África

O tabuleiro africano: Japão

Por Laura Revenga, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine

O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe (centro) diz que seu país fará todo o possível para incentivar o investimento japonês em África. Via EPA-EFE.
O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe (centro) diz que seu país fará todo o possível para incentivar o investimento japonês em África. Via EPA-EFE.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Nos últimos anos, a emergência de novos atores na Competição entre Grandes Potências (GPC, em inglês), sobretudo da China, tem feito com que o Japão tome medidas para manter sua influência. Em meio à estagnação de sua economia e o desastre nuclear de Fukushima em 2011, o Japão vê a África como uma solução para satisfazer sua constante demanda de recursos energéticos e aliados para seguir exercendo uma posição relevante na política internacional. Os vínculos entre o país nipônico e a África datam do início do século XX. Com maior precisão, em 1922 o Japão estabeleceu relações bilaterais com o Egito, ao reconhecer sua independência1. Esta relação se viu enfraquecida até o final do século XX. No entanto, em 1961 o Ministério de Assuntos Exteriores japonês estabeleceu uma divisão africana e em 1974 e 1979 o ex-ministro da pasta, Toshio Shimura realizou as primeiras visitas de um alto mandatário japonês ao continente africano2. Na votação da ONU de 1978, o Japão foi rejeitado como membro não-permanente do Conselho de Segurança por não obter os votos necessários. Isso se deveu em parte à influência do número de estados independentes da África subsaariana3. Em 1993, após o fim da Guerra Fria, o Japão foi o primeiro estado que estabeleceu uma conferência de alto-nível entre mandatários africanos e potenciais sócios desenvolvidos4. Com a chegada ao poder de Shinzo Abe em 2012, as relações entre Japão e África têm se intensificado, com um ambicioso programa de investimentos e comércio.

Comércio de África com o Japão e China (via: japantimes.co.jp)
Comércio de África com o Japão e China (via: japantimes.co.jp)

A estratégia do país nipônico está de acordo com sua forma de conceber as relações internacionais, focada no soft power. Os estados africanos enfrentam uma população em crescimento e uma carência de infraestruturas para desenvolverem uma economia competitiva. O Japão tem aproveitado seus investimentos de ajuda ao desenvolvimento (ODA, em inglês) e crescimento de qualidade5, colocando em marcha projetos de naturezas diversas ao redor do continente africano. Por exemplo, em 2018, a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA, em inglês), firmou um acordo de empréstimo com o Fundo Africano de Desenvolvimento (ADF, em inglês) de aproximadamente US$ 700,9 milhões para o combate à pobreza nos países menos desenvolvidos de África6. Essa estratégia não é positiva apenas para o desenvolvimento do continente, mas também para os próprios interesses japoneses. No entanto, esse movimento pode ser ofuscado pela intensificação de sua competição com a China7 na região. É importante destacar que o governo japonês tem se dedicado à ODA, especialmente no desenvolvimento de técnicas no âmbito rural, recursos hídricos, educação e saúde durante décadas8 no continente. Esta ajuda governamental permite que o Japão possa prolongar sua influência sem relutâncias por parte do povo africano.

O restante dos atores estatais em África, como a República Popular da China, também realizam investimentos em diversos âmbitos como: infraestrutura, comércio, etc. Porém, o Japão possui uma vantagem frente a outras potências como a China, que reside no fato de que a qualidade dos produtos e projetos japoneses é superior aos chineses. Por exemplo, no âmbito da eletrônica, apesar do baixo preço dos produtos chineses, a eletrônica japonesa é mais eficiente e durável. Um exemplo é o projeto de infraestrutura no Quênia, onde o projeto japonês não só se adequava melhor às necessidades locais, mas também proporcionou empregos aos trabalhadores locais, investindo também na área de construção civil local9.

A diplomacia e a colaboração também tem sido outro ponto vantajoso para os interesses japoneses. Shinzo Abe, em 2014, realizou três visitas de alto nível à Etiópia, Moçambique a Costa do Marfim10, para fortalecer as relações bilaterais. Ao mesmo tempo, outros altos cargos do governo japonês têm mantido viagens para o continente em diversas área. Dessa forma, o Japão tem se aproximado de uma variedade de países africanos através de projetos com o Grupo Africano do Banco de Desenvolvimento (AfDB, em inglês), com a União Africana e pontualmente, em reuniões de âmbito econômico com a Liga Árabe11.

Para minimizar a crescente influência chinesa, o Japão, juntamente à Índia em 2016 cristalizaram a idéia do Corredor de Crescimento África-Ásia (AAGC, em inglês)12. Este projeto focará em quatro áreas: Projetos de Cooperação para o Desenvolvimento, Infraestrutura de Qualidade e Conectividade Institucional, Melhora das Habilidades e Associação de Pessoas à Pessoas. A agricultura, saúde, tecnologia e o controle de desastres naturais tem sido identificadas como as principais áreas de cooperação para o desenvolvimento. O corredor facilitará maiores intercâmbios entre os países participantes13. Em relação à infraestrutura, Tóquio tem ajudado na reabilitação de rodovias em Marrocos, Camarões, Gana, Tanzânia, Moçambique, Madagascar e Zâmbia14, além de linhas ferroviárias em Malaui e Quênia. Estes investimentos tem focado na construção do porte de Nacala em Moçambique e um novo terminal de containers no porto de Mombasa no Quênia15.

As empresas japonesas têm se transferido para África atraídas por novos mercados para suas exportações, negócios e para obtenção de recursos naturais. Enquanto as exportações do Japão para a África estão se diversificando, ainda seguem orientados para o mercado automotivo. Por outro lado, o petróleo, gás e metais representam o grosso das exportações para o Japão16. O país nipônico precisa da diversificação de suas rotas energéticas estratégicas para satisfazer sua demanda enegética interna. Ao mesmo tempo, o Japão ratificou o Acordo de Paris em 2015 e, por exemplo, a empresa Koyo Corporation anunciou que está buscando investir em plantas de energia solar na Tanzânia e no Quênia com a Kitui Country para o desenvolvimento de energia solar no país17.

Investimentos seletos e interesses japoneses no setor público e privado em África (via: blacktokyo.com)
Investimentos seletos e interesses japoneses no setor público e privado em África (via: blacktokyo.com)

O Japão também não está para trás no campo militar. Devido às limitações do artigo 9 da Constituição de 194618, Tóquio focou seus esforços nas regiões costeiras. Por exemplo, participou em 2009 da operação contra a pirataria no Golfo de Adem19. Da mesma forma, em 2019, a República do Jibuti foi o país escolhido por Tóquio para estabelecer uma base militar fora de seu território. Com ela, o Japão se torna outro estado estrangeiro com base no país, juntamente com a França, China, Itália, Estados Unidos e Arábia Saudita. Apesar da queda da pirataria na região – mais de 160 ataques piratas foram registrados na Somália em 2011 e apenas 2 em 201820 – o governo nipônico mostrou seu interesse em expandir sua base militar no país. Isso teve como objetivo, segundo analistas, de ter maior poder nas operações internacionais de segurança e de paz e se contrapor a China21. Há de se destacar que a luta contra o terrorismo é outra prioridade estratégia tanto para os estados africanos quanto para Tóquio. Por exemplo, Japão e França tem estreitado uma associação nesse aspecto22.

O Japão está se envolvendo cada vez mais em missões de paz23. É por isso que Tóquio está dedicando fundos e esforços para promover a capacitação e o desenvolvimento de técnicas nos países africanos, como na República Democrática do Congo e no Mali24. As Forças de Autodefesa do Japão têm operado no Quênia e Uganda para o apoio das tropas locais25, e desde 2012 até atualmente no Sudão do Sul26.

Membros da Forças de Autodefesa do Japão chegam ao aeroporto de Juba, no Sudão do Sul em 2016 (via: english.chosun.com)
Membros da Forças de Autodefesa do Japão chegam ao aeroporto de Juba, no Sudão do Sul em 2016 (via: english.chosun.com)

A sexta reunião da Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano (TICAD, em inglês), celebrada em 2016, contou com delegações de todos os estados africanos e japonês e mais de 6.000 participantes27. Este foi o maior conclave diplomático já celebrado até então e, pela primeira vez, realizado na África. As edições anteriores, celebradas em 1993, 1998, 2003, 2008 e 2013 foram bem mais discretas. Com a Declaração de Nairobi em 2016, foi criado um plano estratégico de 3 anos entre Japão e África, onde se aborda a importância da infraestrutura de qualidade, o setor privado e o desenvolvimento de técnicas na transformação econômica estrutural do continente. Da mesma forma, a necessidade de abordar a mudança climática, a perda de recursos naturais, a desertificação, entre outras coisas para garantir a estabilidade social em África28.

O crescimento de potências emergentes, sobretudo da China, tem feito com que certas regiões esquecidas como a África voltem a ter relevância para o Japão. Esses novos atores têm colocado um fim nas antigas práticas consistentes em vantagens efetivas das potências frente aos estados africanos. Igualmente, a inflência de Tóquio em África tem crescido a um ritmo constante em diversas esferas, desde a infraestrutura, passando pelos recursos energéticos, entre outros. À medida que aumenta o compromisso do Japão com os países africanos, Tóquio terá que manter um equilíbro e presença hábeis no continente. No entanto, os investimentos japoneses em África seguem sendo discretos em comparação com à China. Por exemplo, em 2015, o comércio total do Japão com a África foi de US$ 24 bilhões, enquanto que o sino-africano foi de US$ 179 bilhões29. O Japão tem o potencial de estebelecer uma relação com as nações africanas baseada no benefício mútuo e no desenvolvimento da região. Certas potências, como a França e os Estados Unidos correm o risco de perderem seus aliados em África se não se adaptarem às novas dinâmicas dos novos atores na região30.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://www.mofa.go.jp/region/africa/egypt/data.html

2  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/antil_japan_policy_2017.pdf

3  http://isdp.eu/content/uploads/publications/2010_edstrom_japan-and-the-ticad.pdf

4  Ibid.

5  https://www.japan.go.jp/japaninafrica/

6  https://www.afdb.org/en/news-and-events/japan-provides-us-700-million-to-african-development-fund-17837

7  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2016/08/31/rising-sino-japanese-competition-in-africa/

8  Ibid.

9  Ibid.

10  https://www.bbc.com/news/world-africa-25668503

11  https://www.meti.go.jp/english/press/2016/0318_01.html

12  https://idsa.in/idsacomments/indias-new-initiative-in-africa-asia-africa-growth-corridor_rberi_130617

13  Ibid.

14  https://worldview.stratfor.com/article/japan-increases-its-investments-africa

15  http://www.theworldfolio.com/news/japan-looks-to-grow-its-presence-across-africa/4264/

16  https://worldview.stratfor.com/article/japan-increases-its-investments-africa

17  http://www.theworldfolio.com/news/japan-looks-to-grow-its-presence-across-africa/4264/

18  https://www.constituteproject.org/constitution/Japan_1946.pdf?lang=en

19  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/pajon_japan_security_policy_africa_2017.pdf

20  https://www.statista.com/statistics/250867/number-of-actual-and-attempted-piracy-attacks-in-somalia/

21  https://www.dw.com/en/japan-to-expand-djibouti-base-despite-decline-in-piracy/a-46356825-0

22  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/pajon_france_japan_in_africa_2017.pdf

23  https://www.mofa.go.jp/policy/un/pko/pamph2005.html

24  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/pajon_france_japan_in_africa_2017.pdf

25  https://asia.nikkei.com/Politics/Japan-expands-peacekeeping-support-in-Africa-and-ASEAN

26  https://www.nippon.com/en/currents/d00275/

27  https://sdg.iisd.org/news/ticad-vi-adopts-declaration-on-structural-transformation-shared-prosperity/

28  Ibid.

29  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2016/08/31/rising-sino-japanese-competition-in-africa/

30  https://www.descifrandolaguerra.es/el-tablero-africano-iii-la-republica-de-la-india/ (tradução em https://novamargem.com.br/2020/03/30/o-tabuleiro-africano-a-republica-da-india/)

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