África

O tabuleiro africano: a República Popular da China

Por Andrea Chamorro, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine

O presidente chinês Xi Jinping (centro) fala ao lado dos presidentes sul-africano Cyril Ramaphosa (esquerda) e guinéu-equatoriano Teodoro Obiang Nguema Mbasogo (direita), durante o Fórum de Cooperação China-África, no Grande Salão Popular em Pequim, no dia 4 de setembro de 2018. Foto por Lintao Zhang/POOL/AFP.
O presidente chinês Xi Jinping (centro) fala ao lado dos presidentes sul-africano Cyril Ramaphosa (esquerda) e guinéu-equatoriano Teodoro Obiang Nguema Mbasogo (direita), durante o Fórum de Cooperação China-África, no Grande Salão Popular em Pequim, no dia 4 de setembro de 2018. Foto por Lintao Zhang/POOL/AFP.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Nos últimos anos temos testemunhado a entrada de um novo ator na Competição entre Grandes Potências (GPC, em inglês). Para sustentar um crescimento sem precedentes, a China necessita de recursos e aliados para consolidar sua posição na corrida pela hegemonia global, o que a tem levado se voltar ao continente africano. A relação entre a República Popular da China e África se remonta há vários séculos atrás com a Rota da Seda e os exploradores chineses nos territórios do Saara. Essa relação se viu interrompida até o final do século XX. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos, a União Soviética e as potências européias tiveram um papel protagonista no continente. Com o desaparecimento da potência soviética e a retração européia surgiu um terreno livre para que a potência asiática retomasse as relações, apoiando os países africanos em sua luta pela independência. As atuais relações entre China e África são recentes porém não menos relevantes, já que Pequim tem promovido um titânico projeto de investimentos e comércio que vem se desenvolvendo com extraordinária rapidez.

Construção chinesa na África do Sul (via Wanafrica).
Construção chinesa na África do Sul (via Wanafrica).

A estratégia do gigante asiático está de acordo com sua maneira de conceber as relações internacionais. Sua estratégia se baseia no soft powerpara garantir que os países orbitem em torno de seus interesses. Os países africanos possuem uma população em crescimento e infraestruturas insuficientes para desenvolver uma economia competitiva. Neste ponto, a China tem aproveitado seu capital para realizar grandes investimentos e comércio por todo o continente. Essas políticas produzem consequências positivas para o próprio país investidor, já que comercializar com nações também prósperas repercute diretamente em benefícios para os chineses. Os empréstimos e investimentos realizados por Pequim sempre se detêm a idéia de que sejam reciprocamente vantajosos: “ganha-ganha”. Essa estratégia também é aplicada pela Rússia ainda que não com um caráter tão marcado como a da China. Por outro lado, esses investimentos têm resultado em um enorme aumento de sua influência, ao ponto de países africanos terem adotado o yuan como sua moeda de reserva. A China enfatiza que os investimentos e cooperações se realizem em plena igualdade, sem condições políticas ou interferências nos assuntos nacionais. Isso faz com que a opção chinesa seja incrivelmente atrativa para os governos africanos, que cada vez mais contam com a potência asiática como sócia de investimentos. Existe, no entanto, uma grande diferença entre apoio ao desenvolvimento e investimentos. O primeiro é pontual, enquanto os investimentos em infraestrutura têm intenção de se perpetuarem ao longo do tempo. O governo chinês opta pelos investimentos que prolonguem sua influência no país.

Projetos de construção chineses no continente (via China Africa Research Initiative).
Projetos de construção chineses no continente (via China Africa Research Initiative).

Os demais atores da GPC também realizam investimentos em diversos âmbitos, no entanto, a China possui uma vantagem em relação à Rússia e os Estados Unidos. Essa carta na manga reside na capacidade de perdão de imensas quantidades de dívidas dos países africanos, em troca de controlarem aspectos estratégicos do país. Os Estados Unidos têm criticado a concessão de créditos à países que não possuem a solvência necessária, dado que isso levaria a uma redução de soberania através da dependência econômica. Xi Jinping respondeu às acusações americanas anunciando perdões de dívidas aos países que não tivessem condições de pagar os empréstimos.

A diplomacia e colaboração entre os estados têm sido outros pontos fortes da República Popular da China. O presidente chinês já realizou três viagens à África e 30 chefes de estado africanos já visitaram Pequim. A China considera a si mesma como um modelo para os demais países, e o presidente Xi Jinping já expressou seu desejo de que os investimentos em infraestrutura ajudem o continente a sair do subdesenvolvimento e tomar a rota da industrialização.

A Rota da Seda foi a rede comercial que permitiu o contato entre as civilizações asiática e africana. Ela foi mutuamente benéfica, já que a nobreza africana se vestia com os tecidos mais sofisticados enquanto os comerciantes chineses se enriqueciam. Esse projeto comercial foi abandonado por muito tempo, até 2013. A Belt and Road Initiative (BRI) tem revitalizado e melhorado esse conceito com o objetivo de criar uma rede de transporte que conecte todo o globo com a China. Com esse projeto pretendem aumentar seus laços comerciais e culturais, que ajudaram o país a se posicionar como primeira potência mundial. A iniciativa 21st Century Maritime Silk Road é parte da BRI e conecta por via marítima a China, África e Europa. Nos pontos de enclave se realizaram grandes investimentos em transporte e comunicação do próprio país com esses portos. Neste ano (2019) se inalguram dois enormes projetos ferroviários no Chife de África: uma linha que conecta a base de Yibuti com a Etiópia, o primeiro trem elétrico do continente, e uma segunda linha que conecta o ponto de Mombasa com a capital do país, Nairobi. Este projeto esteve perto de ser cancelado por complicações legais durante sua execução.

Rotas de comunicação. Via Descifrando la Guerra.
Rotas de comunicação. Via Descifrando la Guerra.

Empresas chinesas têm se movido para África atraídas por novos mercados para suas exportações e negócios, a obtenção de recursos naturais e mão de obra barata. Segundo cifras oficiais o continente abriga cerca de 100.000 empresas e 300.000 trabalhadores de origem chinesa. As exportações da China para África são muito diversificadas. No entanto, as exportações de África à China são compostas em 80% por hidrocarbonetos e minérios. O gigante asiático necessita que o fluxo de recursos estratégicos não pare, e para isso o governo de Pequim tem firmado diversos contratos de comércio com países ricos em recursos naturais raros. No início as empresas estavam interessadas sobretudo na compra de matérias primas a baixo custo, o que as permitia uma maior competitividade no mercado internacional. Ao passar do tempo, também se diversificaram em setores como a energia nuclear. A África enfrenta problemas energéticos que comprometem seu crescimento econômico e vê na energia nuclear uma solução. Essas circunstâncias têm sido aproveitadas pela Rússia e China para entrarem no mercado energético africano. Como resultado deste processo a China anunciou sua intenção de abrir a primeira usina nuclear no Quênia no ano de 2025.

Contratos e investimentos chineses divididos por setores (via The Economist).
Contratos e investimentos chineses divididos por setores (via The Economist).

A potência asiática tampouco fica de fora do plano militar. Países africanos que eram assíduos compradores de armamentos ocidentais têm começado a buscar a China como fornecedora. O país já se posicionou como o segundo maior fornecedor de armamentos para o continente, logo atrás da Rússia, ainda que essa competitividade de mercados não tenha levado a tensões entre os países. No ano passado a República de Yibuti foi o país elegido pela superpotência asiática para estabelecer sua primeira base militar fora de seu território. Com esta instalação, a República Popular da China se converte no quinto exército estrangeiro com base no país, junto com a França, Japão, Itália e Estados Unidos. Se tem buscado evitar o linguajar militar para fazer referência à base e assim evitar tensões com o resto dos atores internacionais. Segundo os dirigentes chineses, seu objetivo é servir de apoio às ações em diversos âmbitos por todo o continente e proteger seus comerciantes. Apesar das ditas intenções a instalação da base militar tem se tornado um ponto de inflexão nas dinâmicas entre as potências da região.

A China está se envolvendo cada vez mais em missões de paz, campo com maior predominância dos Estados Unidos. Entretando, depois do anúncio por parte do Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, da intenção estadunidense de abandonar as missões de paz que consideram improdutivas, esta situação pode mudar. Existem críticas à China de que a participação em missões de paz entra em conflito com sua política de não-intervenção nas questões nacionais africanas. No verão de 2018 Xi Jinping presidiu o primeiro foro de Cooperação e Segurança entre África e China. Atualmente essa não é uma de suas ferramentas de expansão mais importantes, já que as demais potências se encontram em vantagem nesse aspecto. Uma expansão militar muito rápida poderia alarmar as potências mundiais e regionais que ali já operam. Isso levaria ao aumento das tensões, o que vai contra a estratégia chinesa.

Cooperação chinesa na Libéria (via El Confidencial).
Cooperação chinesa na Libéria (via El Confidencial).

Em setembro (2019) todos os estados africanos e a China irão se reunir no Foro de Cooperação China-África, o terceiro encontro desde a fundação da organização no ano 2000. Em 2015 o presidente Xi anunciava os dez grandes planos de cooperação, os quais têm se desenvolvido nos últimos anos e têm sido qualificados como exitosos. Nesta reunião se discutiram o aprofundamento de aspectos que ajudassem a criar um destino comum para todos esses estados.  Na mesma reunião, a China prometeu um financiamento de 60 bilhões em investimentos e créditos. Xi Jinping destacou que o objetivo destas reuniões é que ambas as partes saiam beneficiadas.

Reunião do Foro de Cooperação China-África (via Instituto de Estratégia).
Reunião do Foro de Cooperação China-África (via Instituto de Estratégia).

A corrida pela hegemonia mundial tem feito com que regiões praticamente esquecidas pelas grandes potências voltem a ter relevância. As opinões do presidente Trump em relação à África foram muito polêmicas e a política americana não prestava muita atenção à região. Todavia, a rápida expansão chinesa e russa tem feito com que a potência americana mude de posição. Os Estados Unidos têm ajustado suas políticas para interromper esses processos. A China já superou os Estados Unidos como principal sócia comercial do continente, quadruplicando o volume monetário proveniente do comércio. John Bolton denunciou as “práticas predatórias” e assegurou que os Estados Unidos trabalharão em relações de desenvolvimento comercial para proteger a independência dos estados africanos e os interesses americanos. Bolton acusou Pequim de utilizar as dívidas e os contratos como uma armadilha para manipular os estados segundo seus interesses. Essas declarações mostram que as antigas práticas consistentes em vantagens efetivas das potências frente aos estados africanos estão com seus dias contados. Como já dito, a China tem introduzido uma nova dinâmica de “ganha-ganha”, que é comparativamente mais atrativa. A Rússia e os Estados Unidos correm o risco de perderem seus aliados no continente caso não se adaptem a esta nova realidade.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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