América Latina

O mundo trata a pandemia, os EUA aumentam a pressão sobre a Venezuela

O procurador federal Geoffrey Berman afirmou gravemente que Maduro “utilizou deliberadamente a cocaína como arma”. Evidências? Absolutamente nenhuma.

De Vijay Prashad, Paola Estrada, Ana Maldonado e Zoe PC, via Notas – Periodismo Popular, tradução de Eduardo Pessine

O procurador-geral estadunidense, William Barr se retira após um pronunciamento no dia 13 de janeiro de 2020, sobre os resultados de uma investigação. Foto por Scott Applewhite/AP.
O procurador-geral estadunidense, William Barr se retira após um pronunciamento no dia 13 de janeiro de 2020, sobre os resultados de uma investigação. Foto por Scott Applewhite/AP.

Durante conferência de impresa, o Departamento de Justiça estadunidense acusou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e vários outros funcionários de seu governo de narcotráfico.

Washington ofereceu US$ 15 milhões pela captura do chefe de estado da Venezuela, Nicolás Maduro, e US$ 10 milhões por outros integrantes do governo. O procurador federal Geoffrey Berman afirmou gravemente que Maduro “utilizou deliberadamente a cocaína como arma”. Evidências? Absolutamente nenhuma.

Sanções

É surreal que os Estados Unidos, emplena pandemia global do Covid-19, escolham colocar seus esforços nesta acusação ridícula e sem provas contra Maduro e outros líderes do governo. Aproveitariam muito melhor o dinheiro que oferece como recompensa, por exemplo, no hospital sobrecarregado de Elmhurst na cidade de Nova Iorque.

Já existe pressão sobre a Casa Branca para que elimine as sanções não só contra a Venezuela mas também contra o Irã (como solicitou o New York Times no dia 25 de março).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já deixou claro que esse não é o momento para obstaculizar a capacidade dos países de obterem suprimentos importantes no combate à pandemia. O secretário geral da ONU, António Guterres, chamou por um cessar-fogo nos conflitos; se espera que em questão de dias se aprove uma declaração sobre as sanções. Desesperados, os Estados Unidos trataram de desviar as atenções do Covid-19 e as sanções para o narcoterrorismo.

Quando perguntado sobre as acusações aos funcionários venezuelanos, o procurador-geral dos Estados Unidos, William Barr, tratou de dizer que a culpa não é de Washington mas sim de Caracas. Afirmou, novamento sem nenhuma evidência, que a Venezuela está barrando a entrada de ajudas ao país.

Nada poderia estar mais distante da realidade, já que a Venezuela tem recebido suprimentos e equipes médicas da China, Cuba e Rússia, assim como da OMS. Inclusive, esta última já solicitou aos Estados Unidos para que revejam as sanções para permitir um maior fluxo de bens ao país, uma solicitação que foi rechaçada pela autoridade estadunidenses, da mesma forma que fizeram em relação ao Irã.

Quando a Venezuela recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) com uma solicitação de US$ 5 bilhões para compras relacionadas ao Covid-19, foi o governo dos Estados Unidos quem pressionou para que a solicitação fosse rejeitada.

O procurador Barr pode dar declarações que vão de encontro com todos esses fatos justamente porque todos os meios de comunicação presentes na dita conferência de impresa jamais o questionariam.

Mudança de regime

Em 1989, os Estados Unidos utilizaram a acusação de narcotráfico, especificamente o tráfico de cocaína, para atacar seu ex-agente, o presidente do Panamá, Manuel Noriega. Bastaram esta acusação, e uma denúncia na Flórida para invadirem o país, derrubarem Noriega, plantarem um fantoche de Washington na cidade de Panamá e jogarem o ex-presidente em uma prisão na Flórida.

A sombra de como os EUA operaram no Panamá paira sobre Caracas: lançarão uma força expedicionária baseada nesta nova acusação? Esta não é uma suposição teórica. Washington têm tentado desde ao menos janeiro de 2019 desestabilizar e derrubar o governo venezuelano. O que faz essa acusação é simplesmente dar uma nova cara para sua estratégia.

A recompensa pelas cabeças de Maduro e outros líderes mostra que o governo estadunidense essencialmente colocou um preço – ao estilo dos mafiosos – para esses venezuelanos. É um movimento muito perigoso. Basicamente, deram aos gangsters um sinal verde para tentarem um assassinato dentro da Venezuela.

A proibição de que Maduro viaje para fora de seu país é uma violação de uma série de convenções internacionais que promovem a diplomacia de guerra. No entanto, dada a forma ilegal que a Casa Branca tem formulado sua estratégia de mudança de regime contra a Venezuela, é pouco provável que alguém critique esta medida.

Horas antes do anúncio em Washington, começou a se espalhar que os Estados Unidos iriam colocar o governo da Venezuela na lista de “patrocinadores estatais do terrorismo”, a mais alta condenação para um governo. Mas se detiveram. E a desistência ocorreu por razões absurdas. Se acusassem o governo de Maduro de ser um “patrocinador estatal do terrorismo”, estaríam reconhecento que o governo de Maduro é de fato o governo da Venezuela. Desde o ano passado, uma das tentativas de desestabilização consiste em negar que seja o governo legítimo. Na verdade, negar que seja qualquer tipo de governo. Então, os Estados Unidos tiveram de se abster de fazer tal pronunciamento, para não contrariarem sua própria lógica.

Entretanto, o governo de Donald Trump não se atreveu a tomar medidas contra seus aliados nos principais países produtores e traficantes de drogas: Colômbia e Honduras. O ex-presidente colombiano e atual senador, Álvaro Uribe Vélez, está envolvido em mais de 270 casos judiciais na Colômbia com acusações que incluem escutas telefônicas ilegais, crime organizado, assassinatos e desaparecimentos. Uribe e os membros de sua família têm vínculos comprovados com o grupo paramilitar Metro Block de Antioquia, responsável por milhares de assassinatos de civis colombianos e profundamento envolvido com o narcotráfico. Uribe e seu protegido Iván Duque, presidente da Colômbia, têm uma estreita relação com o governo dos EUA, e têm sido a pedra angular de diversos planos para atacar a Venezuela.

Por sua vez, o atual presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, está envolvido no caso apresentado pelo tribunal federal de Nova Iorque contra seu irmão Antonio Hernández. Os procuradores alegaram que o mandatário havia recebido US$ 25.000 em subornos de narcotraficantes, que foram utilizados em sua campanha presidencial de 2013.

A declaração emitida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos se lê então como um thriller, e a falta de evidências a assemelha a uma ficção. Enumera nomes e acusações, faz constantes referências ao “narcotráfico” e afirma que o governo venezuelano quer “inundar” o território estadunidense com cocaína. É necessário um esforço sobre-humano de cegueira para acreditar nessas acusações delirantes, escandalosas e sem fundamento. Mas o problema é que o povo venezuelano deve às levar a sério, já que significa um aprofundamento da ofensiva por parte de Washington. O povo da Venezuela adverte que se trata de uma situação como a do Panamá, e com toda razão.

Por fim, os comentários do secretário geral da ONU, um chamado para um cessar-fogo de todos os conflitos em meio à pandemia global, deveria também se aplicar à guerra híbrida dos Estados Unidos contra a Venezuela. Esta guerra tem que parar agora. É tempo da cura e da compaixão, e não da masculinidade tóxica e da guerra.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: