Europa

Covid-19 e a iminente crise do euro

Por Engelbert Stockhammer, via Brave New Europe, tradução de Eduardo Pessine

Protesto em Whistable, no sudeste da Inglaterra em 2018, contra o acordo de transição do Brexit. Foto por Niklas Hallen/AFP.
Protesto em Whistable, no sudeste da Inglaterra em 2018, contra o acordo de transição do Brexit. Foto por Niklas Hallen/AFP.

A crise do coronavírus terá um enorme impacto econômico. Dados atuais sugerem perdas na magnitude da crise financeira de 2008/2009. Diferente da crise financeira global, a crise do coronavírus representa um choque de oferta; como em 2008 e 2009, os governos vieram em socorro em uma escala massiva. Enquanto a crise financeira global emanou dos Estados Unidos, seus efeitos piores foram sentidos no sul da Europa alguns anos depois: a zona do euro passou por uma crise da dívida externa, austeridade brutal nos países mais afetados e uma performance econômica fraca desde então. O argumento desse texto é: a não ser que a zona do euro mude sua política econômica, uma similar crise da dívida será uma provável consequência da crise do coronavírus.

Quais foram os mecanismos centrais da crise da dívida externa do euro? Uma crise da dívida externa significa que o mercado financeiro não quer deter títulos da dívida, e consequentemente os governos afetados não conseguem mais vender seus títulos, seus preços despencam e os juros aumentam. Dessa forma, o diferencial de juros da dívida de um país para os que são considerados ativos seguros (tipicamente títulos estadunidenses e alemães) é o termômetro para uma crise da dívida. Dois fatores deram à crise do euro seu caráter perigoso: bancos comerciais detêm boa parte da dívida pública, então se os títulos se desvalorizam o balanço dos bancos é negativamente afetado. Se os bancos precisam de um resgate financeiro, a dívida cresce. É o chamado doom loop. Além disso, em tempos de crise financeira, quando os investidores reavaliam o risco dos ativos, eles tendem a vendê-los em bloco. Isso acaba afetando diversos ativos diferentes, e na crise do euro isso significou que os investidores passaram a vender títulos da dívida de todos os países do sul da Europa, mesmo que eles tivessem situações econômicas diferentes. A estabilização da crise ocorreu após o Banco Central Europeu (ECB, em inglês), sob a presidência de Mario Draghi, ter se comprometido a fazer “tudo que for necessário” para salvar o euro, o que na prática significou a compra da dívida dos estados-membros, providenciando assim uma âncora para o valor dos títulos (o ECB também estabeleceu o instrumento de Transação Monetária Definitiva, mas que nunca foi usado). Isso se provou suficiente para estabilizar as dívidas, mas o apoio do ECB foi condicionado à adesão às políticas de austeridade da Troika, e não impediu a profunda depressão e baixas taxas de crescimento nos países do sul.

Alguns erros foram cometidos na crise do euro. Primeiramente, a Comissão Européia, liderada pela Alemanha forçou os países quebrados à implementarem medidas de austeridade. Isso subestimou substancialmente o efeito multiplicador da política fiscal. Essa política também foi defendida à época pelo FMI, que também fazia parte da Troika, mas ao contrário da Comissão Européia, o FMI tem qualificado suas concepções de política fiscal. Segundo, o ECB demorou muito para garantir uma âncora às dívidas públicas. As razões para isso foram tanto políticas (em particular a resistência da Alemanha) quanto ideológicas (a compra dos títulos poderia criar problemas de moral hazard e encorajar gastos públicos excessivos, assim disciplinar o mercado e os valores da dívida seria necessário). Terceiro, o doom loop, a retroalimentação entre a dívida pública (nacional) e a estabilidade bancária comercial (nacional), não foi quebrado. Os passos em direção a uma associação bancária foram tímidos e tardios. Quarto, a centralidade da tensão, o espaço econômico da política fiscal e da dívida, é nacional. A emissão de eurobonds teria previnido grande parte dos problemas, quebrando o doom loop e evitando a expansão. A política adotada foi em última instância voltada à estabilizar os mercados financeiros, e não para criar um ambiente político que daria espaço de ação e gasto aos governos nacionais. Em termos simples, o objetivo era salvar os bancos, e não gerar crescimento e pleno emprego.

O quão diferente é a crise do coronavírus? Superficialmente, as coisas parecem diferentes. De início, o choque econômico é de outra natureza. A crise financeira foi um enorme choque de demanda após um boom histórico do setor imobiliário e do endividamento nos Estados Unidos e vários países europeus. A crise do coronavírus um choque de oferta brutal. Fábricas, lojas e restaurantes estão fechados não devido à uma falta de demanda, mas devido às medidas de saúde pública que visam conter a propagação da doença. No entanto, ambos levarão a imensos deficits orçamentários e aumento das dívidas públicas. Sobretudo, muito dos problemas estruturais do regime político da zona do euro não mudaram muito: os pactos fiscais reforçaram a tendência à austeridade. Enquanto os pactos foram atualmente suspensos, não foram substituídos por regimes políticos alternativos, e assim a austeridade retornará assim que o pior da crise passar. Os mecanismos básicos por debaixo do doom loop não foram contestados: aquela associação bancária não desconecta efetivamente a dívida pública e estabilidade bancária e não houve a “europeização” das dívidas públicas. O poder de “bombeiro” do sistema do euro (o ECB está mais preparado para intervir, e com o Mecanismo de Estabilidade Europeu, o ESM, um provedor de finanças à longo-prazo existe).

E de fato, os mesmos problemas políticos que estavam no centro dos debates sobre a crise do euro já resurgiram. O ECB (de Lagarde) declarou no dia 12 de março que não é papel do Banco Central reduzir o diferencial dos títulos públicos (em outras palavras, ancorar as dívidas), mas teve que recuar em poucos dias após o aumento das taxas dos títulos italianos, o que é muito perigoso já que a Itália possui um sistema bancário frágil. Se olharmos pelo lado positivo, a mudança do ECB levou apenas alguns dias, e não anos como durante a crise do euro. No Conselho Europeu, os coronabonds foram rejeitados pelos estados nórdicos, e dessa forma as dívidas relacionadas ao coronavírus estão totalmente nas contas nacionais. O debate sobre as condições sob as quais o ESM deve ser usado para fornecer financiamento aos estados membros está aberto.

Então qual é o risco de uma nova crise do euro? Isso irá depender de alguns fatores: o quão profunda será a recessão; o quão diferente será o impacto em cada país; o quão nacional ou européia será a resposta política; o quão abertos estarão os países do norte em dividir os custos; e finalmente o quão grande serão as fragilidades estruturais. Um olhar atento a esses fatores não é animador: primeiro, se os custos fiscais forem proporcionais à mortalidade, os déficits orçamentários e o endividamento serão maiores no sul da Europa do que na Alemanha. Segundo, estimar os custos econômicos é difícil já que não sabemos o quão longa será a paralisação; estimativas atuais apontam para agudos aumentos no desemprego e quedas da produção em magnitudes tão graves quanto em 2008/2009, que podem implicar em quedas no PIB de cerca de 10%, que consequentemente podem significar déficits orçamentários de 10 a 15% do PIB; no caso da Itália, sugere um aumento da dívida pública dos 135% do PIB atuais para acima de 150%. Isso a colocaria acima do parâmetro de 120% que serviu de referência para uma dívida sustentável na reestruturação da dívida grega e uma ancoragem efetiva. Terceiro, as respostas políticas até agora têm sido rigorosamente nacionais, mesmo que as políticas sejam relativamente semelhantes (isolamentos com apoio governamental para trabalhadores, empréstimos para negócios, etc). Em parte isso não surpreende, já que os sistemas de saúde são nacionais, mas o fechamento de fronteiras e respostas fiscais têm sido largamente descoordenadas. Resumindo, as respostas ao coronavírus tem se voltado ao nível nacional e não europeu. Quarto, se a discussão sobre os coronabonds é um indicativo, os países do norte não parecem dispostos a dividir os custos (mesmo que se de certo modo o ECB e o ESM sejam usados como âncora). Quinto, as vulnerabilidades financeiras globais já estavam elevadas antes da crise do coronavírus, principalmente em relação às instituições financeiras não-bancárias, ao setor corporativo e às economias emergentes. No entanto, o balanço dos bancos continuam frágeis em muitos países europeus, em particular na Itália. A dívida é substancialmente maior do que em 2008 em todas as economias avançadas.

Resumidamente, a tensão básica do sistema do euro, a criação de um sistema monetário comum enquanto se mantém a política fiscal no âmbito nacional ainda existe. A filosofia atual do sistema do euro tenta usar os valores de mercado para impor a disciplina fiscal no gasto dos estados-membros. Isso é uma contradição para ancorar as dívidas públicas. Mas para que os governos sejam efetivos quando necessário, em tempos de crise, eles precisam de um banco central que os sustente. Instrumentos fiscais comuns, como os coronabonds, seriam uma medida simples e efetiva contra esse dilema, mas está novamente em contradição com a filosofia atual do sistema do euro (e de suas leis).

Entretanto, as fragilidades econômicas, mesmo que diferentes de 2008, são substanciais, e a crise do coronavírus parece impactar os países de forma diferente e mudar o foco das políticas para o âmbito nacional e não europeu. Juntamente com um alto nível de endividamento e balanços bancários frágeis no sul da Europa, uma nova crise do euro nos próximos meses parece provável. Como a crise de 2010-2012, a crise iminente (e não a crise do coronavírus em si) pode ser evitada se a zona do euro concordar em implementar instrumentos fiscais comuns e o financiamento de gastos anticíclicos públicos.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

3 respostas »

  1. Então quer dizer que a Europa “unida” não é mais o grande modelo de civilização do Ocidente? A União Europeia não é mais a maravilha dos maravilhas em termos de prosperidade e “democracia”, pelos séculos dos séculos, amém? O que é a vida! E mesmo quanto a este assunto devemos ter em mente o gravíssimo problema das dívidas públicas ao redor do mundo. A nossa, a brasileira, é o maior escândalo e o maior absurdo, devidamente acobertada pela “esquerda” por uma simples questão de rabo preso, mas as dívidas públicas europeias também estão para se revelarem impagáveis e a questão está posta desde o que se passou na Grécia em 2011, 2012. O sistema financeiro mundial procura se apoderar dos recursos nacionais por meio de esquemas de endividamento que são na realidade fraudes. As lutas dos povos não obterão vitórias enquanto não forem lutas diretas e frontais contra o sistema financeiro mundial.

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