EUA

Estados Unidos da América: um destruidor de nações

Por Daniel Kovalik, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine

Soldados estadunidenses marcham comunistas da Coréia do Norte por uma estrada de terra, em frente a um vilarejo em chamas. Via Hulton-Deutsch Collection/CORBIS
Soldados estadunidenses marcham comunistas da Coréia do Norte por uma estrada de terra, em frente a um vilarejo em chamas. Via Hulton-Deutsch Collection/CORBIS

“No rescaldo da invasão estadunidense no Iraque em 2003 ‒ uma invasão que muitos iraquianos acreditam ter deixado seu país na sua pior condição desde a invasão mongol de 1258 ‒ houveram muitas discussões na mídia sobre o objetivo do governo Bush de ‘construir uma nação’ naquele país. É claro, se um dia esse objetivo existiu, ele foi rapidamente abandonado, e ninguém mais ouve a expressão ‘construção de nações’ discutida como um objetivo da política externa dos EUA.”

A dura realidade é que os Estados Unidos não possuem nenhuma intenção de ajudarem a construir estados fortes no Oriente Médio ou em qualquer lugar. Ao contrário, como vemos repetidamente ‒ por exemplo, na Iugoslávia, Sudão, Líbia, Iêmen, Síria, Somália, Ucrânia ‒ o objetivo da política externa estadunidense, de forma declarada ou não, é cada vez mais a agressiva destruição e balcanização de estados independentes. É importante, no entanto, reconhecer que esse objetivo não é uma novidade.

O estudioso sobre Direitos Humanos sul-coreano Dong Choon Kim, escrevendo sobre a guerra dos EUA na Coréia (1950‒1953) ‒ uma guerra que segundo ele foi seguramente genocida ‒ explica que já naquele período, a construção de nações pelo povo do Terceiro Mundo era visto como um ato de subversão que deveria ser reprimido. Segundo ele, “o governo americano interpretou as aspirações para construção de nações independentes como ‘conspirações comunistas’, e dessa forma, assumiu a responsabilidade de assassinar pessoas inocentes, como no caso do incidente de My Lai no Vietnã”1.

Graças à guerra dos Estados Unidos na Coréia, o país até hoje se mantém dividido em dois, sem nenhuma perspectiva de unificação. Kim explica que a Guerra da Coréia

“foi a ponte que ligou os antigos massacres coloniais e os novos tipo de terrorismo de estado e massacres políticos ao longo da Guerra Fria […]. E os assassinatos em massa cometidos pelos soldados americanos na Guerra da Córeia marcaram o início das intervenções militares dos EUA no Terceiro Mundo que custaram quantidades descomunais de mortes de civis”.

Reconstrução de Pyongyang após a destruição.
Reconstrução de Pyongyang após a destruição.

De forma similar, o objetivo estadunidense no Vietnã foi a destruição de qualquer perspectiva de criação de um estado independente. Como escreveu Jean-Paul Sartre como parte do Tribunal Internacional de Crimes de Guerra presidido por ele e Bertrand Russel após a guerra, os Estados Unidos deram aos vietnamitas uma difícil escolha: aceitar a capitulação na qual o país seria rachado em dois, com uma parte controlada pelos americanos, ou serem sujeitos a aniquilação total2. Sartre escreveu que, mesmo no primeiro caso, “com a repartição em dois de um estado soberano […] a unidade nacional do ‘Vietnã’ não seria fisicamente eliminada, mas não mais existiria economicamente, politicamente ou culturalmente.”

É claro, no último caso, o Vietnã sofreria eliminação física; seria bombardeado “de volta à idade da pedra” como ameaçaram os americanos. Como sabemos, os vietnamitas não captularam, e assim sofreram uma quase total destruição de seu país pelas mãos dos Estados Unidos. Enquanto isso, por precaução, os EUA também bombardearam o Camboja e o Laos de volta à idade da pedra.

Para compreender o próposito por de trás de ações tão violentas e destrutivas, não precisamos olhar para além das próprias declarações políticas por parte dos Estados Unidos no pós-guerra, articuladas por George Kennan, que serviu como Diretor do Departamento de Estado de Planejamento de Políticas, em 1948:

George Kennan, via Economist.com
George Kennan, via Economist.com

“Nós devemos ter muito cuidado ao falar de exercer ‘liderança’ na Ásia. Estamos enganando a nós próprios e aos outros quando fingimos ter respostas para os problemas que agitam os povos asiáticos. Além disso, nós detemos 50% da riqueza mundial e apenas 6,3% de sua população. Essa disparidade é particularmente grande entre nós e o povo da Ásia. Nesse caso, não fugiremos de sermos alvo de inveja e ressentimento. Nossa tarefa real no tempos que virão será elaborar um padrão de relações que irá permitir que preservemos essa posição de disparidade sem detrimentos a nossa segurança nacional. Para isso nós teremos que deixar de lado todos devaneios e sentimentalismo; e nossa atenção terá de se concentrar em nossos objetivos nacionais em todos os lugares.

Não precisamos nos enganar de que podemos arcar com o luxo do autruísmo e da benevolência mundial… Frente à essa situação é preferível dispensar agora muitos dos conceitos que traçaram nosso pensamento acerca do Extremo Oriente. Nós devemos dispensar a aspiração de ‘sermos amados’ ou de sermos reconhecidos como o repositório de um austruísmo internacional superior. Nós devemos parar de nos colocarmos na posição de fraternidade e nos abstermos de oferecer conselhos ideológicos e morais. Devemos parar de falar de vagos ‒ e para o Extremo Oriente ‒ irreais objetivos como os direitos humanos, a melhora dos padrões de vida, a democratização. O dia irá chegar quando teremos que negociar diretamente em termos de poder. O quanto menos estivermos refreados for slogans ideológicos, o melhor”.

Enquanto seria impossível para os Estados Unidos continuarem a monopolizar metade da riqueza mundial após a Europa, o Japão, China e a União Soviética inevitavelmente se levantassem após a Segunda Guerra Mundial, os americanos fizeram um ótimo trabalho de controlar uma quantidade desproporcional e injustificável dos recursos globais.

Assim, atualmente, os Estados Unidos possuem cerca de 5% da população mundial, e consomem cerca de 25% de seus recursos. Um artigo na Scientific American, que cita Dave Tilford do Sierra Club, explica que

“com menos de 5% da população mundial, os EUA usam um terço do papel do mundo, um quarto do petróleo, 23% do carvão, 27% do alumínio, 19% do cobre… Nosso uso per capita de energia, metais, minerais, produtos florestais, peixes, grãos, carnes, e até mesmo água potável superam muito aqueles de pessoas vivendo no Terceiro Mundo”.3

A forma utilizada pelos Estados Unidos para atingir essa impressionante e moralmente condenável proeza tem sido o solapamento, muitas vezes fatal, da habilidade de estados independentes de existirem, defenderem a si próprios e de protegerem seus próprios recursos da pilhagem estrangeira. Por esse motivo os EUA se aliaram com as forças mais deploráveis para destruir estados independentes ao redor do globo.

Para citar alguns exemplos, desde 1996, os Estados Unidos apoiaram forças ruandesas e ugandesas na invasão da República Democrática do Congo (DRC, em inglês), deixando aquele país ingovernável e pilhando seus vastos recursos naturais. O fato de que cerca de 6 milhões de inocentes foram assassinados no processo não importa, e certamente para a mídia mainstream que raramente cita a DRC. Na Colômbia, os EUA apoiaram grupos paramilitares de direita por décadas para desestabilizar vastas regiões do país, e ao servir às multinacionais, especialmente às indústrias extrativistas, desalojaram cerca de 7 milhões de pessoas, a fim de explorar as reservas colombianas de petróleo, carvão e ouro. Da mesma forma, nada disso aparece na mídia mainstream.

No Oriente Médio, norte da África e no Afeganistão, os Estados Unidos têm se aliado com a Arábia Saudita e forças islâmicas radicais ‒ forças estas que o próprio país batizaram de “terroristas” ‒ para solapar e destruir estados seculares.

Desde os anos 1970, os americanos começaram a dar apoio aos mujahidin para atacar o estado secular e marxista do Afeganistão, buscando destruí-lo para enfraquecer o estado soviético ao, nas palavras de Zbigniew Brzezinski, “atrair os russos para a armadilha afegã […] e dar aos soviéticos sua guerra do Vietnã”. O Afeganistão provavelmente nunca irá se recuperar da devastação causada pelas decisões dos Estados Unidos e sua subsequente intervenção que já ultrapassou seu 15º aniversário. Como sabemos, a União Soviética também não se recuperou, e os americanos tentam fortemente impedir a Rússia pós-soviética de se tornar novamente um forte rival.

Por sua vez, na Líbia, os Estados Unidos se associaram com jihadistas em 2011, para derrubar e esmagar um estado que utilizava a renda do petróleo para garantir as melhores condições de vida de toda a África, enquanto apoiava lutas de independência ao redor do mundo. Dessa forma, a Líbia, que sob a liderança de Qaddafi também calhava de ser um dos maiores inimigos da Al-Qaeda no mundo, apresentou uma dupla ameaça aos interesses estadunidenses. A Líbia pós-guerra é agora um estado falido com quase nenhuma perspectiva de garantir novamente a riqueza do petróleo para seu povo, e ainda menos para outros povos do Terceiro Mundo. Missão cumprida!

Como aprendemos com Saymour Hersh já em 2007, os Estados Unidos também começaram a tentar enfraquecer o Irã e a Síria apoiando grupos sunitas extremistas para subverterem esses países4. Como explicou Hersh:

“Para enfraquecer o Irã, que é predominantemente xiita, o governo Bush decidiu reconfigurar suas prioridades no Oriente Médio. No Líbano, o governo tem cooperado com a Arábia Saudita, que é sunita, em operações clandestinas que buscam enfraquecer o Hezbollah, a organização xiita apoiada pelo Irã. Os Estados Unidos também têm participado de operações clandestinas visando o Irã e sua aliada, a Síria. Um subproduto dessas atividades tem sido a ampliação de grupos sunitas extremistas hostis à América e simpáticos à Al-Qaeda. Um aspecto contraditório da nova estratégia é que, no Iraque, a maioria das insurgências violentas contra as forças armadas estadunidenses têm vindo dos sunitas, e não dos xiitas.”

Os EUA continuam sua intervenção na Síria de forma a impedir o estado sírio de vencer os diversos grupos militantes que combate ‒ muitos deles assumidos como terroristas pelo próprio governo americano ‒ enquanto ataca ao mesmo tempo alguns dos grupos militantes visando que nenhum lado do conflito consiga vencer. Como sabemos, a CIA e o Pentágono apoiam até mesmo grupos que lutam entre si5! O resultado é um conflito perpétuo que ameaça deixar a Síria em ruínas e caos no futuro próximo.

Isso tudo pode parecer um plano de ação insano para ser levado a cabo pelos Estados Unidos, mas há um método na loucura. Os EUA parecem estar intencionalmente espalhando o caos por partes estratégicas do mundo; impedindo qualquer país independente de ser capaz de proteger seus recursos, especialmente o petróleo, da exploração ocidental. E esse objetivo vem sendo conquistado com grande sucesso, enquanto também garante o enriquecimento do imenso complexo industrial-militar.

José Martí um dia afirmou, “existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que amam e criam, e aquelas que odeiam e destroem”. Não há dúvida que os Estados Unidos se provaram do último tipo; sem dúvidas, a própria natureza da política externa americana é a destruição. Dito isso, é no mínimo tolo e ingênuo que pessoas minimamente politizadas, e especialmente os de esquerda, acreditem que os Estados Unidos agem em defesa dos direitos humanos, da democracia ou qualquer objetivo nobre com suas intervenções militares pelo mundo.

Existe apenas um objetivo adequado, então, para os bem-intencionados ‒ se opor a todas intervenções militares estadunidenses com toda a força.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://www.academia.edu/6417696/Forgotten_war_forgotten_massacres–the_Korean_War_1950-1953_as_licensed_mass_killings

2  http://raetowest.org/vietnam-war-crimes/russell-vietnam-war-crimes-tribunal-1967.html#v1217-Sartre-on-genocide

3  https://www.scientificamerican.com/article/american-consumption-habits/

4  http://www.newyorker.com/magazine/2007/03/05/the-redirection

5  http://www.latimes.com/world/middleeast/la-fg-cia-pentagon-isis-20160327-story.html

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