Brasil

O esquema militar para derrubar Bolsonaro

Por Lucas Leiroz, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine

Um general do exército conversa com o presidente Jair Bolsonaro, durante uma cerimônia de formatura no Rio de Janeiro, no dia 24 de novembro de 2018. Foto por Fernando Souza.
Um general do exército conversa com o presidente Jair Bolsonaro, durante uma cerimônia de formatura no Rio de Janeiro, no dia 24 de novembro de 2018. Foto por Fernando Souza.

A situação política do Brasil piora dia após dia. A forma irresponsável que Jair Bolsonaro está gerindo os efeitos da pandemia está causando preocupações e indignação em todos os setores da sociedade brasileira. Todas as bases que garantiram o poder de Bolsonaro até agora estão abaladas, devido às suas medidas irresponsáveis. Ao mesmo tempo que sua popularidade despenca exponencialmente, o grupo que garantiu a inviolabilidade de seu mandato – os militares – está se distanciando cada vez mais dos projetos do presidente.

De fato, a relação entre Bolsonaro e os militares duraram um longo período até sua deterioração, fato em si curioso quando observamos dados concretos. Apesar de seu discurso de exaltação das Forças Armadas e sua apologia da ditadura militar, o governo Bolsonaro está sendo marcado por um sério processo de sucateamento militar. O orçamento destinado ao Ministério da Defesa em 2020 foi o menor em mais de duas décadas.

Claramente, o projeto de Bolsonaro tem como objetivo principal a completa subordinação do Brasil às potências militares e econômicas estrangeiras do eixo ocidental, e esse projeto requer a falência definitiva das instituições militares nacionais. Por esse motivo o discurso comum dentre a esquerda brasileira, que afirma que Bolsonaro visa militarizar o país, é errôneo e superficial, e não compreende os problemas reais do atual governo.

Certamente, as massas de militares foram enganados pelos discursos de Bolsonaro e formaram sua base eleitoral. Por outro lado, um pequeno grupo de generais e oficiais de alta patente assumiram cargos políticos com a liderança neoliberal e aceitaram apoiar o regime em troca de benefícios pessoais. No entanto, esses mesmos soldados estão começando a perceber o erro grotesco que cometeram.

O fanatismo ideológico neoliberal de Jair Bolsonaro o levou a cometer graves erros que ameaçam a segurança nacional. Exemplos dessa atitude são claros na irresponsável criação de tensões desnecessárias com a Venezuela, em nível regional, e com a China, em nível global.

Com um país economicamente quebrado, defrontado com a grave pandemia do novo coronavírus e com suas Forças Armadas sucateadas, como administrar crises geopolíticas dessa magnitude? Essa é a grande questão que os generais estão começando a se perguntar, percebendo que o único caminho possível é o fim do governo de Bolsonaro.

Desde então, os militares começaram uma série de movimentações que indicam que estão planejando uma intervenção política. Recentemente, o vice-presidente Hamilton Mourão se reuniu com um grupo de generais para discutir formas de levá-lo ao poder. Na prática, isso significa que as Forças Armadas brasileiras estão abertamente planejando um golpe político para retirar Bolsonaro da presidência e substituí-lo por Mourão.

Sem dúvidas, o aumento das tensões entre Bolsonaro e os militares se deve à inércia com a qual o presidente tem lidado com a grave pandemia de Covid-19 que se espalha pelo país. A negligência do presidente em relação às medidas de isolamento social tem levado a um aumento exponencial de infecções, causando a fúria não apenas dos militares, mas de todos os setores da sociedade civil.

No parlamento, um pedido de impeachment já foi enviado. Em Haia, Bolsonaro já foi denunciado à Corte Penal Internacional por incentivar ações que acarretam no agravamento da pandemia, o que pode causar a morte de milhares de pessoas. De todos os lados, parece que o mandato de Bolsonaro como presidente está chegando ao fim. Denunciado legalmente, sem apoio popular e rejeitado pelas Forças Armadas, o que resta ao presidente é o apoio estrangeiro, advindo da nação à qual jurou lealdade: os Estados Unidos. Entretanto, já que os EUA são atualmente o país mais atingido pela pandemia global, tendo que lidar com uma séria crise econômica e política interna, estaria Washington interessada em ajudar Bolsonaro? Quem salvará o presidente brasileiro de seu destino eminente?

Tudo indica que Bolsonaro irá cair em questão de semanas ou meses. Resta saber o que virá em seguida. É pouco provável e desejável que Bolsonaro seja levado ao tribunal internacional. Ainda assim, levando em conta toda a burocracia que envolve o processo de impeachment, também é improvável que ele seja derrubado por meios legais e constitucionais, já que a situação do país é emergencial devido à pandemia. Dessa forma, se especula que a idéia de uma intervenção dos militares ganhe mais e mais força nos próximos dias.

No entanto, também é improvável que uma intervenção dos militares para remover Bolsonaro dê início à uma ditadura militar. O cenário mais realista indica a derrubada do presidente pelos militares e a entrega do poder ao vice-presidente, sem militarizar o país de qualquer forma. Também é possível que esse seja o pretexto para o estabelecimento de uma assembléia constituinte, levando em conta que há tempos as facções liberais do Congresso têm proposto a instalação de um regime parlamentarista. Outro cenário possível é que Bolsonaro ceda completamente às demandas dos militares e se torne uma figura decorativa na política brasileira.

Por fim, a situação é de muitas dúvidas e uma única certeza: Bolsonaro está isolado e enfraquecido.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

1 resposta »

  1. Exatamente. E neste momento temos estabelecido que Mourão fala em nome do Exército, que não responde mais a Bolsonaro. Por esses dias mesmo vimos o comandante do Exército, e por extensão das três armas, dizendo, para todo mundo ouvir, que as FFAA respondem ao Ministério da Defesa, e não ao presidente da República! Mourão, em sua coletiva por ocasião do Conselho de Defesa da Amazônia, referia-se a Bolsonaro como um paspalho, um abestado que não conhece a linha do governo federal quanto ao combate ao coronavírus, sendo Bolsonaro o presidente da República!

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