EUA

Desemprego nos EUA irá passar dos 40% ao final de abril?

Por Stephen Lendman, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine

Um pedestre passa por uma placa de "fechado" pregada na porta de um restaurante em São Francisco. Foto por Justin Sullivan.
Um pedestre passa por uma placa de “fechado” pregada na porta de um restaurante em São Francisco. Foto por Justin Sullivan.

Os números oficiais da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos EUA (BLS, em inglês) são manipulados desde a década neoliberal de 1990 para esconder o estado abismal do mercado de trabalho estadunidense. O baixo desemprego do novo milênio nos Estados Unidos é um mito.

Baseado em como o desemprego era calculado na década de 1980, a taxa real de desemprego já ultrapassava os 20% antes da dupla crise econômica e de saúde. O número oficial pré-crise da BLS, que apontava para menos de 4%, é uma fraude patrocinada pelo estado. As informações são corrompidas da seguinte forma:

Milhões de trabalhadores desalentados são excluídos dos relatórios mensais, tratados como não-pessoas, indivíduos que querem emprego, mas desistem após fracassem em conseguir – esse número irá com certeza disparar em breve. O chamado “modelo birth-death” do Departamento de Trabalho, que estima o número líquido de empregos não-registrados através do número de novas empresas menos aquelas que deixaram de operar, distorce as estatísticas para adicionar empregos que provavelmente não existem. A BLS assume que os trabalhadores de empresas fechadas estão empregados em outras. De 30.000 a 50.000 empregos são adicionados mensalmente, levando em conta novas empresas que não se sabe se existem de fato ou não. A secretaria admite distorções, dizendo que “a margem de erro para a variação mensal de empregados está na casa de 430.000”.

Em tempos normais, a taxa de desemprego estampada nas manchetes esconde o estado deplorável do mercado de trabalho estadunidense. Desde os anos 1990, o estado da economia americana é calamitosa para a classe trabalhadora, que sofre para sobreviver. A maioria dos novos empregos oferecem salários baixíssimos, poucos ou nenhum benefício e jornadas de meio-período. A maioria das famílias precisa de dois ou mais empregos para sobreviver.

Para milhões de trabalhadores, é uma luta de vida ou morte. Caso os seguros-desemprego acabem e não haja nenhum socorro do governo federal, milhões de americanos não terão renda para comer, pagar aluguel, hipotecas, contas médicas, e acessar outras essencialidades da vida.

Até a atual crise, a classe privilegiada dos EUA nunca esteve melhor. Mas ao longo desse milênio, os americanos comuns sofreram as condições de uma depressão prolongada – que agora, devido às circuntâncias, se aprofunda cada vez mais.

O economista John Willianms reformulou as informações do governo estadunidense, baseando-se em como eram calculadas nos anos 1980. Ele estimou que o desemprego nos Estados Unidos pode chegar a 43% em abril. No auge da crise de 1929, a taxa chegou a 25%. Ele acredita que uma nova Grande Depressão está se desdobrando em tempo real, e o distúrbio socioeconômico que está por vir está apenas começando. “Circunstâncias extraordinariamente instáveis continuam nos mercados globais”, afirma ele, acrescentando, “o caos econômico, financeiro e político provavelmente acabou de começar, apesar das diversas e gigantescas manipulações e intervenções sistêmicas”.

“O colapso paira sobre o PIB (dos EUA) do primeiro semestre”. As condições da população comum estadunidense estão desmoronando de forma inédita. Se a iminente depressão econômica dos EUA se parece com um pato, nada como um pato, grasna como um pato, ela provavelmente o é – o assim chamado “teste do pato”.

Nas últimas duas semanas, o número inédito de 10 milhões de trabalhadores estadunidenses se registraram para receber seguro-desemprego. O recorde anterior era de 695.000. As demissões continuam, e outros milhões de americanos ainda serão demitidos ou afastados pelos patrões. A Boeing, em dificuldade, ofereceu demissão voluntária para seus 161.000 empregados – a ex-gigante estadunidense que está à beira da falência caso não haja mais auxílios federais.

Até o final da atual crise, os americanos entenderão de forma mais clara a real situação do país do que qualquer livro ou especialista pode explicar. A conscientização da crise é mais vívida do que qualquer outra. Com a maioria dos estadunidenses já vivendo de salário em salário em tempos normais, a angústia, a miséria e o desespero que estão por vir podem ser inigualáveis.

O economista Mark Zandi estima que cerca de 15 milhões de hipotecas podem deixar de serem pagas se as atuais condições se estenderem ao longo do ano. Dezenas de milhões de americanos estão encurralados. Lojas de luxo de Chicago estão trancafiadas para evitar saques. Mercadorias foram escondidas das vitrines, agora protegidas por sistemas de segurança 24h. Seguranças guardam as portas de shoppings vazios, e suas lojas de luxo como Tiffany, Gucci, Dior, e Versace foram esvaziadas de mercadorias para protegê-las. A proteção policial aumentou.

Aproximadamente 300 milhões de americanos estão sob algum tipo de isolamento em 38 estados, em Porto Rico e no distrito federal – cerca de 90% da população do país, provavelmente se expandindo a todo território em breve. A ordem exclúi sair de casa para comprar comida, medicamentos, consultas médicas e essencialidades como o cuidado de idosos.

Com a maioria das pessoas reclusas em casa, fazendeiros podem ter dificuldades para encontrar trabalhadores para as plantações e colheitas. Cenário que também se aplica ao exterior, o que pode significar uma queda na produção de alimentos e um aumento de preços – a não ser que se institua um controle de preços como na Segunda Guerra Mundial, previnindo os desabastecimentos. Se esse for o cenário dos próximos meses, famílias pobres, e até mesmo de classe média, terão dificuldades de pagarem as contas. No pior caso teremos tempos difíceis nunca antes vistos.

Durante a Segunda Guerra, quando era um menino no jardim de infância, lembro de estar bem-alimentado e bem-vestido, sem nenhuma carência, exceto meu chiclete favorito, que foi quase que totalmente enviado aos soldados americanos. O caso atual é diferente, com boa parte da economia parando em um momento em que a maioria das famílias não possuem poupança e estão em endividamento recorde. Há a possibilidade de milhares de pequenas e médias empresas fecharem e não voltarem a abrir quando a tempestade passar.

Antes da atual crise, milhões de famílias estadunidenses já lidavam com a insegurança alimentar. A Feeding America se entitula como “a maior organização de combate a fome nos Estados Unidos, incluindo em casos de desastres e emergências nacionais”, e adiciona, “as pessoas mais vulneráveis em nossas comunidades precisam agora de nós como nunca antes”. A organização lançou um Fundo de Combate ao Covid-19, “uma arrecadação de fundos e alimentos para apoiar as pessoas em situação de fome e os bancos alimentares que às atendem”. Também estão trabalhando conjuntamente com escolas e agências governamentais para fornecer “merendas para as crianças que estão fora das escolas”. Ao lado de iniciativas semelhantes, a Feeding America enfrenta desafios sem precedentes no atual cenário.

Na década passada, cerca de 50 milhões de americanos passavam fome, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, e o número baixou para 37 milhões em 2018. O número real provavelmente é maior, e caso as atuais condições se estendam por todo ano ou até mais, ele pode dobrar ou triplicar.

A Feeding America explicou que “a insegurança alimentar não existe de forma isolada, já que as famílias pobres são afetadas por múltiplos problemas que se sobrepõem, como a falta de moradia, isolamento social, problemas de saúde, alto custos médicos, baixo salários” – e claro, o desemprego que já disparou e tende a aumentar.

Um comentário final

Após o crash de outubro de 1929, o prenúncio da Grande Depressão, Herbert Hoover disse, em março de 1930: “Já passamos pelo pior… nos próximos 60 dias, as coisas começarão a se normalizar”. Em seu livro entitulado Lords of Finance, Liaquat Ahamed escreveu: “Quando os fatos se negaram a obedecer as previsões de Hoover, ele começou a inventá-los”. As agências do governo foram pressionadas a divulgar dados falsos. Alguns funcionários se negaram e renunciaram, incluindo o chefe da BLS.

Julgando pelas suas ações e retórica, Trump é como o Herbert Hoover de hoje.

Semanas antes, quando alegava que o surto de Covid-19 iria diminuir, ele afirmou que “nós estamos indo substancialmente para baixo, e não para cima”. Com as infecções globais excedendo um milhão, os Estados Unidos são o país mais gravemente afetado com cerca de um quarto do total de casos. E largamente devido ao regime de indiferença de Trump às crescentes condições de crise no país – com os estados e comunidades locais largados à própria sorte. Quando montanhas de auxílios federais são necessários, são oferecidos valores limitados, especialmente para as regiões mais afetadas como Nova Iorque e sua cidade homônima, com cerca de 93.000 casos registrados. A cidade está em estado de emergência com seus hospitais sobrecarregados com pacientes infectados.

O Dr. Darien Sutton diz que “parece que não tem fim. Pessoas chegam, chegam e chegam, e não há espaço para colocá-las”. As equipes médicas estão exaustas com essa situação calamitosa, e como estão na linha de frente do tratamento, estão altamente vulneráveis à infecção. Quem cuidará dos doentes caso os médicos adoecerem? Um médico de Nova Iorque expressou o sentimento de muitos colegas: “É assustador. É realmente assustador”.

Ao invés de juntar todas as forças para ajudar os estados e cidades mais afetados, Donald “Hoover” Trump continua ignorando as crescentes demandas de todo o país, dizendo que a economia irá “voltar ao normal em um estalo, antes que todos percebam”. Ecoando o presidente, Steven Mnuchin fez comentários semelhantes.

Servindo aos interesses financeiros e privados, todos eles, outros funcionários do governo, e a maioria dos congressistas estão indiferentes em relação à saúde, bem-estar e os direitos fundamentais do povo.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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