Europa

Covid-19 na Alemanha: explicando a baixa mortalidade

Por Thomas Klikauer, via Counterpunch, tradução de Eduardo Pessine

Centro médico de exames em Berlim, Alemanha. Via Getty Images.
Centro médico de exames em Berlim, Alemanha. Via Getty Images.

No dia 31 de março de 2020, o www.worldometers.info calculou o número de mortes no mundo por coronavírus em cerca de 38.000. Dentre países europeus comparáveis, a Itália (população de 60 milhões) já tem 11.600 mortes, a Espanha (pop. de 46,6 milhões) registrou 7.700, a França (pop. de 67 milhões) 3.000, o Reino Unido (pop. de 67 milhões) marcou 1.400 mortes, os Países Baixos (pop. de 17 milhões) 740, os Estados Unidos (pop. de 330 milhões) 3.000, e a Alemanha (pop. de 83 milhões) apenas 645 mortes. Em outras palavras, apesar da grande população da Alemanha, ela registrou um número surpreendentemente pequeno de mortes por Covid-19. Observando pelo número de mortes por milhão, a Itália já teve 192 e a Alemanha apenas 8.

Surpreendentemente, a Itália tem uma população 28% menor comparada à Alemanha mas uma taxa de mortalidade 1800% maior. Isso deixa muitos perplexos. O número de mortes por Covid-19 na Alemanha é muito baixo. A razão para isso ainda continua um mistério. Sem surpresas, os alemães começaram a debater os motivos que levaram a isso. É graças a idade dos afetados, o número de testes ou apenas sorte dos alemães?

A Itália já tem mais que o dobro de casos da Alemanha. “Para ser honesto, ainda sabemos pouco”, afirma Richard Pebody (OMS). “Essa taxa de mortalidade é misteriosa”, disse ele. Pebody também alertou sobre a comparação entre os países. A estrutura de saúde e as condições são diferentes em cada país. É como comparar maçãs e pêras. No entanto, existem algumas explicações, e todas contribuem de alguma forma e fazem com que os alemães observem a Itália e a Espanha.

A Itália e Espanha já estão em uma fase mais avançada da epidemia do que a Alemanha. Seus primeiros casos não foram detectados, ocorreram muito antes e o vírus provavelmente se espalhou indetectado na população desses países. Leva-se um tempo para que as complicações ocorram após a infecção. De forma, muitos pacientes passam por um tratamento intensivo por semanas antes da morte.

Além disso, em muitos países poucos testes estão sendo realizados e muitas vezes apenas a idade média daqueles que são testados é conhecida. Dentre os casos não registrados provavelmente existem muitos jovens que já pegaram o vírus mas não tiveram nenhum sintoma, ou sintomas leves. Dentre os registrados, a idade média na Itália é muito mais alta do que de outros países, incluindo a Alemanha. Enquanto a idade média dos casos na Alemanha é de 45 anos, na Itália ela é de 63. Por outro lado, de acordo com o Bloomberg’s Global Health Index, os italianos vivem uma vida muito mais saudável comparados aos alemães. E ao contrário da Itália, a Alemanha tem limitado seus testes post-mortem de Covid-19.

O Robert Koch Institute da Alemanha, por exemplo, levou em conta apenas a faixa etária acima de 60 anos para um estudo. E mesmo assim, a proporção alemã é bem mais baixa que a italiana. Apenas 19% dos comprovadamente infectados na Alemanha têm mais de 60 anos e mais da metade tem entre 35 e 59. Em relação à Itália, é importante ressaltar que nos referimos apenas aos casos comprovados.

A estrutura etária dos casos é diferente em ambos países. Outro mistério é o regime de testes em cada país. Se mais casos recentes fossem testados na Itália, a taxa de mortalidade provavelmente seria bem diferente. No entanto existe uma estratégia agressiva de testes na Alemanha, o que faz com que mais casos leves apareçam dentre os registrados.

A qualidade do sistema de saúde

Quanto mais preparados são os hospitais, mais vidas serão salvas. Quando os hospitais são sobrecarregados pelo número de pacientes, se torna uma questão de como o tratamento pode ser garantido e se os médicos podem responder à quaisquer mudanças nas condições dos pacientes nas UTIs. Três fatores são cruciais: o número de leitos de UTI, equipamento de proteção suficiente e equipes bem treinadas.

A Itália possuia 5.000 leitos de UTI antes da crise. Mais foram criadas desde então. O Reino Unido possuia 4.100 leitos. Na Alemanha, existem cerca de 28.000, e número será dobrado no futuro próximo, além dos hospitais militares que tiveram suas portas abertas à população alemã. Em geral, os especialistas concordam que testagem rigorosa, isolamento dos infectados, e quarentena para aqueles que tiveram contato com os infectados estão evitando a expansão da epidemia. A taxa de mortalidade é cerca de 0,4% na Alemanha.

Também existe uma drástica redução no contato social em todo o país. Na primeira semana de março, cerca de duas semanas antes do contact ban ter sido declarado na Alemanha, cerca de três quartos da população só se encontrava com amigos e parentes privadamente. Até agora, a proporção daqueles que continuam a se encontrar já caiu para menos da metade da população. A outra metade segue o pedido de distanciamento social do governo e não se encontra com outras pessoas. O banimento de eventos públicos é apoiado por 97%; 95% acham que faz sentido que aparelhos públicos sejam fechados. Um quarto dos alemães concordam com uma paralisação do transporte público local e de longa distância.

Apenas um quarto dos alemães trabalham em casa

Em relação ao cotidiano do trabalho, a crise não tem causado grandes mudanças para a maioria da população. Cerca de metade da população vão para seu local de trabalho, um quarto passou a trabalhar em casa, e cerca de 10% pararam de trabalhar e continuam recebendo seus salários.

A grande maioria dos infectados na Alemanha têm menos de 60 anos. Isso se deve em parte ao grande número de testes feitos no país e pelo bom equipamento para tratar os pacientes em estado grave. No entanto, especialistas alertam que a taxa de mortalidade irá continuar aumentando ainda que o número de mortes seja um reflexo do passado.

Na segunda-feira (23 de março), mais de 26.000 alemães foram infectados pelo Covid-19. A Alemanha e a Itália possuem uma composição etária semelhante, com cerca de um quinto da população acima de 65 anos. Mas a Alemanha respodeu rapidamente ao surto do vírus. Também vêm testando pessoas com sintomas leves caso tiveram contato com uma pessoa infectada ou caso façam parte do grupo de risco. Muitos jovens italianos foram ou estão infectados sem nenhum registro. Isso também explica a taxa de mortalidade supostamente mais alta do vírus no país. Na Alemanha, o maior número de mortes foi registrado nos estados mais afetados da Bavaria, Baden-Württemberg, e Rhine-Westphalia do Norte. Alguns casos já possuiam doenças crônicas antes de serem afetados pelo vírus. Alguns desses infectados moravam em asilos ou clínicas de repouso.

Na Alemanha, presume-se que o aumento da temperatura que ocorre durante os meses da primavera e verão terão pouco impacto na propagação do vírus. No entanto, vírus epidêmicos como o influenza são sensíveis à luz ultravioleta e baixa humidade. Além disso, boa parte da população terá criado imunidade aos vírus durante os meses de inverno. Esses fatores somados contribuem para os os vírus influenza não se propaguem tanto em climas mais quentes.

O governo da Alemanha busca reduzir a velocidade de expansão do vírus, mas não necessariamente impedí-la. Esse cenário visa aliviar o sistema de saúde e proteger os pacientes em risco. Para frear o vírus, pesquisadores vêm combinando uma série de medidas em seus cálculos: pessoas sintomáticas devem ser isoladas, membros da casa devem entrar em quarentena. Ademais, o distanciamento social deve ser mantido por pessoas acima dos 70 anos de idade.

O país acredita que se a pandemia for suprimida, o número de infectados será mantido baixo no longo prazo. Isso no entanto só irá funcionar caso toda a população se isole, independente dos resultados para a economias e para a vida social das pessoas. Se a propagação do Covid-19 for freada, cientistas esperam um número de mortes 50% menor, mas ainda assim, a epidemia irá matar centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo.

Para a epidemia ser derrotada através de medidas de isolamento para toda a população, essas medidas terão de ser mantidas por pelo menos 18 meses. Afinal, se as medidas forem relaxadas sem a disponibilidade de uma vacina, o número de infectados irá rapidamente aumentar novamente devido a falta de imunidade da população.

Caso a pandemia seja contida, a necessidade de tratamento intensivo será reduzida em dois terços. Se os países aderirem a medidas ainda mais drásticas, os hospitais poderão tratar os pacientes com maior facilidade. Isso exigiria o isolamento de pessoas sintomáticas enquanto escolas e universidades fiquem fechadas por cinco meses. Além disso, todas as pessoas teriam de limitar seus contatos sociais em 75%. Esses cáculos foram feitos sem considerar o custo econômico que a sociedade, os negócios e o capitalismo como um todo teriam de pagar.

O coronavírus sobrevive cerca de 24 horas, e de dois à três dias em plásticos e metais. No entanto, a dose do vírus é significativamente reduzida ao longo desses períodos. De acordo com o Ministro da Saúde da Alemanha, uma infecção por toque é possível. Mas no geral, o coronavírus humano não é estável em superfícies secas, e até agora, não houveram casos na Alemanha de pessoas que foram infectadas através de contato com objetos contaminados.

Quase todas as pessoas infectadas tiveram alguns dias de perda de paladar. No entanto, a perda de paladar é um sintoma comum em infecções respiratórias. Cerca de 91% dos infectados apresentaram apenas sintomas leves e moderados como tosse seca e febre. Além disso, 30% tiveram diarréia, que parece ser mais comum do que anteriormente imaginado. Ao mesmo tempo, o Robert Koch Institute da Alemanha enfraqueceu as esperanças de uma vacina tão cedo contra o vírus, e considera realista que teremos uma vacina não antes da primavera de 2021 (entre março e julho). O governo do país afirmou que fará tudo ao seu alcance, mas os períodos de testes não podem ser acelerados. Afinal, as vacinas necessitam acima de tudo, serem seguras.

Nos últimos dias, a Alemanha registrou aproximadamente 40.000 infectados. Em termos matemáticos, o problema central é a letalidade – o termo técnico para a taxa de mortalidade, cerca de 0,4% no país. Parte da baixa letalidade dos alemães é devido aos seus métodos confiáveis de avaliarem e registrarem as mortes por coronavírus. Além disso, devemos levar em conta a duração do surto, já que doenças e mortes não ocorrem ao mesmo tempo, sem contar os muitos casos desconhecidos quando se trata de infecções.

Na Alemanha, o número de casos desconhecidos é provavelmente menor do que em muitos outros países. O Robert Koch Institute da Alemanha afirma regularmente que muitas pessoas são testadas comparativamente no país. Muitas pessoas com sintomas leves ou assintomáticas também são registradas. Mas para além das distorções estatísticas, existem outras explicações relacionadas com outras diferenças, o que inclui a idade dos doentes. Na Alemanha o SARS-Cov-2 afetou pessoas mais jovens durante a epidemia do SARS no início dos anos 2000, enquanto na Itália e Espanha os mais idosos tiveram uma taxa maior de infecção.

Fumar também parece ser um fator. Pulmões danificados pelo uso de cigarros pode favorecer manifestações mais severas do vírus. Isso pode explicar o porque homens, grupo com maior prevalência de tabagismo, são mais infectados e morrem mais do que as mulheres. As diferenças entre a Itália e Alemanha não podem, no entanto, serem explicadas com base em generalizações. O uso de tabaco em ambos países é basicamente o mesmo.

Também se discute o impacto da poluição do ar. No norte da Itália, a concentração de partículas é consideravelmente maior, e podem exacerbar doenças respiratórias crônicas, tornando mais difícil resistir à pneumonia.

Por fim, três questões centrais fizeram a diferença na Alemanha em comparação com a Itália. Primeiro, o governo italiano esperou demais para conter a propagação do vírus. A detecção precoce e ação rápida pode eficazmente conter o aumento do contágio. Esse é um erro que a Alemanha evitou, enquanto outros países continuam a cometê-lo. Ao afirmar que o coronavírus é “apenas uma gripezinha” e incentivar a inação por seis semanas, Donald Trump contribuiu para a propagação do vírus nos Estados Unidos. Da mesma forma, seu colega de direita Boris Johnson inicialmente flertou com a idéia ultrapassada de “imunização de manada”. Aderindo à ideologia nefasta do darwinismo social, a imunização de manada irá matar os fracos e idosos até a que imunidade se estabeleça. É improvável de matar membros da elite como o próprio Boris Johnson, que recentemente passeava por hospitais trocando apertos de mãos para mostrar que o vírus não é perigoso. A hipocrisia dos líderes populistas de direita para com seus próprios eleitores é surpreendente.

Segundo, por décadas as empresas de moda italianas importaram trabalhadores precarizados da China para fabricarem roupas. Alguns desses trabalhadores importaram o vírus para o norte da Itália. Não há nada de errado com trabalhadores chineses. O que é errado, no entanto, é a propaganda da direita para proteção das fronteiras italianas de pessoas que chegam em barcos precários, enquanto ao mesmo tempo permitem que o capital opere ambientes de trabalho precários sem padrões de higiene, salários baixíssimos e condições desumanas. Atualmente, esses trabalhadores juntamente com os idosos italianos têm de pagar um preço alto pelo glamour e os lucros da indústria da moda italiana.

Por fim, em terceiro, existe uma diferença entre a capacidade e a qualidade do sistema de saúde. Ao contrário de Berlusconi e seu grupo, os conservadores alemães – de Bismarck à Angela Merkel – têm favorecido um estado forte em detrimento do livre mercado neoliberal. O neoliberalism tem destruído o sistema de saúde de todos os países em que passou. Os Estados Unidos e o Reino Unido são grandes exemplos. Um sistema insuficiente também será decisivo em países mais pobres. O que temos certeza, é que apesar de seu bom sistema de saúde, a Alemanha não está imune de acontecimentos mais dramáticos. Afinal, estamos ainda no início da epidemia.

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