África

O tabuleiro africano: a República da Indonésia

Por Laura Revenga, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Vice-presidente indonésio (à frente, à direita) toca tambores com os delegados durante a abertura do Fórum Indonésia-África (IAF) 2018 em Nusa Dua, na Indonésia, no dia 10 de abril de 2018. Via AFP/Sonny Tumbelaka
Vice-presidente indonésio (à frente, à direita) toca tambores com os delegados durante a abertura do Fórum Indonésia-África (IAF) 2018 em Nusa Dua, na Indonésia, no dia 10 de abril de 2018. Via AFP/Sonny Tumbelaka

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Durante os últimos anos, estamos presenciando a entrada de um novo ator na disputa pela África no terreno comercial e político. A República da Indonésia está experimentando um crescimento econômico sem precedentes, focando seu interesse em África para obter recursos e aliados para consolidar sua crescente influência.

O primeiro contato da Indonésia com África remonta a 1652, quando um grupo de pessoas do local que hoje se conhece como Ilha de Java, desembarcou na praia do Cabo da Boa Esperança (atual África do Sul)1, mas os laços entre o arquipélago e o continente não acabariam se consolidando até o século XX.

Em 1955, foi celebrada a Conferência Ásia-África na cidade de Bandung2. Bandung foi a primeira reunião de grande escala entre os estados asiáticos e africanos que conformariam o movimento não-alinhado. Esse termo faz referência ao grupo de estados que não faziam parte nem do lado ocidental, nem soviético durante a Guerra Fria. Dessa forma, a Conferência Ásia-África de 1955 ajudou a desenhar o caminho para que a Indonésia, sob comando do presidente Sukarno, se solidificasse como um pilar do movimento não-alinhado3.

A partir dos anos 2000, a Indonésia mudou sua política exterior, na qual África teria um papel destacado4. Isso se traduziu no estabelecimento da Nova Associação Estratégica Asiático-Africana (NAASP, em inglês) em 20055. Nessa reunião de 2005, os delegados asiáticos e africanos acordaram em ampliar o compromisso entre ambos os continente e uma cooperação mais ampla6.

Isso supunha o aumento do interesse comercial e político de novas potências, como o Vietnã, Tailândia e a própria Indonésia em África. A partir de 2014, com a chegada da presidência de Joko Widodo, a Indonésia tem acelerado seu projeto de investimentos e comércio em África.

Exportações Indonésia-África. Via ResearchGate
Exportações Indonésia-África. Via ResearchGate

A estratégia indonésia vai de acordo com sua maneira de conceber as relações internacionais. Sua manobra se centra no princípio de converter se ao “Sul Global” na nova política internacional. Esse termo faz referência ao conjunto de países do terceiro mundo e dos países em vias de desenvolvimento com uma história interconectada de colonialismo ou neocolonialismo, e uma estrutura social e econômica com, no entanto, grandes desigualdades. A primeira prova exitosa para mostrar o poder do “Sul Global” foi liderada pela Indonésia durante o NAASP em 2005. Nessa linha, a estratégia indonésia está empregando o princípio da “solidariedade de Bandung”, que está sendo reforçada pelo atual mandatário, Joko Widodo7.

Os estados africanos e a Indonésia enfrentam uma população em crescimento e infra estruturas insuficientes que dificultam o desenvolvimento completo para uma economia altamente competitiva. Nesse sentido, a Indonésia tem impulsionado um programa de investimentos e comércio que, no entanto, não está presente em todo o território do continente africano. Porém, este programa está crescendo exponencialmente.

Cabe mencionar que em 2014, o executivo indonésio doou tratores manuais aos governos do Senegal e Gâmbia para apoiar a mecanização de seus respectivos setores agrícolas. Os mesmos incentivo estão agora sendo implementados em outros estados da África ocidental8.

É esperado que a Indonésia se converta na quarta maior economia do mundo em 20509, e que seu fortalecimento de laços bilaterais poderia beneficiar ambas as partes. Por outro lado, o setor privado indonésio tem se aproximado de vários estados africanos para abrir novos mercado em África.

No Senegal, uma grande quantidade de empresas indonésias participaram da Feira Internacional de Comércio (FIDAK, em francês). Outro grupo visitou Senegal, Serra Leoa e Guiné, buscando abrir oportunidades de mercado nestes países10.

Os demais atores presentes, como a Rússia, Índia, Japão, entre outros, também realizam investimentos em diversos âmbitos, como comércio, infraestrutura, etc.

Não obstante, a Indonésia impõe uma vantagem em relação aos outros jogadores, como por exemplo, a China. Essa carta na manga reside na linha da “solidariedade de Bandung”. Esse princípio se centra na solidariedade e cooperação, orientada ao desenvolvimento integral em benefício dos países do Sul11.

Essa vantagem ficou evidente quando a Indonésia reconheceu o potencial do Senegal, com sua entrada nos mercado da África Ocidental, com a intenção do país africano de comprar dois aviões CN-235-220 da empresa PT Dirgantara Indonesia12, em vez de comprar equipamento militar de outras potências, como por exemplo, a França.

A Comunidade Africana Oriental (EAC, em inglês) é formada por Quênia, Uganda, Tanzânia, Burundi, Ruanda e Sudão do Sul. Com mais de 170 milhões de cidadãos, um território combinado de 2,5 milhões de km² e um PIB combinado de US$ 193 bilhões (se consolidando como uma das 10 maiores economias do mundo).
A Comunidade Africana Oriental (EAC, em inglês) é formada por Quênia, Uganda, Tanzânia, Burundi, Ruanda e Sudão do Sul. Com mais de 170 milhões de cidadãos, um território combinado de 2,5 milhões de km² e um PIB combinado de US$ 193 bilhões (se consolidando como uma das 10 maiores economias do mundo).

A diplomacia e a colaboração têm sido outras vantagens para os interesses indonésios. O governo de Jacarta tem focado sobretudo na integração bilateral. Cabe mencionar a Comissão Conjunta Bilateral de Cooperação (JCBC, em inglês), entre o executivo indonésio e a República de Gâmbia13.

Seguindo essa estratégia, tem concentrado seus esforços na integração multilateral e regional, por exemplo, com a EAC14. Desse mesmo modo, a Indonésia tem sido uma voz forte no G20, expressando seu pleno apoio à Associação Africana do G20 e outros programas relacionados15. Atualmente, está em negociações com a União Aduaneira da África Meridional (PTA, em inglês) e outros atores16.

No setor de infraestrutura, o setor privado indonésio está realizando investimentos em África. A empresa de construção PT Wikaya Karya Tbk (WIKA, em indonésio) tem mantido uma reunião com o executivo de Uganda, para um projeto ferroviário de 350 km17. Este interesse também tem se refletido em Angola, Zimbábue e Somália para a construção de uma linha ferroviária de 400 km, outra de 98 km e habitações populares, respectivamente18. Também foi firmado um acordo com Madagascar para um projeto ferroviário19, e a Somália convidou a Indonésia para investir no desenvolvimento de rodovias, portos e agricultura20.

As empresas indonésias estão se deslocando à África atraídas por novos mercado em expansão para suas exportações, negócios e obtenção de recursos naturais. As principais exportações da Indonésia para a África se concentram em: azeite de palma, roupas, alimentos processados e bebidas. Por outro lado, a Indonésia importa de África: petróleo bruto, grãos de cacau, algodão e produtos químicos para fertilizantes e indústrias21. A Indonésia necessita da diversificação de suas fontes energéticas estratégias para satisfazer o aumento de sua demanda interna por energia, por exemplo, se firmou um acordo entre Indonésia e Sudão para um projeto de mineração em território sudanês. Esse projeto se concentra na extração de estanho, cromo e ouro, entre outros metais22.

No entanto, em um futuro não muito distante, a Indonésia poderá explorar e firmar novos acordos em matéria energética com diferentes estados africanos. Existe também a possibilidade de unir a produção de níquel indonésia com as nações africanas que produzem cobalto, para produção de baterias de lítio23. Essa colaboração também poderia se traduzir no setor digital, já que a Indonésia tem se convertido em um dos “hubs” mais populares do mundo, enquanto a África concentra o maior crescimento de usuários de Internet a nível global24.

A República da Indonésia busca reafirmar sua influência internacional em outros fóruns de decisão das Nações Unidas (ONU), e dessa forma, alcançar posições mais altas na organização e papéis de liderança em missões de paz25.

No início de 2015, o governo se comprometeu a garantir um efetivo de 4.000 soldados para missões de paz e alcançar a lista dos 10 principais colaboradores nessa matéria na ONU para 201926. Desde 2007, a Indonésia ampliou sua contribuição para incluir equipes policiais, fornecendo 6 polícias individuais na UNMIS no Sudão ou em 2008 fornecendo suas primeiras Unidades De Polícia Formada em Darfur27. Atualmente, a Indonésia está presente em missões da Organização de Prevenção e Tratamento (ONUSIDA, em inglês) no Congo, Sudão, Libéria e outros estados fora do continente africano28, entre outras missões, como na República Democrática do Congo.

Mulheres indonésias em missão de paz. Via: jimdellagiacoma.wordpress.com
Mulheres indonésias em missão de paz. Via: jimdellagiacoma.wordpress.com

Seguindo o caminho de outras potências como China e Índia, a Indonésia celebrou a primeira edição do Fórum Indonésia-África em 2018. Nessa primeira reunião participaram cerca de 600 delegados, entre funcionários de governo, membros do setor privado indonésio e 46 estados africanos, assim como algumas organizações internacionais29. Durante essa primeira edição, a Indonésia e os governos africanos acordaram intensificar sua diplomacia econômica e comercial, e para isso identificaram a energia, infraestrutura e indústrias estratégicas como alguns dos setores prioritários. Esta cooperação também se extrapolará à cooperação técnica, construção civil, educação e desenvolvimento de serviços de crédito. Por fim, se acordou que a segunda edição seria celebrada no ano de 2019 na Indonésia30.

Delegações que participaram do I Fórum Indonésia-África. Via theinsiderstories.com
Delegações que participaram do I Fórum Indonésia-África. Via theinsiderstories.com

A disputa e emergência de novas potências por maior influência na hegemonia mundial tem feito com que certas regiões esquecidas voltem a ter relevância. Igualmente, a aparição da Turquia, Rússia e outras potências emergentes têm colocado uma data de validade às antigas práticas que consistiam em uma vantagem efetiva de antigos atores frente aos estados africanos.

Da mesma forma, o papel da Indonésia em África seguirá crescendo a um ritmo constante em diversos setores econômicos e estabelecendo novos acordos, por exemplo, no setor tecnológico. À medida que este compromisso da Indonésia com os países africanos aumenta, esse estados terão que equilibrar hábil e diplomaticamente a tarefa de apoiar os esforços de desenvolvimento do continente.

No entanto, a África parece ainda muito distante para certos empresários indonésios31. A Indonésia tem o potencial de estabelecer uma relação com as nações africanas baseada no benefício mútuo, e no médio e longo prazo poderá modificar as novas regras e dinâmicas em África, superando outros atores predominantes, como por exemplo, a França.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://jakartaglobe.id/context/indonesia-forges-stronger-path-boost-relations-africa

2  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

3  https://jakartaglobe.id/context/indonesia-forges-stronger-path-boost-relations-africa

4  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

5  https://thediplomat.com/2015/03/strengthening-the-asia-africa-partnership/

6  https://jakartaglobe.id/context/indonesia-forges-stronger-path-boost-relations-africa

7  https://www.researchgate.net/publication/301542358_Indonesia_in_Africa_revitalizing_relations

8  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

9  https://www.aseantoday.com/2019/03/indonesia-strengthens-its-presence-in-africa-through-deepening-economic-ties/

10  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

11  https://www.alainet.org/sites/default/files/alai504w.pdf

12  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

13  https://www.researchgate.net/publication/301542358_Indonesia_in_Africa_revitalizing_relations

14  Ibid.

15  https://au.int/en/pressreleases/20120119-2

16  https://www.thejakartapost.com/academia/2018/04/04/fostering-a-new-era-of-modern-indonesia-africa-relations.html

17  https://www.aseantoday.com/2019/03/indonesia-strengthens-its-presence-in-africa-through-deepening-economic-ties/

18  https://theinsiderstories.com/indonesias-wika-eyes-us1-4b-projects-in-africa/

19  Ibid.

20  https://theinsiderstories.com/indonesia-to-sign-deals-with-african-investors-next-month/

21  https://www.aseantoday.com/2019/03/indonesia-strengthens-its-presence-in-africa-through-deepening-economic-ties/

22  https://www.aseantoday.com/2019/03/indonesia-strengthens-its-presence-in-africa-through-deepening-economic-ties/

23  https://theinsiderstories.com/indonesia-to-sign-deals-with-african-investors-next-month/

24   Ibid.

25  https://www.aseantoday.com/2019/03/indonesia-strengthens-its-presence-in-africa-through-deepening-economic-ties/

26  http://providingforpeacekeeping.org/2016/02/05/peacekeeping-contributor-profile-indonesia/

27  Ibid.

28  Ibid.

29  https://en.antaranews.com/news/72426/indonesias-military-prefer-peacekeeping-than-peacemaking

30  https://jakartaglobe.id/context/indonesia-forges-stronger-path-boost-relations-africa

31  https://thediplomat.com/2014/05/indonesias-african-outreach/

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