investimentos e infraestruturas

Para a rota terrestre da BRI, as infraestruturas são um eixo central, pois são imprescindíveis para o transporte adequado das mercadorias. Se queremos entender a visão da China devemos recorrer ao Arab Policy Paper publicado em 2016:

“As iniciativas propostas pela China de construir conjuntamente o ‘Cinturão Econômico da Rota da Seda’ e a ‘Rota da Seda Marítima do Século XXI’, estabelecendo um padrão de cooperação ’1+2+3’ (1- a cooperação energética como núcleo, 2- a construção de infraestrutura e a facilitação do comércio e do investimento e 3- os campos de alta e novas tecnologias de energia nuclear, satélites espaciais e energias alternativas), e a cooperação em capacidade industrial, são bem recebidos pelos países árabes.”

Esses três elementos da estratégia “1+2+3” podem resumir-se em três áreas: o investimento externo direto, desenvolvimento de infraestruturas e cooperação tecnológica. O investimento externo direto da China no Oriente Médio compõe cerca de um terço do total, e é também o maior sócio comercial de vários países da região, dentre os quais se encontram Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes. A China também tem acesso a infraestruturas chave através de acordos, como o porto de Haifa em Israel, operado conjuntamente durante 25 anos após um acordo de investimento; o acordo com o Egito para integrar a nova Zona Econômica do Canal de Suez (SCZone, em inglês) à BRI; e em Omã, com a construção do Parque Industrial China-Omã sob a BRI e a Zona Econômica Especial de Ducme. Nos Emirados Árabes, por sua vez, o Alibaba Group e a Corporação de Financiamento de Investimentos da China (CFIPC, em inglês) planejam construir uma “tech town”, que abrigaria 3.000 empresas de alta tecnologia para o desenvolvimento da robótica e tecnologias de inteligência artificial.

A Rota da Seda Digital

Como parte da crescente indústria digital, um dos campos que mais mudará a economia mundial, os países do Oriente Médio também buscam adaptar suas economias à essa modernização. A China por sua vez quer que o projeto da BRI seja capaz de dar um acesso privilegiado aos seus gigantes tecnológicos, como a Huawei ou a China Telecom, em uma região em crescimento. Alguns dos projetos são redes de 5G e de telecomunicações, pesquisa e desenvolvimento e cidades inteligentes.

As companhias chinesas têm conseguido assegurar contratos de redes 5G com todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês). Por exemplo, a Huawei está colaborando com a Etisalat dos Emirados Árabes para desenvolver uma nova rede 5G que contará com 300 torres. Para além do golfo, onde se encontram a maior parte dos investimentos, também podemos destacar o financiamento de start-ups israelenses de tecnologia de ponta.

A Rota da Seda Digital. Via Asia Society Policy Institute (abrir em outra aba para aproximar).
A Rota da Seda Digital. Via Asia Society Policy Institute (abrir em outra aba para aproximar).

Por fim, os cabos submarinos são uma das infraestruturas de maior importância para a indústria digital, e seu controle é de caráter estratégico devido à quantidade de meta-dados, o fluxo de informações sensíveis e o peso cada vez maior do mundo digital na economia e no cotidiano. Isso vai desde a gestão de empresas, informações secretas ou a comunicação da sociedade civil. Por essas razões que os investimentos chineses em cabos submarinos tem sido de especial importância para os Estados Unidos, já que o golfo acomoda a base naval da 6º Frota, bases militares no Qatar e no Barém, assim como outros ativos militares, econômicos e energéticos chaves. As advertências dos Estados Unidos tem se referido especialmente à importância da manutenção de comunicações seguras de possíveis interceptações. Evidentemente os Estados Unidos querem manter seu peso e monopólio na região.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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