Europa

‘A noite vai ser longa’: Como veteranos do Partido Trabalhista fizeram campanha para perder

Por Aaron Bastani, via New Cold War, tradução de Eduardo Pessine

Anúncio do 8º parlamentar a deixar o Partido Trabalhista, após escândalos de anti-semitismo. Via AFP.
Anúncio do 8º parlamentar a deixar o Partido Trabalhista, após escândalos de anti-semitismo. Via AFP.

Um vazamento publicado pela Novara Media revela o grau em que figuras veteranas do Partido Trabalhista visaram reduzir as chances de seu próprio partido nas eleições de 2017.

Produto de uma extensa investigação interna, o vazamento contém centenas de páginas de evidências, incluindo mensagens do WhatsApp e emails, comprometendo membros da “diretoria sênior” (SMT, em inglês), incluindo o ex-secretário geral Iain McNicol.

As conversas a seguir, que aconteceram entre 13 de janeiro de 2017 e a semana seguinte aos resultados da eleição em junho, retratam uma cultura desleal e disfuncional no topo do partido – o mesmo que desprezou a liderança duas vezes eleita, filiados, e quaisquer parlamentares divergentes. Muito além de algumas “maçãs podres”, as mensagens expõem esforços sistemáticos de sabotagem à liderança por parte de diversas figuras em posições de direção.

Para muitos o que fará esse material ainda mais chocante é o fato do Partido Trabalhista ter ficado a menos de 2.500 votos de formar maioria em 2017, após conquistar 40% do voto popular – os melhores resultados do partido desde 1997.

Abaixo está uma conversa que ocorreu no dia 13 de janeiro, após Tristram Hunt – parlamentar do partido por Stoke Central – anunciar sua renúncia, gerando uma eleição suplementar. Aqui é revelado como, menos de seis meses após Jeremy Corbyn ter ganho a liderança do partido pela segunda vez seguida, membros da SMT continuaram firmes em sua remoção.

Ela nos dá uma idéia dos ataques hostis e coordenados que o partido sofreu dos membros veteranos, não-eleitos da burocracia partidária.

13/01/2017, 17:31 – Julie Lawrence [então diretora do gabinete da secretaria-geral]: Eu posso estar me precipitando, e JC é um homem orgulhoso e egoísta assim como sua equipe, mas se perdermos essas eleições [Stoke e Copeland] podemos ter outra vitória da liderança. Nós devemos em algum momento montar um grupo de trabalho [WG] discreto para estudar as regras, estabelecer cenários e as equipes envolvidas no processo. Só para estarmos preparados. Como na Operation Cake.

13/01/2017, 17:32 – Patrick Heneghan [então diretor-executivo]: Espero que sim…

13/01/2017, 17:32 – Julie Lawrence: É…

13/01/2017, 17:32 – Iain McNicol [então secretário-geral]: OK Julie você pode organizar?. Operation Cupcake

13/01/2017, 17:32 – Julie Lawrence: Sim

13/01/2017, 17:33 – Emilie Oldknow [então diretoria executiva de governo, filiação e serviços partidários]: eu e Iain falamos com TW [Tom Watson] sobre isso

13/01/2017, 17:33 – Julie Lawrence: 👌

13/01/2017, 17:33 – Patrick Heneghan: O que isso significa

13/01/2017, 17:34 – Emilie Oldknow: Significa que Iain disse a TW para se preparar para ser a liderança interina.”

Aqui um diretor-executivo, Heneghan, afirma explicitamente que espera que o partido seja derrotado em ambas eleições suplementares, enquanto Oldknow e McNicol deixam claro que o líder parlamentar à época, Tom Watson, estava envolvido em esquemas para substituir Corbyn.

No entanto, as eleições suplementares acabaram divididas: os trabalhistas ganharam em Stoke Central mas perderam em Copeland, significando que, apesar de enfraquecido, Corbyn continuou forte o suficiente para continuar na liderança.

No dia 18 de abril, a primeira-ministra Theresa May convocou eleições. Com o Partido Trabalhista muito atrás nas pesquisas, a SMT decidiu com antecedência “jogar dinheiro” no mandato de Watson em West Bromwich East (a qual ele manteria com 58% dos votos em junho):

22/04/2017, 22:44 – Patrick Heneghan: Ok. Mas precisamos jogar dinheiro no mandato do Tom

22/04/2017, 22:44 – Patrick Heneghan: Mesmo que apenas 50k

22/04/2017, 22:44 – Emilie Oldknow: Devemos fazer isso

22/04/2017, 22:46 – Patrick Heneghan: Não podemos deixá-lo perder por causa de dinheiro

22/04/2017, 22:46 – Patrick Heneghan: Estamos derretendo

22/04/2017, 22:46 – Patrick Heneghan: Caímos 25 pontos e ainda nem começaram a nos atacar

22/04/2017, 22:48 – Iain McNicol: Vamos conversar na segunda. Estou indo dormir. Mas obviamente proteger o mandato de Tom.”

De acordo com a reportagem, a SMT se atreveu a designar recursos significativos para uma “equipe secreta de mandatos decisivos” em maio de 2017, sem o conhecimento de Corbyn e de sua equipe (LOTO, “liderança da oposição”, em inglês). Sediada permanentemente em um imóvel separado, a Ergon House, e “totalmente escondida da LOTO”, a equipe trabalhou para proteger parlamentares, incluindo Watson, que estavam alinhados com a SMT – desviando financiamento dos “marginais”.

No início de maio, quando ficou claro que os trabalhistas estavam diminuindo a distância dos Tories (como são chamados os conservadores), ainda que muito atrás, os membros da SMT zombavam dos que trabalhavam por uma vítória trabalhista:

11/05/2017, 15:55 – Sarah Mulholland [então secretária parlamentar do Partido Trabalhista]: os empregados domésticos estão vibrando e aplaudindo as palavras de Jeremy para a nação.

11/05/2017, 15:57 – Julie Lawrence: Feche a porta da frente 😁

11/05/2017, 16:08 – Tracey Allen [assistente executiva do gabinete da secretaria-geral]: aaah, tomara que aproveitem. 28 dias e eles estarão em lágrimas 😂

Para além de palavras vazias, essa busca pela derrota como forma de mudar a liderança, ao invés de vencer as eleições, se refletiu em ações concretas.

Três dias depois, no dia 14 de maio, o então diretor de governo e unidade jurídica (GLU, em inglês) John Stolliday, salvou uma série de documentos delineando os procedimentos, códigos de conduta, e regras do purdah para as “eleições da liderança trabalhista de 2017”. Isso incluia uma linha do tempo rotulada de “mais rápida”, com o processo de escolha para uma nova liderança se iniciando no dia 12 de junho e o anúncio do resultado no dia 19 de agosto de 2017.

Stolliday, atual líder da “unidade de articulação de membros” da UNISON, mesmo tendo participado da Campanha pelo Voto Popular, salvaria um outro documento, entitulado “Mudança da Regra do Colégio Eleitoral”, menos de duas semanas depois. Esse documento propunha substituir o “sistema de um membro, um voto” do Partido Trabalhista, que garantiu as duas vitórias de Corbyn na liderança, pelo colégio eleitoral que existia antes de 2013. O plano, então, não era simplesmente mudar a liderança, mas também as regras sob as quais o sucessor de Corbyn seria escolhido.

Um foco em eventos posteriores às eleições, ao contrário de tentar vencê-las, foi reforçado por membros da SMT que pareciam saborear a iminente derrota. Isso fica claro nas seguintes mensagens entre Neil Fleming, diretor regional por Greater London, e Patrick Heneghan – diretor executivo de eleições, campanhas e organização.

19/05/2017, 23:43 – Neil Fleming: Acabei de ver a entrevista da Nia [Griffith]. Que heroína. Ela não vacila e acabou acabou de apunhalar corbyn e thornberry.

19/05/2017, 23:45 – Patrick Heneghan: É mesmo

19/05/2017, 23:46 – Neil Fleming: A Thornberry é péssima. Ela tem que pagar por tudo isso.

Este diálogo revela duas coisas. Primeiro o tipo inapropriado e sinistro de vocabulário usado frequentemente pelos membros veteranos ao falarem sobre a liderança do partido – mas também como tal inimizade se extendia para além de Corbyn para quem supostamente estava ajudando-o a se tornar primeiro-ministro – neste caso, a parlamentar Emily Thornberry.

No dia seguinte, 20 de maio, Jeremy Corbyn foi vibrantemente recebido no Tranmere’s Prenton Park. Foi lá onde “Oh Jeremy Corbyn” foi cantado ao ritmo de Seven Nation Army, dos The White Stripes pela primeira vez, em resposta à subida do partido nas pesquisas e um líder cada vez mais popular. A resposta daqueles no QG do partido foi hostil e negativa:

20/05/2017, 19:59 – Julie Lawrence: https://twitter.com/DavidPrescott/status/866001515382702080

20/05/2017, 20:08 – Tracey Allen: MEU DEUS acho que é isso que está causando meu mal-estar!!!

20/05/2017, 20:13 – Neil Fleming: Todo mundo no noroeste enlouqueceu??

A preocupação com o sucesso dos trabalhistas só crescia. No dia 26 de maio, conforme a subida continuava, Francis Grove-White – o dirigente de política internacional do partido – e Jo Greening, um conselheiro de questões internacionais, conversaram sobre como uma pesquisa da YouGov que mostrava os trabalhistas com 36% os fazia “passar mal”.

Francis Grove-White 09:11: Eu realmente passei mal quando vi aquela pesquisa da YouGov ontem a noite.

Jo Greening 09:12: não é ótimo

Francis Grove-White 09:12: Não que eu acredite que chegaremos lá ou até perto disso

Jo Greening 09:12: e eu te digo o porquê, é um pico e a pesquisa foi feita após o ataque em Manchester então com alguma sorte esse discurso mostrará uma clara queda e poderemos mostrar o quão repugnantes eles realmente são(agora obviamente nós sabíamos que nunca foi real – mas esse não é o ponto na política!)

Francis Grove-White 09:13: Sim estou certo disso

Francis Grove-White 09:16: Meus medos são que: a) o discurso não irá cair tanto quanto deveria graças à larga base de oposição mal-informada sobre as intervenções no oeste. E b) eles irão usar essa pesquisa para defender que estavam no caminho da vitória e então Manchester aconteceu. E se for JC ou não, muitos filiados irão comprar essa idéia”

Tal pessimismo em relação à variação do Partido Trabalhista nas pesquisas nacionais não pertencia apenas a Greening e Grove-White. No dia 31 de maio, conforme as eleições pareciam cada vez mais apertadas, novas pesquisas sugeriam um parlamento bem dividido, ou até mesmo uma maioria trabalhista. Mas até mesmo atuais membros veteranos da equipe pareciam preferir as pesquisas que continuavam a prever uma vitória dos conservadores:

31/05/2017, 16:47 – Patrick Heneghan: intenções de voto em Westminster: CON: 43% (+1) LAB: 33% (-1) LDEM: 11% (+2) UKIP: 4% (-) GRN: 3% (-1) (via TNS_UK/25-30 de maio)

31/05/2017, 16:49 – Neil Fleming: Sempre amei a TNS. Padrão de excelência.

No dia seguinte, até mesmo o secretário-geral do partido, Iain McNicol, zombou a possibilidade de Corbyn se tornar primeiro-ministro.

01/06/2017, 21:01 – Patrick Heneghan: Dêem uma olhada no tweet do @jon_trickett:https://twitter.com/jon_trickett/status/870343944596574209?s=08

01/06/2017, 21:04 – Tracey Allen: O que!!!!

01/06/2017, 21:06 – Julie Lawrence: Ich bin ein Trot!

01/06/2017, 21:06 – Iain McNicol: Eu sou um Corbyn

01/06/2017, 21:07 – Iain McNicol: Isso não faz sentido

01/06/2017, 21:07 – Tracey Allen: Eu sou um hamburger

01/06/2017, 21:07 – Iain McNicol: Eu sou um trotskista

01/06/2017, 21:07 – Iain McNicol: Isso faz total sentido

01/06/2017, 21:08 – Iain McNicol: Ich bin prime minister

01/06/2017, 21:09 – Julie Lawrence: 😱

01/06/2017, 21:11 – Tracey Allen: Eu estou me sentindo seriamente esquisita com todo esse papo de PM. Eu não acho que posso lidar com a idéia. Mais 6 dias é muito tempo.

No dia seguinte, conforme uma pesquisa colocou o Partido Trabalhista com 40%:

02/06/2017, 11:46 – Patrick Heneghan: Dêem uma olhada no tweet de @britainelects: https://twitter.com/britainelects/status/870592083060543488?s=08

02/06/2017, 11:48 – Neil Fleming: Wowser

02/06/2017, 12:11 – Julie Lawrence: Nãooo, é sério?”

Menos de uma semana antes das eleições, a Survation reduziu a vantagem dos conservadores para apenas um ponto, enquanto outra empresa de pesquisas, a ORB, colocou os Tories nove pontos à frente. Naturalmente a SMT trabalhista viu a última pesquisa como boas notícias.

03/06/2017, 20:50 – Patrick Heneghan: intenções de voto em Westminster: CON: 40% (-6) LAB: 39% (+5) LDEM: 8% (-) UKIP: 5% (+2) (via @Survation / 3 de junho)

03/06/2017, 20:50 – Neil Fleming: 😱

03/06/2017, 20:54 – Neil Fleming: Que porra está acontecendo. Mais fácil que as pesquisas dobrem os números.

03/06/2017, 20:54 – Tracey Allen: Tá mechendo com a minha cabeça.

03/06/2017, 21:02 – Julie Lawrence: 😳

03/06/2017, 21:04 – Tracey Allen: 5 longos dias pela frente

03/06/2017, 21:12 – Patrick Heneghan: Westminster voting intention: CON: 45% (+1) LAB: 36% (-2) LDEM: 8% (+1) UKIP: 4% (-1) (via ORB / 31 de maio-01 de junho)

03/06/2017, 21:13 – Neil Fleming: Boa e velha ORB

Enquanto os veteranos admitiam a esperança de que as pesquisas mais pessimistas estivessem certas, Greg Cook, o líder de estretégia política, no dia 4 de junho foi além, dizendo que esperava que a “absoluta hipocrisia” de um discurso de Jeremy Corbyn faria outras de suas opiniões “um assunto legítimo” de ataque, se referindo a Corbyn como um “mentiroso desprezível”.

04/06/2017, 21:01 – Greg Cook: Com sorte a absoluta hipocrisia daquele discurso fará com que suas opiniões sobre STK e abolir o exército um assunto legítimo.

04/06/2017, 21:20 – Patrick Heneghan: Dêem uma olhada no tweet de @jon_trickett: https://twitter.com/jon_trickett/status/871433303794089985?s=08

04/06/2017, 21:42 – Greg Cook: Absolutamente correto. Mostra em detalhe o mentiroso desprezível que ele é

Isso poderia ser a linha de ataque dos assessores conservadores – mas veio do líder de estratégia política do Partido Trabalhista e do diretor executivo para eleições, campanhas e organização.

Imitando a atitude de seus colegas, Neil Fleming, o líder de impresa e divulgação do partido, celebrou uma pesquisa negativa para o partido no dia anterior às eleições.

07/06/2017, 18:01 – Patrick Heneghan: Westminster voting intention: CON: 46% (+1) LAB: 34% (-) LDEM: 7% (-1) UKIP: 5% (-) GRN: 2% (-1) (via @ICMResearch / 6-7 de junho)

07/06/2017, 18:02 – Neil Fleming: Boom

Naquele mesmo dia, quando discutiam o bem-sucedido comício final da campanha – na Union Chapel em Islington – a equipe brincou sobre o uso de violência contra parlamentares e apoiadores trabalhistas.

07/06/2017, 22:02 – Carol Linforth [líder de eventos partidários]: Nós chegamos muito perto da política parar o evento.

07/06/2017, 22:03 – Carol Linforth: <suprimido>

07/06/2017, 22:03 – Patrick Heneghan: Meu deus

07/06/2017, 22:03 – Julie Lawrence: Caramba.

07/06/2017, 22:03 – John Stolliday: Porretes à mão pessoal, vamos bater em alguns trotskistas.

07/06/2017, 22:04 – Patrick Heneghan: Canhões de água por favor.

No dia da votação, enquanto a equipe do partido, parlamentares, filiados e apoiadores estavam incentivando o voto e todo o país, os veteranos faziam piadas sobre a bebedeira do dia seguinte.

08/06/2017, 12:19 – Patrick Heneghan: Temos a parte de cima do old star reservada para amanhã a partir das 3

08/06/2017, 12:21 – Neil Fleming: Loto/Número 10 convidados? 😂

08/06/2017, 12:21 – Patrick Heneghan: Não.

08/06/2017, 12:22 – Neil Fleming: Hahahaha.

Os risos rapidamente mudaram para tristeza, no entanto, e quando saiu a pesquisa de boca de urna às 10 da noite, prevendo um parlamento dividido, grande parte dos veteranos em Southside, no QG do partido, estavam em estado de choque, com o diretor da secretaria-geral oferecendo um “lugar seguro” no escritório de Iain McNicol.

08/06/2017, 22:24 – Julie Lawrence: Patrick se alguém na sala de guerra precisar de um espaço seguro podem vir para o gso.

08/06/2017, 22:25 – Tracey Allen: Precisando de terapia no caso!

08/06/2017, 22:41 – Emilie Oldknow: Como está a atmosfera por lá?

08/06/2017, 22:41 – Simon Mills: Depende em qual lado do prédio!

08/06/2017, 22:41 – Patrick Heneghan: Péssima

08/06/2017, 22:41 – Patrick Heneghan: Socorro

08/06/2017, 22:42 – Simon Mills: Dividida entre euforia e choque

08/06/2017, 22:42 – Julie Lawrence: Estamos chocados e cambaleando

08/06/2017, 22:45 – Tracey Allen: Eles estão vibrando e nós estamos em silêncio e de cara fechada. O contrário para o que vinha trabalhando nos últimos anos!! 😞

08/06/2017, 22:46 – Emilie Oldknow: Precisamos nos animar

08/06/2017, 22:46 – Emilie Oldknow: E não demonstrar

08/06/2017, 22:47 – Emilie Oldknow: E pelo menos nós temos um monte de dinheiro agora…

08/06/2017, 22:47 – Julie Lawrence: Não se entrarmos em coligação e perdermos dinheiro

08/06/2017, 22:47 – Julie Lawrence: “Steve” chegando na sala

08/06/2017, 22:48 – Emilie Oldknow: Ah não

08/06/2017, 22:48 – Patrick Heneghan: Todos precisam sorrir

08/06/2017, 22:48 – Patrick Heneghan: Estou indo para a sala da morte

08/06/2017, 22:48 – Emilie Oldknow: Todos precisam estar bem animados

08/06/2017, 22:48 – Julie Lawrence: É difícil mas sim

08/06/2017, 22:52 – Iain McNicol: Eu não estou afim de sorrir e socializar e vou pro segundo andar.

08/06/2017, 22:53 – Iain McNicol: Todos os outros devem fazer o mesmo.

08/06/2017, 22:53 – Iain McNicol: A noite vai ser longa”.

“A noite vai ser longa”, foi a reação do secretário-geral do partido, após os trabalhistas terem tirado a maioria dos conservadores e terem visto a maior votação popular dos últimos 20 anos. Ainda que um comentário revoltante, levando em conta o status elevado de McNicol dentro do partido, é talvez superado por Julie Lawrence – ex-diretora da secretaria-geral – que parece ter temido ativamente um possível governo trabalhista. Enquanto isso, Emily Oldknow, atual secretária-geral assistente na UNISON, aparentemente viu um ponto positivo, dizendo: “pelo menos nós temos um monte de dinheiro agora”.

Os resultados continuaram chegando ao longo da noite, e com vitórias do Partido Trabalhista em todo o país, a equipe comentou que “um destaque” seria Rhea Wolfson – membra do NEC e apoiadora de Corbyn – vencendo a cadeira escocesa de Livingston, estando assim “fora do NEC”.

09/06/2017, 00:07 – Sarah Mulholland: Amigos escoceses na contagem afirmam Rhea Wolfson indo bem na apuração…

09/06/2017, 00:07 – Emilie Oldknow: Brilhante

09/06/2017, 00:08 – Emilie Oldknow: Põe ela para fora do NEC

09/06/2017, 00:09 – John Stolliday: Eddie Izzard entra

09/06/2017, 00:09 – Julie Lawrence: Um destaque

09/06/2017, 00:09 – John Stolliday: Caso Ellie Reeves também ganhe

09/06/2017, 00:11 – Fiona Stanton [diretora regional sênior]: Emily thornberry é tãooo horrorosa

Quando os trabalhistas pareciam prontos para barrarem o “imposto da demência” dos conversadores, e possivelmente até formar um governo, a prioridade era ganhar cadeiras no comitê executivo nacional do partido, evidência do quão sectária era a SMT.

Na manhã seguinte, conforme a escalada trabalhista em todo país ficava clara, a SMT continuou a expressar absoluto desprezo – além de fazer comentários preocupantes sobre “nossas derrotas”, o que implica que tinham uma lista de candidatos que apoiavam acima de outros.

09/06/2017, 10:44 – Tracey Allen: Vamos ter que engolir isso. É a voz do povo. Bastardos

09/06/2017, 12:59 – Sarah Mulholland: Qual foram nossas derrotas de novo – Winnick, Meale, Flello e Engel. Tem mais algum que esqueci?

09/06/2017, 13:00 – Greg Cook: Não, as outras perdas foram as cadeiras de Copeland e Blenkinsopp.

09/06/2017, 13:01 – Sarah Mulholland: 👍

09/06/2017, 13:01 – Sarah Mulholland: Obrigado Greg

09/06/2017, 13:16 – Tracey Allen: Temos uma carta pronta para eles na segunda Iain

09/06/2017, 13:30 – Sarah Mulholland: Kensington e Chelsea? Acabei de acordar e to confusa pelo Twitter. Nós as ganhamos???

09/06/2017, 13:30 – Patrick Heneghan: Nova contagem às 18h

09/06/2017, 13:31 – Sarah Mulholland: Meu deus. Aquela Emma Coad é uma burra de primeira.

Sarah Mulholland, então diretora de serviços políticos para os parlamentares trabalhistas (PLP, em inglês) – e hoje líder de políticas para a Northern Powerhouse Partnership – ficou desapontada pelo partido ter conseguido uma cadeira nunca antes ganha. A ofensiva expressa aqui é vista também em outros emails, inclusive quando ela torce para que uma jovem ativista trabalhista, cujos problemas mentais são bem documentados, “morra queimada”. Em outro momento também escreveu como Diane Abbott “literalmente a enoja”.

Após a reunião seguinte dos PLP, onde muitos parlamentares expressaram apoio a Jeremy Corbyn após um resultado eleitoral positivo, Oldknow descreveu parlamentares incluindo Yvette Cooper como “bajuladores” e “vergonhosos”.

13/06/2017, 18:54 – Emilie Oldknow: Tamanha união

13/06/2017, 18:55 – Emilie Oldknow: É realmente vergonhoso ver a bajulação de todas essas pessoas

13/06/2017, 18:56 – Emilie Oldknow: Dizendo como ele foi brilhante

13/06/2017, 18:56 – Julie Lawrence: Meu deus

[…]

13/06/2017, 19:01 – Tracey Allen: Bajulação. É a isso que nos rebaixamos 😩

13/06/2017, 19:02 – Emilie Oldknow: Angela Smith falou sobre como o gabinete regional foi incrível e não teriam conseguido sem eles

13/06/2017, 19:05 – Patrick Heneghan: O Mike A falou?

13/06/2017, 19:08 – Emilie Oldknow: Não.

13/06/2017, 19:08 – Emilie Oldknow: Yvette. Puxa-saco

No dia 15 de junho, uma semana após as votações, eles ainda compartilhavam seus sentimentos negativos em relação aos resultados.

15/06/2017, 22:08 – John Stolliday: Uma semana desde aquela pesquisa de boca de urna…

15/06/2017, 22:08 – Julie Lawrence: Stress pós-traumático.

Menos de um ano depois, com a liderança de Corbyn bem estabelecida, Iain McNicol seria substituído como secretário-geral por Jennie Formby – que assumiu o cargo em abril. Em poucos meses, figuras como Oldknow, Stolliday e Heneghan sairíam, enquanto Fleming anunciou sua saída em março juntamente com membros da equipe de McNicol como Tracey Allen e Julie Lawrence.

Como esperado, isso foi informado por Kevin Schofield, um porta-voz da direita do partido, como um “êxodo”. Irônicamente, Stolliday afirmou que o Partido Trabalhista “precisa escolher se quer ser um partido de protesto ou de governo” ao se despedir – no entanto, levando em conta sua conduta menos de um ano antes essa seria uma questão mais pertinente para ele próprio.

Essas revelações devem encerrar qualquer debate sobre se a SMT do partido, incluindo McNicol, levaram a sério uma vitória trabalhista em 2017. Ao contrário, o que esse conjunto chocante de documentos revela é que McNicol – e um pequeno e não-eleito círculo ao seu redor – fizeram todos os esforços para sabotar e depreciar a campanha daquele ano, afirmando repetidamente o quanto esperavam uma derrota enquanto planejavam substituir Corbyn já desde janeiro.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

2 respostas »

  1. Brizola, diante deste caso, diria mais ou menos o seguinte: “Os grandes resultados eleitorais são acertados com as classes dominantes, que preparam as candidaturas, umas para ganharem, outras para perderem. Não temos como deixar de nos lembrar do que se passou em 2018, aqui no Brasil, com o PT pondo lá um pangaré como o Haddad, para perder, embora Haddad até possa ser um candidato para ganhar, em 2022 se Bolsonaro chegar ao fim do mandato, o que dificilmente acontecerá. Em 2018, o objetivo da candidatura de Haddad era a de melar a de Ciro Gomes, ainda que fosse preciso entregar o país a Bolsonaro-Guedes. No es lo mismo, pero es igual.

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  2. [Correção.] Brizola, diante deste caso, diria mais ou menos o seguinte: “Os grandes resultados eleitorais são acertados com as classes dominantes, que preparam as candidaturas, umas para ganharem, outras para perderem”. Não temos como deixar de nos lembrar do que se passou em 2018, aqui no Brasil, com o PT pondo lá um pangaré como o Haddad, para perder, embora Haddad até possa ser um candidato para ganhar, em 2022 se Bolsonaro chegar ao fim do mandato, o que dificilmente acontecerá. Em 2018, o objetivo da candidatura de Haddad era a de melar a de Ciro Gomes, ainda que fosse preciso entregar o país a Bolsonaro-Guedes. No es lo mismo, pero es igual.

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