Ásia

China lança a ‘Rota da Seda da Saúde’

Através da estrutura da Nova Rota da Seda, a China está fornecendo medicamentos e equipamentos médicos para boa parte do mundo, inclusive aos países europeus atingidos pelo vírus.

Por Pepe Escobar, via Asia Times, tradução de Eduardo Pessine

Trabalhadores da saúde chineses trabalham em um centro de eventos convertido em hospital na cidade de Wuhan, 17 de fevereiro de 2020. Via STR/AFP.
Trabalhadores da saúde chineses trabalham em um centro de eventos convertido em hospital na cidade de Wuhan, 17 de fevereiro de 2020. Via STR/AFP.

Através da estrutura da Nova Rota da Seda, a China está fornecendo medicamentos e equipamentos médicos para boa parte do mundo, inclusive aos países europeus atingidos pelo vírus.

Durante a ligação entre o presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conti em meados de março, antes da chegada de um avião de Shanghai à Milão repleto de auxílios médicos, o ‘prato principal’ foi o empenho chinês em desenvolver uma ‘Rota da Seda da Saúde’ (Jiankang Sichou Zhilu).

O que, na verdade, já fazia parte dos planos da Nova Rota da Seda (Belt and Road, em inglês) desde pelo menos 2017, no âmbito de uma melhor conectividade pan-eurasiática no setor da saúde. A pandemia apenas adiantou os prazos. A Rota da Seda da Saúde se estenderá paralelamente aos múltiplos eixos da Nova Rota da Seda e também de sua versão marítima.

Em uma clara demonstração de soft power, a China já ofereceu equipamentos e ajuda médica voltados ao Covid-19 para nada menos que 89 nações – e subindo.

A cobertura se estende pela África (especialmente a África do Sul, Namíbia e Quênia, com a Alibaba anunciando que irá enviar ajuda para todos os países africanos); América Latina (Brasil, Argentina, Venezuela e Peru); pelo arco que vai do Leste ao Sudoeste Asiático; e pela Europa.

Os principais beneficiados europeus incluem a Itália, França, Espanha, Bélgica, Países Baixos, Sérvia e Polônia. Mas a Itália é um caso especial. A maioria são doações. Uma parte são vendas – como as milhões de máscaras vendidas para a França (e para os Estados Unidos).

Há menos de um ano a Itália se tornou o primeiro país do G-7 a assinar um memorando de entendimento entrando formalmente na Nova Rota da Seda – para o desgosto de Washington e dos ‘atlanticistas’ de Bruxelas.

No começo desse ano, na Sicília, eu abordei esses meandros em detalhe com Enrico Fardella, professor de História na Peking University e um especialista nas relações China-Mediterrâneo.

A Itália recebe apoio de diversas frentes – não apenas do alto-nível da política mas também da Cruz Vermelha Chinesa, associações sino-italianas, empresas de logística e tecnologia chinesas e doações da Alibaba, Huawei, ZTE e Lenovo. Nesse momento a Itália já conta com três equipes médicas chinesas.

Tudo isso está dentro do big picture da Nova Roda da Seda, incluíndo investimentos em Génova e Trieste, dois portos muito importantes e futuros eixos da Belt and Road.

A ofensiva chinesa de soft power está cuidadosamente calibrada para compensar a atual paralisia das redes de produção globais. A China está agora fazendo ‘hora-extra’ para garantir suprimentos médicos para diversas partes do mundo – sempre com a Nova Rota da Seda em mente, uma aposta na ‘globalização 2.0’.

Isso significa a interconectividade de países que precisam urgentemente de desenvolvimento e infraestrutura em conjunto com bons sistemas e práticas de saúde.

Tudo isso prepara o terreno para, quando o Covid-19 já estiver sob controle e a economia chinesa já estiver totalmente recuperada, o reboot da Nova Rota da Seda: uma tendência histórica incontornável baseada em um novo modelo econômico que Pequim julga mais justo e compatível com os interesses do Sul Global.

A ‘mentira chinesa’

Uma ‘Rota da Seda da Saúde’ já está em funcionamento quando observamos a China, Rússia – e Cuba, com seu excelente sistema de saúde – enviando equipes médicas, virologistas e aviões com suprimentos à Itália, e a China enviando medicamentos, kits de testes e suprimentos ao Irã, cercado pelas sanções ilegais.

A China entendeu imediatamente o que estava em jogo quando viu o Covid-19 arrasar os hot points do mundialmente famoso Made in Italy. Com sua oferta de manufatura barata e capacitada, a China havia inicialmente atraído as principais empresas da moda da Itália para exportarem sua produção para território chinês, e principalmente para Wuhan.

A conexão – que existe há decadas – é uma via de mão dupla. Investidores chineses começaram a chegar no norte da Itália no começo da década de 1990. Compraram uma série de fábricas, às renovaram, criaram suas próprias marcas Made in Italy de ponta, e levaram milhares de costureiros chineses capacitados para trabalharem por lá.

Existem muitos vôos diretos de Wuhan para a Lombardia – para atender os cerca de 300.000 chineses que se mudaram permamentemente para a Itália para trabalharem nas fábricas chinesas de Made in Italy.

Não é a toa que o Doutor Giuseppe Remuzzi, diretor do Mario Negri Pharmacology Institute em Milão, se tornou um superstar na China. Em uma entrevista que viralizou, Remuzzi fala sobre descobertas explosivas após conversas com clínicos-gerais na Lombardia.

Diz o Dr. Remuzzi, aos 4m19s: “Sabe o que houve? Certos médicos familiares, os com melhores contatos na região, e os mais atentos, me disseram que estavam observando recentemente casos graves de pneumonia, que não haviam visto em anos anteriores. Estes casos de pneumonia não tinham relação com a pneumonia típica da gripe, eram pneomonias intersticiais, tiveram de fazer tomografias e radiografias [para diagnosticá-las], e isso aconteceu em outubro, novembro, dezembro. Então esse vírus vem circulando há um bom tempo.”

Isso de fato ocorreu em paralelo, ou até mesmo antes, dos primeiros casos de coronavírus em Wuhan na metade de novembro. Já está comprovado cienficamente que os tipos do vírus em Wuhan e na Lombardia são diferentes. Qual deles surgiu primeiro, e onde, continuam sendo questões de um debate incendiário.

Inevitavelmente a ‘Roda da Seda da Saúde’ teria de ser descartada pelos ‘atlanticistas’ como um plano de desinformação que visa aproveitar da pandemia para ‘desestabilizar’ e enfraquecer a Europa. Essa é a narrativa promovida pela EUvsDisinfo, uma ONG cuja equipe vive de atacar a Rússia e China.

A ‘Rota da Seda da Saúde’ não se trataria então, para a burocracia de Bruxelas, de salvar vidas; mas sim de ‘desestabilizar’ a União Européia e melhorar a imagem de Xi Jinping após as mentiras da China sobre a dimensão e gravidade do coronavírus. O que por coincidência é exatamente a mesma narrativa do governo Trump, da mídia corporativa estadunidense e da inteligência dos Estados Unidos.

E isso importa? Não para os 89 países que estão recebendo a muito bem-vinda ajuda e equipamentos. Os cães da demonização latem enquanto a caravana da “Rota da Seda da Saúde’ passa.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

1 comentário

  1. É como dizia Milton Santos, o geógrafo. A globalização das finanças é a idade de ferro da globalização. Porque virá outra, a globalização da cultura, do conhecimento propriamente dito, das grandes lutas e suas conquistas, o período popular da História como Santos gostava de dizer. Aí está a bandeira comunista, associada á sustentação sanitária de 89 países deste mundo de meu Deus! Mas, como? O comunismo não tinha acabado? O comunismo não é um fracasso? Os comunistas não são loucos assassinos empenhados na destruição e na morte? O comunismo, enfim, não é o mal na Terra? Decididamente, este mundo está mudando.

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