EUA

O vírus e o capitalismo

Subitamente, o “mais rico país na história do mundo” se assemelha a periferia do terceiro-mundo.

Por Bob Urie, via Counterpunch, tradução de Eduardo Pessine

Prateleiras praticamente vazias são vistas em um supermercado em Miami, Flórida, no dia 20 de março de 2020. Foto por Marco Bello/Anadolu Agency.
Prateleiras praticamente vazias são vistas em um supermercado em Miami, Flórida, no dia 20 de março de 2020. Foto por Marco Bello/Anadolu Agency.

Os Estados Unidos estão em meio a uma crise de saúde pública agravada por uma disfunção política sistêmica. Um estudo do Imperial College sugere que até 2 milhões de pessoas podem morrer nos EUA devido a epidemia de Covid-19, considerando que o país possua um sistema de saúde adequado – ou seja, que ninguém morrerá por falta de atendimento. O que não é verdade. Sem atendimento, a expectativa de mortes é muito maior. Se a experiência dos Estados Unidos for similar a da Itália ou de Wuhan até agora, podemos elevar a mortalidade para mais de 11 milhões[1] de pessoas, na pior das hipóteses.

O nosso objetivo não é criar medo ou pânico, mas ilustrar a diferença de resultados que uma resposta governamental robusta pode fazer. Ao tentar enquadrar o mercado de kits de testes, Donald Trump garantiu que a oferta será mínima, ou até mesmo inexistente. Na mesma linha, deputados Democratas aprovaram uma lei de “licença remunerada” tão fraudulenta que foi criticada até mesmo pelo “Pravda-on-the-Hudson”, o New York Times. O plano oficial visa a finança, socorrer Wall Street e as companhias aéreas, cortar impostos sobre salários e dar migalhas para as massas – e torcer para que tudo dê certo.

Ao invés de prover um nível adequado de atendimento médico para conter a pandemia, o que até mesmo os veteranos de Washington sabem que não irá cair do céu em tempo hábil, restou apenas o “distanciamento social”. O que é outra forma de dizer “quarentenas pontuais”. A China foi capaz de reduzir em 80% a taxa de mortalidade em Wuhan através de uma combinação de quarentenas intensas e um aumento significativo e rápido da infraestrutura médica. No entanto, a taxa de infecção supostamente começou a se elevar assim que as medidas de quarentena foram afrouxadas.

A estratégia de “reduzir a curva”, retardando a disseminação do vírus de forma que o sistema de saúde não seja sobrecarregado, pode reduzir a taxa de mortalidade nos Estados Unidos ao adequar a necessidade de atendimento à sua capacidade. Mas na base no estímulo econômico fica implícito que bastam duas semanas em casa assistindo Netflix para se voltar à normalidade. O que tem poucas chances de acontecer. Dezoito meses: é a duração esperada da pandemia caso sejam tomadas medidas efetivas para contê-la, o que significa que teremos até lá um mundo transformado radicalmente.

A idéia espalhada por Wall Street de que pandemias são “cisnes negros” imprevisíveis que legitimam respostas extraordinárias como resgates públicos para empresas privadas, sugere que História deveria fazer parte do currículo dos cursos de administração. Aqui está uma lista parcial de epidemias e pandemias. São tão comuns que uma sociedade funcional deveria manter milhares de funcionários permanentes focados apenas em planejamentos para contê-las. E também são uma das diversas razões do porque uma sociedade funcional deve ter uma sistema público de saúde.

Para entendermos o porque Wall Street deve ser largado às traças dessa vez, basta olharmos para janeiro de 1980, quando a atual especulação financeira supostamente se iniciou. O S&P 500 precisaria cair ao menos mais dois terços, de 2400 para 910 pontos, para chegar em valores normais (CAPE P/E=8,5) de onde partiram no início dessa fase de capitalismo financeiro. É isso mesmo, o S&P 500 chegando aos 910 pontos não representaria uma crise, apenas uma valoração mais razoável. A crise financeira, nos níveis que temos agora, acontece devido à especulação sistêmica, o mesmo problema enfrentado por Wall Street em 2008.

Essa pandemia é apenas o estopim dos problemas financeiros atuais, e não sua causa. Como foi alertado em 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, etc., os resgates financeiros do governo Obama serviram pra fazer dos ricos novamente ricos, e não para “salvar a economia”. Estamos aqui, dez anos depois e os há pouco resgatados então novamente nos dizendo que o governo federal precisa resgatar as corporações e os ricos para “salvar a economia”. “A economia” de fato está em risco, mas graças à fragilidade criada para beneficiar as corporações e os ricos, e não devido a queda das ações.

Se já houve um momento para uma ação incisiva do governo, esse momento é agora. O problema é que quatro décadas de neoliberalismo consolidaram o ethos de que o papel do estado é enriquecer os ricos. Naomi Klein chama isso de “capitalismo desastroso”. Eu fico com Marx e Lênin.  A crença de que resgates financeiros às corporações beneficiam os trabalhadores trás à tona a questão: se o objetivo é ajudar os trabalhadores, porque não dar o dinheiro diretamente a eles? Foram os executivos e os conselhos administrativos, que endividaram as empresas para inflar suas ações, que tornaram essas corporações tão economicamente frágeis.

Além disso, através da mitologia do individualismo brutal, o capitalismo foi usado para formar e transformar as relações sociais. Isso faz com que sua dependência em relação aos resgates públicos seja ainda mais ridícula e patética. Constituído séculos atrás para deslocar o poder dos nobres para a burguesia comercial, livre de um governo grande e intrusivo para previnir sua consolidação e livre-iniciativa, rapidamente criou uma nova aristocracia que ao entrar, trancou suas portas. O que restou foi a privilegiada, isolada e egocêntrica oligarquia que está agora diante de nós.

Durante os tempos “normais”, quando essa oligarquia não está agindo para destruir outras nações e o mundo, fazem da negligência para benefício próprio o modus operandi comum do estado. Por exemplo, as Forças Armadas dos Estados Unidos são fortemente superfaturadas enquanto o sistema de saúde é estruturado para deixar que as pessoas morram em um ritmo politicamente aceitável. Durante os tempo “não-normais”, a hierarquia de privilégios é colocada em ação. Primeiramente, salvar as riquezas dos ricos através de resgates financeiros. Segundo, garantir o direito das corporações de lucrarem com a catástrofe. Por fim, fazer com que as pessoas morram em um ritmo politicamente aceitável.

A pandemia nos força a refletir – em qual ritmo as pessoas precisam morrer para chegarem ao primeiro plano. Os Estados Unidos estão agindo hoje com resgates financeiros para garantir o patrimônio dos oligarcas, e os monopólios atuam para lucrar com a catástrofe. Ameaçando colocar tudo a perder estão as pessoas morrendo à um ritmo politicamente inaceitável. A montanha de interesses privados obscuros corre o risco de ser exposta. Alguns dias sem salário e o aluguel não é pago. Sem o aluguel, o locatário não pode pagar a hipoteca. Sem o pagamento da hipoteca, o banco quebra.

Subitamente, o “mais rico país na história do mundo” se assemelha a periferia do terceiro-mundo. A brutalidade social de viver de salário em salário se transforma de um fracasso individual para um fracasso sistêmico. Os resgates financeiros para os ricos expõem como eles se enriqueceram inicialmente. E o esforço dos chefões empresariais de extorquir lucro das pessoas doentes e moribundas expôe a dinâmica de classe com a qual os ricos se enriquecem – através do empobrecimento dos pobres. O risco para os ricos é que a lógica da guilhotina comece a fazer sentido. O risco para o restante de nós é entrarmos para a contagem de doentes e mortos.

A pandemia do coronavírus era previsível, levando em conta que pandemias ocorreram regularmente ao longo da história humana, e é externa à forma em que a organização social é concebida sob o capitalismo. O neoliberalismo é uma teoria de governança sem governo, de deixar a natureza, na forma dos mercados, decidir. Deixar a natureza decidir em uma pandemia significa aceitar mortes em massa passivamente, o que se alinha com a recusa neoliberal de criar um sistema de saúde funcional. Uma economia política baseada nos desejos individuais é contraditória com a natureza social de uma pandemia. Assim como na degradação ambiental, se produz uma lógica de suicídio coletivo.

A resposta do governo americano para a pandemia tem sido excepcional apenas devido à queda espetacular dos mercados. A enfadonha ideologia bipartidária não funciona porque o capitalismo não resolve problemas sociais. Não é projeto para isso. A tentativa atrapalhada de Donald Trump de enquadrar o mercado de kits de testes de empresas “americanas” resultou que simplesmente não os teremos. O Obamacare certamente não produziu nenhum. Ou a estratégia atual de quarentenas pontuais e desejos vãos se converte em uma resposta robusta, ou a ordem política existente irá se acabar.

A esperança de que os Democratas irão arrumar o que os Republicanos quebraram se contradiz com as três décadas de coisas quebradas pelos Democratas. Joe Biden, que apoiou incondicionalmente a guerra de US$4 trilhões de George W. Bush contra o Iraque, afirmou na semana passada que os Estados Unidos não podem arcar com um sistema de saúde funcional. O histórico político do Sr. Biden está à direita de Ronald Reagan. Passou décadas boicotando a assistência social e o Medicare. Apoiou leis falimentares que deslocaram o ônus de empréstimos impagáveis dos bancos para os pobres. Ele é a pior figura que os Democratas podem colocar frente a uma pandemia caso se preocupem em governar.

Os resgates financeiros são fundamentalmente diferentes de dar assistência às pessoas. Uma resposta adequada à pandemia necessitará de anos de esforços coordenados, e não apenas jogar trilhões de dólares “na economia” e torcer para que funcione. As quarentenas e o distanciamento social exigirão apoio material e de renda para dezenas de milhões de pessoas por pelo menos dezoito meses. Nancy Pelosi já está supostamente se opondo ao gasto público para se fazer o que é necessário. Seria uma grande ajuda aos trabalhadores se ela pressionasse seus patrocionadores à pagarem licenças remuneradas aos seus funcionários – mas ela jamais fará isso.

A fragilidade econômica por de trás da espiral acelerada para a crise não é um produto da natureza. Foi propositalmente criada pelo establishment político bipartidário em prol dos oligarcas e sob tutela dos economistas acadêmicos. O NAFTA foi feito para trazer insegurança econômica para o trabalhadores. As “reformas” dos programas sociais foram feitas para tornar a vida dos desempregados insuportavelmente instável. O salário mínimo não é suficiente para sobreviver há quarenta anos. Os planos de cortes na assistência social e no Medicare têm objetivo de aumentar a fragilidade econômica. Da mesma forma, a austeridade é o mecanismo coercitivo para manter o ricos no comando da economia política estadunidense.

Essa combinação de fragilidade social fabricada e medidas neoliberais irá mais cedo ou mais tarde produzir uma ruptura política. A eleição de Donald Trump foi apenas o início. Uma crise econômica prolongada pode criar uma solidariedade social ou uma resposta política grotesca. A escolha dos Democratas de continuar com seu programa neoliberal demonstra que estão indiferentes em relação a uma vitória de Joe Biden ou um segundo mandato de Donald Trump. Adicione o desemprego generalizado que virá com os planos de austeridade, e uma fómula mais perfeita para uma ascensão fascista é difícil de imaginar.

A questão de quem será o culpado da situação depende apenas de quem irá decidir a resposta. Isso faz com que seja uma questão de poder, e não de verdade. Mas no decorrer dessa pandemia, acusações serão os menores de nossos problemas.

Rob Urie é um artista e economista político. Seu livro Zen Economics é publicado pela CounterPunch Books.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] 330 milhões de pessoas X taxa de infecção de 80% X taxa de mortalidade de 5% = 13,2 milhões de mortos nos Estados Unidos; 330 milhões é a população dos EUA, 80% é a taxa de infecção calculada pelo estudo da Imperial College e 5% é a taxa de mortalidade observada na Itália e Wuhan.

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