Oriente Próximo

Iraque: à sombra do mártir

Os Estados Unidos estão próximos de iniciar uma segunda retirada humilhante de seu mapa da guerra contra o terrorismo.

Por Guadi Calvo, via Resumen Medio Oriente, tradução de Eduardo Pessine

Iraquianos acompanham a procissão funeral do general Qassem Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis em Bagdá, Iraque, em 4 de janeiro de 2020. Foto por Ahmad al-Rubaye/AFP.
Iraquianos acompanham a procissão funeral do general Qassem Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis em Bagdá, Iraque, em 4 de janeiro de 2020. Foto por Ahmad al-Rubaye/AFP.

Após os assassinatos do general iraniano Qassem Soleimani, comandante da força de elite al-Quds da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, e do líder da al-Hashd Al-Sha’abi (Unidades de Mobilização Popular), Abu Mahdi al-Muhandis, em um ataque com drones no último dia 3 de janeiro (2020) no aeroporto de Bagdá, as forças norteamericanas instaladas no Iraque desde 2003 têm elevado seus níveis de alerta ao máximo.

Nunca saberemos qual foi a avaliação final, por parte do Pentágono, que levou-o a tomar a decisão de assassinar dois dos líderes mais carismáticos do mundo xiita, aprofundando assim o ódio, tão merecido, destes povos em relação aos Estados Unidos e seus aliados. As consequências dessa ação estão ainda, no entanto, em pleno desenrolar.

Os ataques às diversas bases norteamericanas no território iraquiano – cujos efeitos são praticamente um secredo de estado para Washington – somados à execução do suposto líder da operação do dia 3 de janeiro, o agente da CIA Mike D’Andrea, cabeça do departamento anti-iraniano, e as ações constantes contra as tropas da ocupação fizeram com que mantivessem o nível máximo de alerta.

O assassinato de Soleimani também fez com que o governo iraquiano ordenasse o fechamento temporário de seu espaço aéreo ao vôos militares estadunidenses e exigisse a retirada do país das tropas estrangeiras que seguem presentes desde 2003. Apesar da exigência de Bagdá, votada unanimemente pelo parlamento, a coalizão liderada pelos Estados Unidos reiniciou ao final de janeiro suas operações com as forças de segurança locais, ignorando o pedido de retirada dos 5200 militares norteamericanos que estão no território do país. Washington disse apenas que fechará algumas de suas bases menores. No entanto tenta-se maquiar o gesto como uma retirada tática, o que fica claro na declaração do porta-voz da coalizão: “Por conta dos êxitos que conseguiram as forças iraquianas de segurança em sua luta contra o Daesh, a coalizão está reposicionando as tropas de algumas de suas menores bases” (Al-Qaim, Qayyarah e K-1 próxima à cidade de Kirkuk). Ficou claro que estas bases voltarão ao controle das forças de segurança locais, ainda que Washington siga supervisionando o conflito. Finalmente a última camada de maquiagem foi dada com uma afirmação improvável: “O plano de realocação das tropas americanas havia sido decidido meses atrás e não tem relação com os ataques recentes”.

No dia 11 de janeiro (quarta-feira), um ataque contra o Camp al-Tayi ao norte de Bagdá provocou a morte de vários soldados estadunidenses e britânicos e outros 14 feridos, cinco deles em estado grave, dentre os quais se encontram um militar polonês e um mercenário iraquiano. Este último ataque foi o 23º registrado contra as unidades da coalizão desde outubro do ano passado (2019). Apenas alguns dias depois, no sábado (14/01), 33 mísseis foram lançados contra a mesma base em plena luz do dia, em um ataque reinvindicado por um grupo iraquiano chamado Osbat al-Saerin (Grupo dos Vingadores). O Camp al-Tayi abriga tropas da coalizão pertencentes à Força Tarefa Conjunta Combinada, encarregada da Operation Resolution, desenhada para a perseguição de elementos do Daesh. No lugar onde se encontrava o veículo de lançamento foram encontrados outros 24 mísseis em condições de uso; o dono do terreno e os membros das forças de segurança de um posto de controle próximo foram detidos para serem interrogados. Ao mesmo tempo, o comando norteamericano afirmou não ter detectado as bases de lançamento devido à neblina que afetou a zona nesses dias.

O ataque do dia 14 selou uma semana crítica para os militares norteamericanos no Iraque. Dois marines morreram em um dos conflitos mais intensos dos últimos meses. A ação aconteceu na região montanhosa de Makhmour no Curdistão iraquiano, contra um comando pertencente ao Daesh, que segundo Washington, teria perdido cerca de 20 homens.

Após os ataques ao Camp al-Tayi, a força aérea norteamericana realizou várias incursões contra bases da milícia al-Hashd al-Sha’abi (Unidades de Mobilização Popular), presumivelmente vinculada à Kata’ib Hezbollah (Brigadas do Hezbollah).

O comandante geral do Comando Central dos Estados Unidos, Kenneth F. McKenzie, explicou que os ataques “foram desenhados para destruir armas convencionais avançadas como foguetes de 107mm usados no ataque de quarta-feira (11/03), presumivelmente fornecidos pelo Irã, e que os Estados Unidos atuaram em defesa própria em resposta a um ataque direto e deliberado contra uma base iraquiana que abriga membros da coalização”. Em um comunicado Bagdá condenou os ataques aéreos, informando que ao menos cinco membros das forças de segurança iraquianas foram assassinados ou feridos.

Um futuro em alerta

A participação dos Estados Unidos no conflito gerado por eles próprios está sendo fortemente questionada devido à uma realidade similar ao Afeganistão e Síria, onde foram derrotados, ao contrário das ditas justificativas para sua retirada.

Se estima que no Iraque existem cerca de 40 grupos irregulares que operam fora do controle das autoridades de Bagdá e das forças da coalizão, o que poderia levar à um descalabro similar ao que ocorreu na Líbia, ainda que exista um fator organizador – os grupos xiitas vinculados ao Hezbollah que têm uma condução firme e um rumo predeterminado.

Em meio ao desastre que pode estar se aproximando o Iraque, são muito fortes as suspeitas que existem setores das forças de segurança que estaríam apoiando secretamente o Daesh, para que os Estados Unidos não possam retirar-se.

A aparição de novos grupos armados que operam no país tem se tornado mais constante. Um dos últimos é o autodenominado Liga dos Revolucionários, que no último dia 15 de março reinvindicou em vídeo os ataques conta o Camp al-Tayi, além de anunciar futuras ações contra os objetivos estadunidenses dentro do país e reinvindicar a memória do general Soleimani e do comandante al-Muhandis.

Imediatamente se acusou o Irã de financiar e apoiar a criação desses grupos, vinculando-os ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, em inglês), força que tem sido responsabilizada por parte do ocidente por uma grande quantidade de ataques em todo Oriente Médio, mas particularmente no Iraque, incluindo os sequestros de um soldado estadunidense em 2006 por parte da Kata’ib Ahl al e de cinco britânicos em 2007 por parte do grupo Asa’ib Ahl al-Haq (Resistência Xiita Islâmica), também conhecido como Red Khazali.

Os Estados Unidos estão próximos de iniciar uma segunda retirada humilhante de seu mapa da guerra contra o terrorismo, deixam os Talibãs a um passo do poder absoluto no Afeganistão e no caso do Iraque, começam a escapar à sombra de um fastasma que começa a assombrar o Oriente Médio.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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