Ásia

Libertação Nacional e a Coreia Popular

Em seus esforços para subjugar o povo da Coreia, os Estados Unidos cometeram um genocídio. A resistência contra esse horror é inequivocadamente correta, independente do caráter moral da resistência.

Via Write to Rebel, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto das estátuas de bronze em frente à Torre Zuche, em Pyongyang. Representam um operário, um intelectual e uma camponesa, segurando um martelo, um pincel e uma foice, símbolo do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Via https://mansudae-korea.com/
Foto das estátuas de bronze em frente à Torre Zuche, em Pyongyang. Representam um operário, um intelectual e uma camponesa, segurando um martelo, um pincel e uma foice, símbolo do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Via https://mansudae-korea.com/

Não falta cobertura sobre a República Popular Democrática da Coreia na mídia ocidental. Esta cobertura é quase totalmente negativa. O que não é surpreendente, dado que os Estados Unidos possuem ambições imperialistas na região. Seus ataques de longa data na forma de “testes de guerra” deveriam ser evidências suficientes disso. Apesar da condição óbvia de alvo do imperialismo estadunidense, muitos supostos esquerdistas ainda se mostram resistentes para lhe prestar apoio. A base para isso é geralmente que a RPDC não é democrática, mas uma monarquia absolutista que viola os direitos humanos de seus cidadãos. Na primeira seção deste ensaio, eu irei argumentar que devemos prestar solidariedade ao país mesmo se essas afirmações fossem verdadeiras. A Coreia Popular está travando uma progressiva luta de libertação nacional, isso deve ser apoiado independente se o país é democrático ou socialista (neste caso, é ambas as coisas).

Stalin argumenta em Marxismo e a Questão Nacional, “O caráter revolucionário de um movimento nacional sob opressão imperialista não necessariamente pressupõe a existência de elementos proletários no movimento, a existência de um programa revolucionário do movimento, a existência de uma base democrática da movimento”. O fator determinante no caráter revolucionário de um movimento nacional é se ele “enfraquece, desintegra, e abala o imperialismo”1. O que a RPDC vem travando é um exemplo de tal luta. O país objetivamente trabalha contra os interesses do imperialismo, o maior inimigo da revolução proletária. Dessa forma, deve ser incondicionalmente apoiado e defendido.

Para substanciar essas afirmações, é preciso voltar no tempo, para 1910. Foi nesse período que o Japão colonizou a Coreia. O país se tornou uma fonte inestimável de lucros para os colonizadores, em forma de matérias-prima e (principalmente) mão-de-obra. Números incalculáveis de coreanos foram traficados ao Japão e efetivamente escravizados. Muitos realizaram trabalhos pesados, enquanto outras foram forçadas a se tornarem “mulheres de conforto”. O Japão conduziu essas atrocidades com a ajuda dos ricos proprietários de terra e industriais coreanos, que, da mesma forma que se aliaram aos seus patrões japoneses, viriam a se aliar também aos patrões estadunidenses e seu governo de ocupação, e, mais tarde, assumiriam posições chave no estado sul-coreano2.

Durante esse período, o Japão e os Estados Unidos buscaram dominar os países do Pacífico para controlarem as riquezas dessa região. Tóquio seguiu com uma política externa agressiva e expansionista, lastreada nas armas, para expulsar outras potências imperialistas da região. Os Estados Unidos, com sua posição já consolidada nas Filipinas, Guam, Havaí e Samoa, buscavam um caminho para seus exportadores e investidores na China. Com ambos os lados almejando um papel dominante, era inevitável que cedo ou tarde entrassem em conflito3.

Após o ataque de Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, esse conflito atingiu seu pico. Washington sabia que as colônias japonesas passariam para o controle americano caso o Japão fosse derrotado. Poderiam ser administradas então, não necessariamente como colônias, mas como territórios nos quais os Estados Unidos teriam voz dominante. Em outras palavras, uma conclusão vitoriosa na guerra daria aos americanos tudo que almejavam antes do conflito mundial. Assim, o Departamento de Estado dos EUA passou a ponderar a idéia de estabelecer um governo tutelado pós-guerra na Coreia. Ocorreu um intenso debate em torno da possibilidade de governo tutelado dar ou não a Washington a influência suficientes nas questões coreanas no pós-guerra. A idéia de um controle multilateral da Coreia foi apresentada aos britânicos e franceses em 1943, mas acabou sendo negada por ambos os países, que temiam que o acordo enfraqueceria seus próprios impérios4.

É neste contexto em que ocorreu a divisão da Coreia. Não foram os coreanos que dividiram a península no paralelo 38, foram os americanos. No dia 10 de agosto de 1945, devido entrada dos soviéticos na península pelo norte dois dias antes, dois coronéis estadunidenses, Dean Rusk e Charles Bonesteel, foram ordenados a dividir a Coreia em duas zonas de ocupação: uma dos EUA, outra da URSS. Eles escolheram o paralelo 38 como a linha divisora. Assim os americanos manteriam controle sobre a capital, Seul. Rusk explicou como chegou nessa decisão:

“Nem Tic ou eu éramos experts em Coreia, mas parecia que Seul, a capital, deveria ficar no setor americano. Nós também sabíamos que o exército era contrário à uma extensa área de ocupação. Usando um mapa da National Geografic, nós olhamos ao norte de Seul à procura de uma linha de divisão conveniente mas não encontramos uma divisão geográfica natural. Então olhamos para o paralelo 38 e decidimos recomendá-lo.”5

Esse é um ponto vital. Não havia uma barreira geográfica entre os territórios que se viriam a se tornar as Coreias do Norte e do Sul. A divisão foi feita baseada em nada além dos interesses americanos.

Incidentalmente, a escolha de dividir o país ao paralelo 38 explica em grande parte a insegurança alimentar de parte considerável da população norte-coreana. A parte norte da Coreia era uma área industrial, usada primariamente para mineração. A vasta maioria das terras cultiváveis do país (que representam apenas 18% do total) estão localizadas na parte sul da península. Ambos os lados dependiam um do outro antes da divisão estadunidense. Essa é uma das razões pela qual os esforços de unificação são legítimos.

Até mesmo de acordo com as Forças Armadas dos EUA,

“Apenas 18% do território é cultivável. Grande parte do país é formado por terreno montanhoso. O clima varia marcadamente de acordo com a latitude, e a falta de chuvas, juntamente com o solo infértil, faz das terras acima de 400 metros inutilizáveis para fins que não sejam o pastoreio. A chuva é geograficamente e sazonalmente irregular, e cerca de metade da precipitação anual ocorre nos três meses de verão”6.

Nós podemos concluir a partir disto que o imperialismo americano está literalmente matando o povo coreano de fome. É a malevolência intencional dos Estados Unidos que resulta em fome, e não a economia socialista da RPDC. Como comunistas, é nossa obrigação lutar contra a fome e a pobreza. Só podemos fazer isso nos opondo ao imperialismo americano, e só podemos nos opor ao imperialismo americanos apoiando a luta de libertação nacional da Coreia Popular. Este apoio se baseia no protesto contra o genocídio e a inanição. Qualquer um que não está disposto a dá-lo não tem o direito de se chamar de comunista.

Um governo organizado por coreanos para coreanos, sediado em Seul, foi fundado semanas após a rendição do Japão. Foi chamado de República Popular da Coreia, nascido do Comitê de Preparação para a Independência Coreana e dos Comitês Populares enraizados no campo. Apesar de suas pretensões de se tornarem campeões da democracia, os Estados Unidos se recusaram a reconhecer esse governo e ativamente trabalharam para o reprimir. Para os americanos, a República Popular da Coreia possuía dois problemas: o primeiro, não responder a Washington; e segundo, possuir fortes influências comunistas7.

Ao invés de deixar o recém-criado governo local prosperar, os Estados Unidos estabeleceram o que vinham planejando desde 1943: um regime de ocupação militar americano. O governo, que durou até 1948, foi amplamente rejeitado pelos residentes locais, que estavam cansados da ocupação estrangeira e queriam uma Coreia independente e unificada, e não uma artificialmente dividida e ocupada ao sul por uma potência estrangeira que insistia em decidir as questões coreanas8.

Os EUA passaram seu primeiro ano de ocupação reprimindo os Comitês Populares locais. O general americano John Hodge recrutou coreanos que serviram no Exército Imperial Japonês para formar uma escola militar de língua inglesa. Em 1948, um exército sul-coreano estava a postos, englobando seis divisões, lideradas por homens que serviram no Exército Imperial Japonês. Um dos superiores, Kim Sok-won, havia sido condecorado por Hirohito por liderar campanhas contra guerrilhas coreanas na Manchúria. Hodge também formou uma força policial, cujo 85% de seu contingente era formado por ex-membros da polícia colonial, e os pôs em ação para esmagar o governo local da República Popular da Coreia9. Desde o início, os americanos estavam dispostos a impor violentamente sua vontade sobre o povo coreano, assim como fizeram os japoneses alguns anos antes.

Isso seria revelado de forma mais escancarada quando eclode uma rebelião no sul, coincidindo com um forte movimento guerrilheiro. Em 1948, a maioria dos vilarejos no interior eram controlados pelas guerrilhas, que gozaram de amplo apoio popular. Em outubro de 1948, as guerrilhas libertaram Yeosu, fomentando rebeliões em outras cidades. O Comitê Popular foi restaurado, a bandeira norte-coreana foi hasteada, e foi anunciada a aliança ao norte. Um jornal rebelde clamava pela redistribuição das terras, o expurgo de colaboradores japoneses dos altos-cargos e uma Coreia unificada. Enquanto os militares americanos formalmente toleravam organizações de esquerda, a polícia considerava os rebeldes e esquerdistas como traidores que mereciam prisão ou fuzilamento. Em 1948, a draconiana Lei de Segurança Nacional foi usada contra cerca de 200.000 coreanos simpáticos ao norte e o comunismo. Em 1949, 30.000 comunistas estavam presos, e 70.000 estavam em campos de concentração, eufemisticamente apelidados de campos de orientação. O sul, no que se refere a repressão aos esquerdistas, parecia cada vez mais com a Itália de 1920 e a Alemanha de 1930. A semelhança, em breve, ficaria ainda maior10.

Uma repressão contra a rebelião foi organizada pelos Estados Unidos, cujo controle formal sobre o exército sul-coreano, a essa altura, havia sido cedido. No entanto, através de acordos secretos, o comando se manteve sob controle estadunidense. Até hoje, o comando das forças armadas da República da Coreia continua com os americanos durante eventos de guerra11. É um claro exemplo do imperialismo estadunidense.

A Coreia era uma sociedade marcada por uma profunda divisão de classes, com uma pequena elite latifundiária, que colaborou com a ocupação japonesa, e uma imensa população de camponeses miseráveis. Os Estados Unidos intervieram em favor da elite e contra a maioria da população, perpetuando os privilégios da classe dominante.

A CIA apontou em um relatório de 1948 que a Coreia do Sul havia sido dividido por um conflito entre “um movimento comunocêntrico de independência, que encontrava expressão nos Comitês Populares” liderados por “comunistas que baseavam a legitimidade de seu governo na resistência contra os japoneses”, e uma direita apoiada pelos EUA que monopolizou as riquezas do país e colabora com o Japão Imperial12.

Devido à impopularidade da direita, era impossível eleger seus representantes através de eleições. Assim, os Estados Unidos buscaram exilados não-comunistas, cuja ausência no país os permitiram escapar das manchas colaboracionistas. O fortemente anticomunista Syngman Rhee chegou eventualmente ao poder. Rhee havia vivido nos Estados Unidos por 40 anos, tinha um PhD pela Universidade de Princeton e uma esposa estadunidense, um histórico muito diferente de Kim Il-sung, fundador da Coreia Popular, ativo politicamente desde os anos 1930 e um líder proeminente da resistência contra a ocupação japonesa. O especialista em Coreia, Bruce Cumings, aponta que “por cerca de quatro décadas (a Coreia do Sul) foi comandada por oficiais militares e burocratas que serviam os mesmos patrões japoneses que Kim e seus camaradas passaram décadas combatendo nos anos 1930”13. O que podemos concluir disso é que a resistência contra a ocupação estadunidense estava presente em ambos norte e sul do país.

A RPDC e a RC (República da Coreia, atual Coreia do Sul) existem como dois países separados, mas o povo coreano se encaixa em todas as características de uma nação; “uma comunidade historicamente constituída, formada na base de uma língua, território , e vida econômica comuns, e uma composição psicológica que se manifesta em uma cultura mútua”14. Entender que a Coreia não constitui duas nações diferentes é essencial para enquadrar as ações da Coreia Popular em seu contexto apropriado.

Temendo a ampla popularidade da Revolução Coreana em ambos norte e sul, os Estados Unidos continuaram a ocupar a RC após a Segunda Guerra. Os coreanos foram excluídos da decisão de dividir seu país e a despeito das promessas de eleições nacionais livres voltadas à reunificação, os EUA intervieram nas eleições sul-coreanas em favor do ocidentalizado e nacionalista de direita, Syngman Rhee.

Muitos acadêmicos burgueses e críticos da RPDC argumentam que o Exército Popular da Coreia (EPC), concentrado ao norte, iniciou a Guerra da Coreia ao atravessarem o paralelo 38, ato comumente citado como o início do conflito. Enquanto o EPC de fato enviou tropas para a Coreia do Sul no dia 25 de junho de 1950, chamar isso de um ato de agressão de um estado soberano a outro implica na legitimação da divisão imperialista da Coreia de 1945. Richard Stokes, Ministro de Obras britânico, fez a seguinte comparação em um relatório de 1950 sobre as origens da Guerra da Coreia:

“Na Guerra Civil Americana, os estadunidenses jamais iriam tolerar, em momento algum, a imposição de uma linha imaginária entre as forças do Norte e do Sul, e não há dúvidas de qual teria sido sua reação se os ingleses tivessem intervindo em favor do Sul. Esse paralelo é muito pertinente, já que na América o conflito não foi meramente entre dois grupos de americanos, mas entre dois sistemas econômicos conflitantes, assim como na Coreia”15.

Tal como na Guerra Civil Americana, qualquer agressão do norte foi na verdade uma tentativa de reunificar uma nação dividida por uma potência imperialista estrangeira. Todos os críticos das ações da RPDC no início do conflito deveriam também condenar o presidente estadunidense Abraham Lincoln e o Exército da União por terem enviado suprimentos para o Fort Sumter durante a escalada da guerra civil, episódio que marcou o início do conflito.

Nunca é demais salientar as atrocidades cometidas pelos Estados Unidos nessa guerra. Três milhões de coreanos perderam suas vidas. Mais bombas foram lançadas na Coreia do que em todo o palco europeu durante a Segunda Guerra, e todo o norte foi levado ao chão, com Pyongyang completamente devastada16.

Além disso, armas biológicas foram de fato utilizadas contra a Coreia do Norte durante a guerra. Um relatório foi escrito na década de 1950 acerca de que consistiam essas armas, o “The International Scientific Commission Report on Bacterial Warfare during the Korean War17. Aqui está o que foi relatado pela Agência Central de Notícias da Coreia:

“As forças de agressão imperialista estadunidenses, que colocaram a parte norte da Coreia sob ocupação temporária durante a guerra de 25 junho, foram derrotadas pela Exército Popular da Coreia e passaram a recuar quando espalharam de maneira astuta diversas doenças contagiosas, como a varíola, em várias regiões, incluindo Pyongyang, Yangdok na província de Pyongan do Sul, e Kowon e Changjin na província de Hamgyong do Sul, entre 29 de novembro e 8 de dezembro de 1950.

Um documento secreto datado de 21 de setembro de 1951 que ordenava um “amplo experimento com patógenos específicos para determinadas situações para observar seus efeitos para uso em operações militares” foi descoberto no arquivo nacional dos EUA em 2010.

Em novembro de 1951 os imperialistas estadunidenses lançaram a primeira bomba biológica nas áreas ao norte do Rio Chongchon, ao sul do Rio Amnok e em Yangdok, Hamhung e Wonsan, com a participação da 3ª ala de bombardeio americana na base aérea de Kunsan e da 19ª ala de bombardeio sob o comando da Força Aérea dos EUA no Extremo Oriente situada em Okinawa.

Na virada de 1952 iniciaram uma guerra biológica aberta, lançando bombas biológicas em todas as regiões da parte norte da Coreia. Não contiveram nem mesmo o uso de armas químicas banidas internacionalmente.

Durante o bombardeio indiscriminado da cidade de Nampho no dia 6 de maio de 1951, os americanos espalharam gás tóxico, matando 1.379 civis. Nos dias 6 de julho e 1 de setembro, utilizaram gases lacrimogêneo, asfixiante e outros tóxicos em Wonsan e outras regiões das províncias de Hwanghae do Sul e Norte, envenenando e matando muitas pessoas. Foram inescrupulosos a ponto e misturar venenos em doces, biscoitos, caramelo, torradas, comida enlatada, frutos do mar e outros alimentos, além de cédulas de dinheiro, antes jogá-los de aviões.

Os imperialistas americanos utilizaram prisioneiros como cobaias para armas biológicas em brutais violações dos acordos internacionais sobre o tratamento de prisioneiros de guerra, e assassinaram-os de maneira bárbara”18.

Pilotos foram interrogados pela Coreia do Norte durante a guerra e admitiram o uso de armas biológicas. Quando retornaram aos Estados Unidos essas afirmações foram justificadas como resultado de “lavagem cerebral comunista” e tortura. Isso também foi usado como argumento para criação de um programa para treinar militares em como resistir à tortura; programa esse que se transformou no programa de treinamento à tortura moderno, mesmo que os Estados Unidos tenham um longo histórico de uso de tortura para além disso. É interessante, no entanto, notar como a justificativa para criação de um treinamento à tortura tenha sido baseada em encobrir o uso de armas biológicas pelos americanos na Coreia19.

Em seus esforços para subjugar o povo da Coreia, os Estados Unidos cometeram um genocídio. A resistência contra esse horror é inequivocadamente correta, independente do caráter moral da resistência. Esquerdistas no centro do império deveriam se concentrar em derrotar seus próprios estados genocidas, ao contrário de repreender aqueles que sofrem da agressão imperialista. A Coreia do Norte não é uma ameaça à paz mundial, apenas não quer ser importunada. Na realidade, os Estados Unidos são a maior ameaça à paz mundial20. Se os esquerdistas realmente querem lutar pela paz, devem começar atacando o país que impõe uma ameaça material à isto, e não a nação que trabalha para estabelecer a própria paz.

Os marxistas-leninistas devem apoiar os esforços de reunificação do norte em ambas as guerras Civil Americana e Coreana, já que foram historicamente progressistas e revolucionárias. A Coreia havia sido ocupada por uma potência imperialista estrangeira quando a incursão do EPC ao sul ocorreu, assim como havia sido ocupada pelos invasores japoneses nos 35 anos anteriores. Dessa forma, a “invasão” da Coreia do Sul pelo EPC foi uma campanha inserida na longa batalha por libertação nacional que se iniciou na luta anticolonial contra o Japão Imperial21.

A ocupação estrangeira da Coreia continua até hoje, e marxistas-leninistas devem avaliar as ações da RPDC a partir de um quadro de libertação nacional em curso. As 28.000 tropas estadunidenses permanentemente aquarteladas na RC atestam a contínua dominação imperialista na parte sul da nação coreana22.

É evidente o porquê da oposição por parte da política externa estadunidense – controlada pela classe dominante – à luta por soberania e direitos econômicos da Coreia do Norte. Seus interesses são inconciliáveis. Mas não há contradição de interesses entre a Coreia do Norte e a maioria do povo dos países capitalistas avançados. A indiferença, ou até mesmo hostilidade, de grande parte da esquerda nesses países requer uma explicação. Intoxicação patriótica e falta de consciência de classe – a idéia de que temos mais em comum com a classe dominante que controla a política externa de nossos países, do que com os coreanos, do sul e do norte, que lutam pela soberania e justiça econômica – são parte disso. É também a recorrente tendência das lideranças da esquerda moderada de negociar princípios em troca de votos e respeitabilidade, de sacrificar objetivos fundamentais por ganhos imediatos, uma razão para a indiferença em relação à RPDC. Em outras palavras, até mesmo lideranças de esquerda foram “compradas” pelo imperialismo, e não se dispõem a combatê-lo. A fim de construir um verdadeiro movimento socialista, é responsabilidade dos comunistas comprometidos cessar a influência dessas lideranças.

Ignorância também é parte da explicação. Muitos esquerdistas ocidentais são alheios à história e ao governo do norte, mas também aos efeitos deturpadores, negativos e distópicos das políticas de guerra, intimidação e estrangulação econômica colocadas em prática pelos Estados Unidos a fim de acabar com a existência da Coreia Popular. Não é agradável ter pouco para comer, ser recrutado para o exército por um longo período de sua vida e ser forçado a viver toda sua vida sob ameaça de uma guerra nuclear, mas essas não são condições escolhidas livremente pelos coreanos. Elas foram impostas de fora como forma de punição. Os Estados Unidos não querem que o povo coreano controle seu próprio destino.

A Coreia do Norte é produto de sua história: sua colonização pelos japoneses, as guerrilhas dos anos 1930, suas tentativas de unificação e derrota do regime de ocupação ao sul no pós-guerra, o holocausto realizado pelos EUA sob a bandeira da ONU nos anos 1950, e sua luta diária contra os Estados Unidos por sobrevivência, intensificada após o fim da União Soviética. Some tudo isso à missão incessante de Washington pela dominação mundial e terá uma clara explicação para a suposta miséria da Coréia do Norte. Independente de suas falhas, devemos apoiar esse país pelo seu papel no amplo cenário geopolítico. A RPDC enfraquece o imperialismo estadunidense, e ao fazer isso, fortalece a causa do proletariado internacional.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Prosveshcheniye, Nos. 3-5, March-May 1913, Carl Kavanagh, “Marxists Internet Archive.” https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1913/03.htm

2  Bruce Cumings, “Korea’s Place in the Sun: A Modern History (Updated Edition),” W.W. Norton & Company, 2005; p. 404.  

3  Bruce Cumings, “North Korea: Another Country,” The New Press, 2004.

4  Ibid.

5  https://www.palgrave.com/us/book/9781403969828

6  http://countrystudies.us/north-korea/49.htm

7  Hugh Deane, “The Korean War: 1945-1953,” China Books & Periodicals, San Francisco, 1999.

8  Ibid.

9  Bruce Cumings, “North Korea: Another Country,” The New Press, 2004. Op. Cit.

10  Ibid.

11  New York Times, 13 de agosto de 2003.

12  Bruce Cumings, “Korea’s Place in the Sun: A Modern History (Updated Edition),” W.W. Norton & Company, 2005; p. 404.  Op. Cit.

13  Prosveshcheniye, Nos. 3-5, Março-Maio de 1913, Carl Kavanagh, “Marxists Internet Archive.” https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1913/03.htm Op. Cit.

14  Bruce Cumings, North Korea: Another Country, The New Press, New York, 2004. Op. Cit.

15  http://cryptome.org/2015/01/isc-biowar-kr-cn.pdf

16  http://www.cool-dprk.com/archives/1019640883.html

17  http://www.workers.org/2010/world/korea_0701/

18  https://www.rt.com/news/us-biggest-threat-peace-079/

19  Bruce Cumings, North Korea: Another Country, The New Press, New York, 2004. Op. Cit.

20  Ibid.

21  Ibid.

22  https://books.google.com/books?id=YGGScItq-BsC&pg=PA9&lpg=PA9&dq=2800+troops+stationed+korea&source=bl&ots=oHaxCpHJ18&sig=uV_5xAUi481Cu4RucJqzyQwMTlw&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwis2q3yjffSAhWh14MKHXGkADYQ6AEILjAD#v=onepage&q=2800%20troops%20stationed%20korea&f=false

3 comentários

  1. Assim como o irmão povo coreano trava há 70 anos uma luta de libertação nacional, nós brasileiros também precisamos travar uma luta de libertação nacional. Não temos uma força estrangeira armada traçando uma linha imaginária que divida o Brasil do Norte e o Brasil do Sul, nem o imperialismo está nos atacando com armas bacteriológicas, como fez contra a Coreia. Porém nós somos uma colônia financeira; o Brasil de hoje é um país inviabilizado por bancos “nacionais” e estrangeiros que são na realidade a força imperial do capital, por meio de um sistema fraudulento de endividamento do estado que leva embora a maioria dos nosso recursos. É a chamada dívida “pública” brasileira, que de “pública” não tem nada. Graças a esse esquema criminoso, o Orçamento Federal executado de 2019 para 2020 destina 4% para a saúde, 2% para geração de trabalho, 0,33% para segurança pública, 0,02% para saneamento básico, 0% para habitação, e quase 40% para pagar juros a banqueiros, juros fraudulentos, obtidos por meio da acumulação ininterrupta de juros! Metade da povo brasileiro não tem água encanada em casa, mas os rentistas e imperialistas levam embora 40% da arrecadação, dados de mão beijada pelo estado. É esta a nossa situação de colônia financeira, mantida e continuada por Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Contra isto deve se bater a nossa luta brasileira de libertação nacional.

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  2. Uma curiosidade sobre o livro de Stálin, “O marxismo e o problema nacional”, citado pelo autor do artigo. Iossif Vissarionovitch, apelidado como Josef Stálin (Zé Aço, em russo), filho de um sapateiro e estudante autodidata, era pouco conhecido no Partido Comunista quando publicou esse pequeno livro por uma gráfica clandestina em Moscou, em 1913. Lênin leu o livro, e ficou tão impressionado que passou a trabalhar para que Stálin fosse eleito para o Comitê Central do partido.

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