Internacional

Entre a pandemia e a propaganda

Por Pablo del Amo, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine

Foto do discurso de Donald Trump no dia 19 de março onde observa-se como se riscou a palavra “corona” e a substituiu por “chinês” ao descrever o Covid-19. Foto por Jabin Botsford/The Washington Post.
Foto do discurso de Donald Trump no dia 19 de março onde observa-se como se riscou a palavra “corona” e a substituiu por “chinês” ao descrever o Covid-19. Foto por Jabin Botsford/The Washington Post.

A crise do coronavírus tem representado um terremoto político-econômico de grande envergadura. O ocidente está sofrendo um dos maiores desafios de sua história recente. A Ásia, e em particular a China, está se erguendo como modelo para combater a pandemia, aproveitando para ganhar terreno na luta pela hegemonia mundial. No entanto, diante da falta de preparo inicial, o Covid-19 tem devastado os governos europeus fazendo com que tomem medidas quase próprias de tempos de guerra, enquanto a União Européia se encontra, como habitual, paralizada entre as disputas internas deixando grandes dúvidas sobre seu projeto para o continente.

Já é tarde demais para a Europa?

A China aproveita seu momento

Já parecem distantes aquelas imagens em que podíamos ver como o governo chinês parecia derrotado pelo coronavírus, quando muitos já falavam de um gigante com pés de barro incapaz de bater de frente com uma epidemia. No entanto, em pouco tempo Pequim deu a volta por cima e passou a agir; mas qual tem sido sua receita? Fechem as cidades, forte isolamento, controle da população e acumulação de recursos nas zonas mais afetadas. O sistema chinês se ergueu como um modelo eficaz, ou pelo menos é isso que nos querem vender.

Tem se dado muito destaque para a capacidade de Pequim para a atacar a crise com facilidade, enquanto, porém, os governos locais têm se mostrado claramente ineficientes. Isso demonstra uma certa fragilidade do sistema chinês, que carece de estruturas fortes no nível inferior além de uma falta de coodenação entre ambas administrações.Pode ser que, ao menos agora, a opinião pública em relação a Pequim se veja reforçada como garantidora da ordem e de boa governança. Mas isso não exclúi que necessite de um bom funcionamento dos poderes locais, de onde majoriariamente têm surgido as más práticas no enfrentamento ao vírus. A resposta verdadeiramente eficaz chegou quando o estado concentrou todos os seus recursos nas zonas afetadas (Hubei).

Com a epidemia aparentemente controlada, a China tem lançado uma campanha propagandística mundial. Pequim está enviando grandes quantidade de suprimentos e especialistas médicos a países muito afetados pela epidemia como a Itália, e por outro lado, seus organismos oficiais e extra-oficiais estão propagando teorias conspiratórias que relacionam a origem do vírus aos Estados Unidos.

Essa estratégia propagandística obedece a duas lógicas: por um lado, a interna, já que a população chinesa tem sido crítica da forma em que o governo tem atuado durante a crise do coronavírus. No primeiro momento, Pequim ocultou a verdade sobre a gravidade da situação (chegando inclusive a prender cientistas que estavam estudando o vírus), para depois atuar tardiamente quando a epidemia já começava a se descontrolar. Sendo assim, temos que entender essa campanha chinesa como uma forma de reconciliar-se com sua população. Por outro lado temos a lógica externa, baseada principalmente em um desejo de aumentar sua influência no mundo, aproveitando a posição debilitada dos Estados Unidos e da União Européia, incapazes nesse momento de darem uma resposta contundente à pandemia.

Imagens dos suprimentos e equipes de especialistas médicos enviados pela China à Itália. Via Embaixada da China na Itália. Via Descifrando la Guerra.
Imagens dos suprimentos e equipes de especialistas médicos enviados pela China à Itália. Via Embaixada da China na Itália. Via Descifrando la Guerra.

A estratégia Chinesa tem se mostrado muito eficaz, ainda mais quando comparamos com a posição dos Estados Unidos ou a falta de solidariedade inicial dos países do norte da Europa. Não é estranho, assim, que em países com a Sérvia surjam vozes cada vez mais eurocéticas pedindo um alinhamento mais estreito a Pequim.

O coronavírus nos Estados Unidos: um desastre anunciado?

 O governo chinês não é o único notavelmente julgado pelos seus cidadãos ao gerir a pandemia. Do outro lado do Atlântico, a administração de Donald Trump tem cometido vários erros ao controlar essa crise.

O principal erro de Washington no momento de encarar a crise tem sido claramente a total falta de uma estratégia para combater o vírus. No espaço de poucas semanas Trump passou de qualificá-lo como “hoax” ou “farsa” à declarar estado de emergência e fechar as fronteiras com a Europa.

Temos que entender essa primeira reação da Casa Branca dentro do contexto eleitoral estadunidense; o principal recurso que Trump conta para conseguir a reeleição é o bom funcionamento da economia estadunidense, uma recessão, como a que provavelmente será provocada por esta pandemia, poderia trazer grandes dificuldades à sua candidatura.

Apesar disso, frente ao agravamento da crise, Washington se viu obrigada a invocar a “Lei de Defesa da Produção”, o que permitiria ao presidente controlar a economia civil. Oferecendo um pacote de medidas sociais para tentar amenizar a situação econômica do país. Para tentar contrapor o despencamento da bolsa (com quedas diárias maiores que nos tempos da Grande Depressão) o Federal Reserve tem colocado em marcha um injeção de liquidez no setor financeiro, somada a redução das taxas de juros a zero.

Donald Trump está consciente de que a situação nos Estados Unidos pode se agravar muito se o governo não aguentar o choque econômico. Recordemos que se trata de um país com grandes taxas de desigualdade econômica, com uma sociedade muito individualizada e com um sistema sanitário claramente deficiente. Uma expansão do vírus e uma recessão econômica que danifique o tecido social pode abrir o caminho para uma futura vitória eleitoral de Joe Biden (Bernie Sanders está praticamente fora da disputa à essa altura). Não é estranho, portanto, que o governo aplique medidas intervencionistas e de cunho social, rompendo com os paradigmas das últimas décadas.

Donald Trump declarou estado de emergência no último dia 13 de março. Via Saul Loeb / AFP.
Donald Trump declarou estado de emergência no último dia 13 de março. Via Saul Loeb / AFP.

A visão no exterior é de outra batalha em que os Estados Unidos está vendo-se superado pela China, sua grande rival, que parece já ter conseguido passar pela tempestade da crise. Washington está tentando contra-atacar Pequim ressaltando a orígem do vírus, o que se ouve claramente em cada declaração institucional, citando o “vírus chinês” ou inclusive “kung flu” (gripe em inglês). Não parece que essa estratégia dará muito resultado, já que parte da opinião pública do país (e do exterior) taxam essa descrição de racista e xenofóbica.

A atitude estadunidense frente a Europa atualmente só tem beneficiado a China. Lembremos que Donald Trump chegou a culpar seus aliados de disseminar a pandemia, não enviou nenhum tipo de ajuda, e Washington foi inclusive acusada pela Alemanha de subornar cientistas alemães para adquirir o monopólio de uma vacina. É um claro constraste com a posição chinesa, e prejudica consideravelmente a influência externa dos Estados Unidos.

Ainda assim os laços que unem a Europa aos Estados Unidos são muito fortes, portanto Washington não deve temer uma irrupção chinesa. Aonde a China pode sim causar danos é em África, onde já anunciou suas intenções de enviar ajuda a vários países em que já se começam a notar os efeitos do coronavírus. Outra região que poderia estar em disputa entre os dois gigantes é a América Latina, onde o surto ainda está em suas primeiras etapas.

A União Européia frente à encruzilhada

Se pode dizer sem nenhum exagero que os primeiros movimentos para gestão do coronavírus por parte da União Européia foram um completo desastre. Por um lado temos a gestão deficiente da Itália, França e Espanha que subestimaram a gravidade da situação, para depois tomarem medidas de contenção tímidas e tardias, perdendo um tempo precioso para controlarem a epidemia. Por outro lado, está a falta de liderança e coordenação por parte de Bruxelas, já que cada país tem atuado individualmente sem levar em conta os demais, ao contrário do que se esperaría de um “projeto comum europeu”.

O mais grave, no entanto, foi a atitude inicial da Alemanha e França ao negarem assistência à Itália, com uma proibição expressa de exportarem material sanitário. No primeiro momento os países do norte como a Alemanha, Países Baixos ou Dinamarca se fecharam em si mesmos deixando à própria sorte os países mais afetados pela crise. Posteriormente a Itália e a França tentaram propor um projeto de incentivo econômico dentro dos marcos da União Européia, com pouco sucesso.

Em nível nacional, fica claro que os estados e cidadãos europeus não estão preparados para enfrentarem uma crise como a atual. Isso se expressa nos mecanismos inexistentes de prevenção, o que se torna ainda mais grave quando puderam observar o caso chinês com semanas de antecedência. Além disso, há também a pouca disposição dos governos de aplicarem medidas rápidas de contenção, devido a vários fatores; a falta de experiência para enfrentarem epidemias (ao contrário dos países asiáticos), o temor de medidas drásticas que danifiquem a economia e as liberdades individuais.

Como comentado anteriormente, em nível europeu não está havendo uma grande coordenação para enfrentar a pandemia. É necessário organizar os esforços e assegurar o abastecimento de suprimentos médicos às zonas mais afetadas. A União Européia deve liderar, ativando um ambicioso pacote de investimentos e de expansão fiscal. O Deutsche Bank já prevê “a mãe das recessões”, assegurando que “as quedas trimestrais que se esperam para o PIB superarão substancialmente tudo já registrado anteriormente, retornando a valores vistos durante a Segunda Guerra Mundial”.

Previsões de recessão econômica publicadas pelo Deustsche Bank.
Previsões de recessão econômica publicadas pelo Deustsche Bank.

Todos os indicadores apontam para um futuro colapso da economia, algo que a China já sofreu em fevereiro, mas que na Europa pode ser ainda pior. Frente a essa perspectiva os países afetados pela epidemia estão colocando em marcha pacotes econômicos nunca antes vistos, com investimentos estatais que alcançam grandes parcelas do PIB. A situação parece clara nos países europeus, estamos em uma guerra na qual o estado tem de surgir como responsável pelos seus cidadãos.

Atualmente parece que as instituições européias têm entendido o que enfrentamos e estão colocando em marcha iniciativas para conter a crise. O Banco Central Europeu iniciou um programa de compra de títulos privados e públicos no valor de 750 milhões de euros. A Alemanha finalmente enviou um milhão de máscaras para a Itália sob o marco do Mecanismo de Proteção Civil da União Européia. A Comissão Européia criou uma reserva estratégica de equipamento médico para os países da UE com um pacote de 50 milhões de euros para adquirir respiradores e equipamentos de proteção.

“Prometemos que faremos todo o possível para apoiar os europeus e as empresas nesta crise… Hoje ativamos a cláusula para relaxar as regras orçamentárias, permitindo aos governos que estimulem a economia.”

São as primeiras medidas porém insuficientes se a União Européia não quer sair devastada da crise do coronavírus. Faz falta um plano econômico mais ambicioso. Os países europeus deveríam seguir à risca as declarações do presidente da OMS, Tedros Adhanom: “esta epidemia pode ser freiada, mas apenas com uma abordagem coletiva, coordenada e abrangente que articule a maquinaria completa dos governos”.

Dependendo de como a União Européia saia da crise, poderemos vislumbrar o declínio do projeto europeu, ou pelo contrário, seu fortalecimento. Será importante a coordenação, efetividade e a rapidez da resposta. As grandes potências como a China e os Estados Unidos aproveitarão qualquer debilidade para se apropriarem das ruínas da Europa, e isso só irá prejudicar-nos como sociedade.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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