Oriente Próximo

Terrorismo médico: Irã sofre novas sanções estadunidenses em pleno combate ao Covid-19

As sanções estadunidenses deixaram o Irã sem kits de testes suficientes, ventiladores, medicamentos antivirais e outros suprimentos vitais.

Por Ki-Jana Carter, via Liberation News, tradução de Eduardo Pessine

Reunião em Teerã com os membros do governo, todos utilizando máscaras e luvas, no dia 18 de março de 2020. Via Presidência Iraniana/AP.
Reunião em Teerã com os membros do governo, todos utilizando máscaras e luvas, no dia 18 de março de 2020. Via Presidência Iraniana/AP.

Conforme o novo coronavírus continua a se espalhar pelo mundo, sanções econômicas ilegais impostas pelo governo dos Estados Unidos ameaçam elevar uma emergência de saúde pública à uma catástrofe. As sanções estadunidenses deixaram o Irã sem kits de testes suficientes, ventiladores, medicamentos antivirais e outros suprimentos vitais. Mesmo com a OMS, fornecedores da área de saúde e organizações de direitos humanos chamando pela suspensão das sanções por questões humanitárias, a resposta dos Estados Unidos tem sido no caminho contrário.

O Secretário de Estado Mike Pompeo anunciou no dia 18 de março o aumento das sanções contra o Irã, mirando nove entidades e três pessoas visando “privar o regime de receitas críticas de sua indústria petroquímica e aumentar o isolamento econômico e diplomático do Irã”.

O Ministro de Relações Exteriores iraniano Javad Zarif taxou a recusa dos EUA em suspender as sanções de “terrorismo médico” após o advogado de direitos humanos Arjun Sethi ter acusado as novas sanções de “literalmente usar o coronavírus como arma”.

O vírus já se espalhou por todas as 31 províncias do Irã (o que é impressionante para um país geograficamente equivalente à França, Alemanha e Espanha combinadas), e até o dia 21 de março, o Irã já registrou 20.610 infecções e 1.556 mortes por Covid-19. Os infectados incluem o vice-presidente Eshaq Jahangiri, os ministros Ali Asghar Monesan e Reza Rahman, o Ministro da Saúde Iraj Harirchi e 23 dos 290 membros do parlamento iraniano.

Dentre os mortos, Fatemeh Rahbar, um parlamentar conservador; Mohammad Mirmohammadi, conselheiro do líder supremo Aiatolá Ali Khamenei; e Hossein Shekholeslam, o ex-Ministro de Relações Exteriores, que cumpriu importante papel na tomada da embaixada americana em 1979.

O governo iraniano mobilizou um esforço nacional para combater a rápida propagação do vírus. O governo formou um comitê nacional, abrangendo uma gama de ministros e oficiais, liderado pelo Ministro da Saúde Saeed Namaki. Escolas e universidades foram fechadas em todo país até o final do ano iraniano, no dia 20 de março; e o Ministério de Telecomunicações desenvolveu um aplicativo para pessoas registrarem suspeitas de infecção.

Cerca de 300.000 equipes estão mobilizando escolas, bases militares e centros de saúde, e irão preparar mais de 26.000 novos centros de atendimento nas cidades e vilas ao redor do país onde pacientes poderão ser testados, monitorados e receber tratamento. Membros das equipes médicas já foram vistos desinfectando estações de taxi. Cultos religiosos também foram cancelados nas cidades em todo país.

Em um esforço para reduzir a densidade carcerária e previnir a propagação do vírus nas prisões, o Irã liberou temporariamente 85.000 presos, e o chefe do judiciário Ebrahim Raisi anunciou que a liberação de presos irá continuar “enquanto não criar insegurança para a sociedade”.

Apesar do relativo alto nível de desenvolvimento econômico e social do Irã, e apesar do reconhecimento do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, de que o país está fazendo tudo ao seu alcance para conter o vírus, o Irã está sofrendo para reduzir a velocidade de propagação do vírus devido às sanções estadunidenses.

A culpa é das sanções ilegais dos EUA

Desde a Revolução Islâmica de 1979, que subtituiu o ditador apoiado pelos Estados Unidos, Mohammad Reza Shah Pahlavi, por um estado controlado pela burguesia nacionalista iraniana, o Irã tem sofrido inúmeras tentativas de subjugação por parte dos EUA e seus parceiros imperialistas. A economia iraniana, apesar de baseada na exploração de sua classe trabalhadora, tem conseguido crescimento significativo através da nacionalização de indústrias importantes, incluíndo do petróleo, o que resultou em uma independência econômica, altas taxas de alfabetização e aumento da expectativa de vida no país.

Em 2011, os Estados Unidos e a União Européia implementaram sanções econômicas contra o Irã que interditaram a participação do país no sistema comercial global, sabotando severamente a economia iraniana e causando a desvalorização brusca de sua moeda. Isso levou a uma inflação galopante, um fardo que tem sido carregado em grande parte pela classe trabalhadora iraniana, justamente o objetivo dos arquitetos das sanções.

Apesar da sabotagem econômica através das sanções, o Irã resistiu e em alguns aspectos até prosperou economicamente. Alimentos e medicamentos são largamente disponíveis a preços baixos. Atividades comerciais como restaurantes e shoppings continuaram a passos largos. Muito desse sucesso pode ser creditado à economia diversificada do país (o Irã se beneficiou muito da exportação de petróleo mas não ficou dependente apenas dela), além de táticas como as trocas diretas de commodities com outros países (já que o Irã foi bloqueado do sistema bancário internacional) e a venda de petróleo através de seu vizinho, o Iraque.

No entanto, nenhum país inserido na interconectada economia capitalista global pode sobreviver ao isolamento para sempre. O presidente iraniano, Hassan Rouhani, busca uma forma de acabar com as sanções. Em 2016 o Irã assinou a Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA). A JCPOA reconheceu o direito do Irã de enriquecer urânio para usos não-militares (um direito garantido pelo Acordo de Não-Proliferação Nuclear mas ignorado anteriormente pela potências imperialistas) e removeu muitas das sanções econômicas contra o Irã, incluindo embargos na exportação de petróleo e restrições no setor financeiro, em troca do Irã reduzir agudamente suas atividades de enriquecimento de urânio. A remoção das sanções permitiu um grande crescimento da economia iraniana, atingindo taxas de crescimento do PIB de 12,3% em 2016.

Trump rasga o acordo nuclear e impõe sanções em 2018

A JCPOA representou uma mudança estratégica da classe dominante dos EUA, de uma política de agressão econômica aberta à um refinado imperialismo diplomático. Essa mudança foi revertida drásticamente com a eleição de Donald Trump. Em 2018, o governo estadunidense decidiu unilateralmente (sem o consentimento dos parceiros imperialistas europeus) romper com o acordo e reimpor as sanções, particularmente aquelas que visam o sistema financeiro, energético e de transporte da economia iraniana.

Como resultado, a economia do Irã retraiu 9,5% em 2019, e a inflação disparou para 35%. Essas sanções são um ato de guerra na esfera econômica. O objetivo é enfraquecer a economia do país ao ponto que Washington possa instigar a derrubada do governo iraniano e substituí-lo por um regime “marionete” aberto as infiltrações das empresas capitalistas ocidentais.

As sanções, no entanto, não tiveram o efeito esperado de enfraquecer o governo iraniano, como ficou claro nos protestos em novembro de 2019, que denunciaram não o governo, mas as sanções ilegais por parte dos Estados Unidos, que causaram o sofrimento e empobrecimento da classe trabalhadora do Irã. Elas estão, no entanto, criando uma crise diferente: uma crise de saúde pública.

É precisamente o isolamento econômico e o enfraquecimento do Irã que têm o tornado incapaz de conter o surto de Covid-19. As grandes restrições financeiras forçadas unilateralmente pelo imperialismo americano dificultaram muito a aquisição de suprimentos médicos essenciais. A Foreign Policy (um meio de comunicação que não é exatamente conhecido por sua cobertura amigável das nações oprimidas) afirma que máscaras, desinfetantes e medicamentos estão em grande demanda, enquanto as farmácias e fornecedores então com falta de abastecimento. As sanções estadunidenses deixaram os importadores e fábricas incapazes de suprir a carência.

Google remove aplicativo de monitoramento do vírus

As corporações capitalistas trabalham em conjunto com seus respectivos governos para implementar as sanções. Por exemplo, a Google removeu o aplicativo iraniano para diagnóstico e registro de infecções de sua loja com a justificativa de que “contas de desenvolvedores do Irã não são permitidas na Google Play”. Esse aplicativo poderia reduzir a carga dos hospitais iranianos e facilitar o isolamento da população, mas a imposição de sanções pelas grandes empresas capitalistas como a Google tornou isso impossível.

ONGs ocidentais também têm reforçado essas sanções imperialistas. A United Against Nuclear Iran, uma organização com relações estreitas com o governo Trump e que alega ter “um longo histórico de expressar apoio e solidariedade ao povo iraniano”, está na verdade conduzindo uma campanha para impedir empresas farmacêuticas de exportarem medicamentos sob uma “exceção humanitária”.

Oferecendo um pequeno curativo

Descaradamente, o governo americano tem retoricamente fornecido ajuda humanitária ao Irã – como se ofertas simbólicas pudessem compensar os efeitos devastadores de suas sanções ilegais! Como afirmou um cientista político iraniano, “o governo dos EUA quer ter crédito por pequenos gestos humanitários, enquanto continua atacando o Irã com sanções que restrigem o apoio externo ao país. É como esfaquear alguém e oferecer um pequeno curativo”.

A propagação da pandemia global está expondo o que realmente são as sanções: um ato de guerra desenhado para brutalizar os trabalhadores com objetivo de derrubar governos que se recusam a se submeter à hegemonia ocidental. Esse também foi o caso em 1973 quando o governo dos EUA utilizou de sanções para (nas palavras de Richard Nixon) “fazer a economia berrar” no Chile antes de lançarem um sangrento golpe de estado contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Foi o caso em 2003 quando o governo estadunidense devastou a economia iraquiana com mais de uma década de sanções que mataram mais de 1 milhões de iraquianos, a maioria crianças, devido à falta de acesso a alimentos, remédios e saneamento básico. E esse também é o caso do Irã, onde sanções brutais estão impossibilitando o sistema de saúde do Irã de combater a pandemia de Covid-19 ao custo de centenas e até milhares de mortes.

O imperialismo atinge seu lar

Assim como o Covid-19 está expondo a brutalidade das sanções estadunidenses contra o Irã, também está desmascarando as falhas do sistema capitalista até mesmo dentro dos Estados Unidos. O sistema econômico voltado ao lucro nos EUA deixa os trabalhadores vulneráveis às doenças contagiosas. São incentivado a ficarem em casa caso tenham sintomas, para reduzir o risco de contágio, mas isso é impossível para maioria, já que 40% dos trabalhadores estão à um salário não-pago da pobreza e 7 em cada 10 trabalhadores com baixos salários (42% da população dos EUA) não possuem auxílio-doença. A situação é ainda pior quando precisam de atendimento médico já que todo ano 530.00 famílias registram falência devido a contas médicas impagáveis.

Essa precariedade econômica extrema é um sintoma da doença capitalista. Os políticos ricos e os CEOs que incentivam as eternas guerras e impõem sanções econômicas contra países como o Irã são os mesmos que negam o acesso dos trabalhadores estadunidenses a um sistema de saúde e auxílios trabalhistas. Um sistema de saúde universal beneficiaria a todos e possibilitaria um combate efetivo ao Covid-19, mas os capitalistas que controlam ambos partidos Democrata e Republicano criaram um sistema de saúde dominado pelos planos de saúde privados, a indústria farmacêutica e hospitais que buscam o lucro acima de tudo.

A crise do coronavírus que se espalha pelo Irã e também pelos Estados Unidos está sendo exacerbada pela ganância dos capitalistas estadunidenses que buscam o lucro através da exploração da classe trabalhadora interna e estrangeira. Se o capitalismo é a doença, o socialismo é a cura. Apenas quando os trabalhadores, pobres e oprimidos (a imensa maioria da sociedade) estiverem com o total controle das esferas política e econômica poderemos acabar com essa exploração desumana.

Uma resposta socialista à pandemia que coloca o povo acima do lucro pode ser vista no programa emergêncial produzido pelo Party for Socialism and Liberation e na campanha presidencial de La Riva e Peltier: pagamento integral e benefícios para todos que não podem trabalhar durante a crise, uma moratória às dívidas e aluguéis, moradia para todos os 500.000 sem-teto através dos 17 milhões de imóveis vazios no país e muito mais.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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