EUA

Capitalismo, a religião oficial

Por Bob Urie, via Counterpunch, tradução de Eduardo Pessine

Por mais que as notas do dólar expressem "acreditamos em Deus", a religião oficial do estado yankee é, na verdade, o capitalismo. Via shutterstock.
Por mais que as notas do dólar expressem “acreditamos em Deus”, a religião oficial do estado yankee é, na verdade, o capitalismo. Via shutterstock.

Com pragas e infestações do Velho Testamento ressurgindo na era do capitalismo tardio, podemos perdoar quem imagina que um Deus vingativo foi despertado. Conforme o vírus se infiltra nos recantos da modernidade, inocentes estão sendo sacrificados no altar da “economia” enquanto o circo lunático que vai de Nova Iorque à Washington D.C tagarela sobre o preço das ações e curas milagrosas em meio a carnificina. A razão entre a cotação Dow e o número de mortos mede o quão longe do primeiro círculo do inferno ficaremos.

A disseminada ideologia que visa melhorar as condições de vida através da tecnocracia capitalista está sendo confrontada com seus fundamentos religiosos de governança sem governo, na fantasia de que os mercados irão nos salvar. Seria errado subestimar as quase heróicas ignorância e incompentência de Donald Trump, mas ele é um mero recipiente da religião oficial, e não sua causa. Por mais incoveniente que isso seja para os empresários, líderes políticos e os esperançosos, será quando sairmos da atual crise que a conta ambiental será cobrada de nós.

Uma questão interessante é: o que se vê como competência nos altos cargos do (auto)serviço público? Enquanto seria justo que o Sr. Trump fosse condenado por homicidio culposo pela sua inépcia em relação à pandemia de coronavírus, ele a fez a partir da mesma lógica que motivou os resgates de Wall Street, o Obamacare e a Parceria Transpacífica (TPP, em inglês). É claro que no ‘mundo de Washington’, a América é um país capitalista. Isso acarreta em uma hierarquia lógica na qual o povo é um mero detalhe.

Gráfico: a solução estadunidense à pandemia do coronavírus é salvar o mercado financeiro. Faltam kits de testes, equipamento de proteção e (muitos) respiradores, mas o preços das ações estão subindo graças ao Federal Reserve. A maioria das ações são propriedade de executivos e oligarcas. São um grande componente de sua riqueza. Por essa razão a valorização da ações é uma prioridade para ambos partidos e governos Republicanos e Democratas. Fonte: St. Louis Federal Reserve.
Gráfico: a solução estadunidense à pandemia do coronavírus é salvar o mercado financeiro. Faltam kits de testes, equipamento de proteção e (muitos) respiradores, mas o preços das ações estão subindo graças ao Federal Reserve. A maioria das ações são propriedade de executivos e oligarcas. São um grande componente de sua riqueza. Por essa razão a valorização da ações é uma prioridade para ambos partidos e governos Republicanos e Democratas. Fonte: St. Louis Federal Reserve.

Enquanto os poderosos consideram quando reabrir “a economia”, eles nunca fecharam à que importa para os ricos. Ações valorizadas são um talismã para a religião capitalista. Com US$ 4,5 trilhões injetados visando reabastecer as contas bancárias dos ricos versus US$ 1,5 trilhões para os irritantes humanos à beira da morte, quem pode dizer que as prioridades do governo estão fora do lugar? E ao contrário da feitiçaria econômica usada para explicar seus movimentos, a subida do mercado financeiro é resultado do financiamento do FED.

Para que a comparação entre os fracassos do ambos os partidos não pareça um caso de comparar maçãs com laranjas, reportagens após reportagens de meados de março mostram Donald Trump e seus assessores defendendo soluções de mercado para o fornecimento de kits de testes, equipamentos de proteção e respiradores. A OMS ter oferecido ao governo Trump um teste que funciona aparentemente não foi o suficiente. O governo preferiu utilizar um teste do Centro para o Controle de Doenças (CDC, em inglês) não eficaz para incentivar os pacientes a buscarem testes privados para proteger o lucro das corporações.

Gráfico: Em 2018, os Estados Unidos gastaram 2,5 vezes a média da OCDE de saúde per capita, e ainda mantém a expectativa de vida mais baixa e a maior taxa de doenças preveníveis. Isso são os anos após a aprovação do Obamacare, mostrando que ele não melhorou o sistema de saúde. Para que fique claro, mais pessoas morrem por ano devido ao sistema de saúde falho do que morreram devido ao coronavírus até agora (07/04/2020). O azul-claro é o gasto público, laranja o gasto privado e azul-escuro gastos eventuais particulares. Fonte: commonwealthfund.org.
Gráfico: Em 2018, os Estados Unidos gastaram 2,5 vezes a média da OCDE de saúde per capita, e ainda mantém a expectativa de vida mais baixa e a maior taxa de doenças preveníveis. Isso são os anos após a aprovação do Obamacare, mostrando que ele não melhorou o sistema de saúde. Para que fique claro, mais pessoas morrem por ano devido ao sistema de saúde falho do que morreram devido ao coronavírus até agora (07/04/2020). O azul-claro é o gasto público, laranja o gasto privado e azul-escuro gastos eventuais particulares. Fonte: commonwealthfund.org.

A alegação financiada pela Câmara de Comércio de Wall Street, de que a economia pode ser rapidamente reaberta é potencialmente homicida, no sentido de que é o seu fechamento parcial que pode causar a queda de novas infecções. O desafio conceitual parece ser que uma pandemia é um processo, e não um momento. Por exemplo, os otimistas afirmaram precocemente que a letalidade no Reino Unido era de baixíssimos 1,4%. Na realidade, leva-se algumas semanas para morrer de Covid-19, o que significa que eles não estavam considerando a progressão da doença. Nesse momento, a letalidade no Reino Unido já passou de 10% (5.373 mortes e 51.608 infectados), classificando o Covid-19 como uma epidemia de nível médio.

A distinção entre trabalhadores essenciais e não-essenciais também impõe um desafio conceitual já que os trabalhadores essenciais paracem ser os mais descartáveis. Os empregadores se eximiram da obrigação de protegê-los da infecção sob o falso lema capitalista de que o trabalho é assumido voluntariamente. Os defensores do “retorno ao trabalho” afirmam a sua necessidade econômica enquanto a classe política despeja US$ 4,5 trilhões em resgates para executivos e oligarcas. Onde estão os preços das ações dos fabricantes de guilhotinas?

Com multidões definhando nas prisões, as lideranças políticas americanas aparentemente as distinguem de campos de concentração pelo extermínio ativo versus passivo. Mantendo pessoas próximas forçadamente durante uma pandemia permite que elas morram sem serem ativamente assassinadas, teoricamente. Se essa distinção fosse aplicada às lideranças políticas ou conselhos corporativos, tal assassinato “passivo” estaria estampado nas primeiras páginas. Já é hora de esvaziar as prisões.

Previsíveis como o sol nascer ao leste são as defesas do capitalismo impulsionadas pelos banqueiros e executivos em “processo de resgate”. Aliás, o Instituto Ayn Rand foi fundado e financiado por banqueiros que foram “forçadamente resgatados” pelo governo federal em 2009. E qual foi a natureza da força utilizada? O governo ofecereu dinheiro e eles disseram “sim”. A beneficiária da previdência social e do Medicare Rand, assim como sua alma-gêmea Friedrich Hayek, estariam orgulhosos.

Para aqueles desinformados sobre a natureza precisa dessa hipocrisia americana, os economistas de direita Friedrich Hayek e Milton Friedman se uniram ao filósofo Karl Popper para fundar o neoliberalismo como um capitalismo “pragmático” no pós-guerra. O capitalismo é a verdadeira religião, segundo a teoria, e assim quaisquer ações necessárias para sustentá-lo são pragmáticas. O paradoxo de um governo federal apoiar o “livre mercado” é que ao fazê-lo, significa que não são nem livres, nem mercados.

Mesmo que o oligarca Trump esteja à altura da missão, os resgates do governo Obama elevaram o patamar em termos de corrupção institucional e do viés governamental em relação aos interesses da classe dominante. Os resgates para a indústria automobilística formalizaram a estrutura salarial que os executivos exigiam para cortar custos de mão-de-obra enquanto garantem seus salários multimilionários. Isso ocorreu enquanto a AIG, beneficiária do maior resgate corporativo da história, pagava bônus multimilionários aos executivos que afundaram a empresa ao redigirem políticas de seguros “livres de riscos”.

Mesmo que Donald Trump seja culpado em vários aspectos, suas ações em relação ao coronavírus seguem a cartilha americana de proteger os ricos enquanto deixam que as migalhas caiam para o resto de nós. Os Estados Unidos possuem há tempos uma mortalidade infantil maior do que os países desenvolvidos. E é a situação da classe trabalhadora e dos pobres que agravam as estatísticas de expectativa de vida e de mortes evitáveis. A única diferença perceptível que o Obamacare causou foi o aumento dos bônus dos executivos das empresas de planos de saúde após sua aprovação.

Tudo isso se vincula à resposta abismal do governo Trump ao vírus, onde deixar os pobres e trabalhadores morrerem de doenças preveníveis tem sido o american way desde sua fundação. E reafirmando, mais pessoas morreram de doenças evitáveis por ano desde a aprovação do Obamacare do que na atual pandemia, até agora.

Nos Estados Unidos, a pandemia se iniciou com viajantes à trabalho, que trouxeram a doença abordo. Mesmo que isso tenha sido, em última instância, acidental, eles podem arcar com o distanciamento social enquanto trabalhadores “essenciais”, não. Estudos que apontam que os trabalhadores negros e latinos estão morrendo desproporcionalmente de Covid-19 racializam as condições econômicas que explicam essa situação. Os mesmos trabalhadores “essenciais” sofrem com maiores taxas de mortalidade infantil, baixa expectativa de vida e mortes prematuras.

Os EUA possuem o dinheiro e os recursos para amenizar o impacto econômico da pandemia. Mas está usando-o para valorizar o mercado financeiro, resgatar Wall Street, comprar a dívida de empresas que faliram para enriquecer seus executivos, e para salvar as indústrias dos oligarcas. O distanciamento social é caro demais para os lucros, e será provavelmente encerrado em breve. Na religião americana, a “economia” existe fora das considerações humanas.

Um pilar central da defesa do capitalismo está na comparação entre países. A Alemanha é capitalista, os Estados Unidos são capitalistas, e ambos possuem letalidades dramaticamente diferentes em relação ao vírus. Então como o capitalismo pode ser o culpado pelos maus resultados? Os EUA possuem um coeficiente Gini – uma medida para a desigualdade de renda – de 45,1 comparado com o da Alemanha de 31,7, então como ambos podem ser considerados capitalistas? O coeficiente Gini é diretamente relevante para o sistema de saúde classista estadunidense.

Os Estados Unidos possuem uma mortalidade infantil de 6,5 por 1.000, comparados aos 3,8 da Alemanha. Os americanos possuem uma mortalidade infantil do terceiro mundo, e a Alemanha, do primeiro. Essa relação também se dá na maioria dos números do sistema de saúde. Só não se aplica ao custo – o sistema estadunidense é muito mais caro per capita do que o alemão. As divisões de classe mais aprofundadas nos Estados Unidos determinam quem recebe e quem não recebe tratamento adequado.

É possível afirmar que após os resgates de 2009, e agora os de 2020, que os EUA não são capitalistas. A série de resgates aos ricos, corporações e indústrias da falência não foram guiadas por políticas de estado oficiais no sentido de promover um programa econômico, mas sim para manter os poderosos no poder. Além disso, os Estados Unidos não são uma “economia mista” de instituições públicas e privadas, já que o governo federal está mantendo as corporações privadas na UTI sem uma política articulada ou uma definição da necessidade de cada um dos casos, antes que ocorram.

O termo “capitalismo de estado” poderia ser aplicado para ambos os Estados Unidos e China. A diferença central é que o Partido Comunista Chinês mantém o controle político sobre as empresas chinesas, enquanto as empresas estadunidenses controlam o sistema político americano. A teoria política reconhece o sistema dos EUA como corporativismo de estado, mais conhecido no século XX como o fascismo italiano. O termo é aplicado de maneira descritiva, e não pejorativa.

O sistema de saúde americano foi construído pelas corporações para o benefício próprio. O equilíbrio de poder entre hospitais, empresas farmacêuticas, fabricantes de equipamentos médicos e seguradoras não incluem um componente público. Desde a aprovação do Obamacare, essas indústrias vêm se consolidando umas sobre as outras, e não para melhorar o atendimento. A saúde é um detalhe quanto o lucro é a motivação.

O capitalismo é uma ideologia cuja premissa é não ser ideológica. Ela une o pragmatismo de Obama com a fé de Trump nos mercados. Se o Sr. Obama não acreditasse nos mercados, ele nunca teria salvado Wall Street. Mas ao salvar Wall Street, ele provou que não acredita nos mercados. O que há de pragmático nos ricos serem sempre os beneficiários de ajuda governamental? Não há nada de pragmático à primeira vista. Mas é sempre o caso. Bem-vindo à religião oficial.

Finalmente, com Bernie Sanders abandonando a corrida pela candidatura, a aposta dos Democratas de que Joe Biden pode derrotar Donald Trump está perto de ser colocada à prova. Parece que três anos e meio da idiotice forçada do Russiagate – cujo último vestígio foi recentemente abandonado pelos investigadores de Robert Mueller – serviram para repetir a estratégia derrotada de 2016. Entregar um segundo mandato para Donald Trump parece arriscado. Talvez tenhamos uma situação que requer um governo funcional. Mas os Democratas parecem determinados a isso. Que Deus nos ajude.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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