África

O tabuleiro africano: a Federação Russa em África

Apesar das análises recorrentes que pretendem mostrar que a Federação é apenas um gigante com pés de barro, não podemos negar que durante a última década a Rússia vem sabendo jogar suas cartas e aumentar sua influência em todo o mundo.

Por Jorge González Márquez, via Descifrando la Guerra, tradução por Eduardo Pessine

O presidente russo Vladimir Putin acena durante foto com as lideranças dos países participantes do Fórum Rússia-África 2019 em Sochi, Rússia, no dia 24 de outubro de 2019. Foto por Sergei Chirikov/Reuters.
O presidente russo Vladimir Putin acena durante foto com as lideranças dos países participantes do Fórum Rússia-África 2019 em Sochi, Rússia, no dia 24 de outubro de 2019. Foto por Sergei Chirikov/Reuters.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Os Estados Unidos, a República Popular da China e a Federação Russa são as principais potências militares do mundo. Na doutrina estadunidense, ao menos naquela desenvolvida durante o governo Trump, estes três países são os reconhecidos como os “grandes poderes” que estão dando forma ao panorama internacional que, novamente segundo a doutrina dos EUA, está se estabelecendo como a “Competição entre Grandes Potências” (GPC, em inglês).

Esta relação trilateral se define sobretudo por sua complexidade. A atuação de cada um dos três atores em cada cenário está repleta de detalhes onde os legados históricos, os interesses econômicos, a política interna e os objetivos das diferentes facções e grupos de pressão se estrelaçam formando uma equação praticamente incalculável em sua totalidade.

Atualmente temos diversos temas de grande relevância e interesses que poderiam ser tratados no marco da GPC como a guerra na Síria, a crise venezuelana e ucraniana, a guerra comercial estadunidense ou as negociações de paz no Afeganistão.

Mas nesta ocasião, traremos uma série de artigos que tratarão sobre um aspecto da GPC que é consideravelmente menos midiático, mas apesar disso não menos importante: a disputa pelo domínio no continente africano. A África volta a ser hoje, como já foi na época colonial ou durante a Guerra Fria, um tabuleiro em que as grandes potências do mundo disputam recursos, posições estratégicas e influência sobre as vontades políticas.

Sem mais delongas, começamos esta série de artigos com “A Federação Russa em África”.

A Federação Russa em África

A história das atuais relações entre a Federação Russa e o continente africano trás um legado cujas origens podem ser traçadas para os momentos finais do Império Russo czarista, ainda que sua verdadeira relevância não se faria presente até a Guerra Fria, quando os dois grandes processos políticos da época, a descolonização e o conflito ideológico entre os blocos comunista e capitalista, se viram vinculados. Este estrelaçamento de processos históricos definiu o panorama político africano, já que os novos atores locais se viram aprisionados pelo ordenamento geopolítico da época, sendo forçados a tomarem partido com um ou outro grupo segundo suas preferências ou necessidades. Isso fez com que durante décadas houvesse uma relação baseada no apoio ideológico, econômico e militar que outorgava Moscou a diferentes países do continente como a Somália, Angola ou Etiópia.

O poder da Federação Russa está longe de ser o de sua antecessora, especialmente pela perda das 14 outras repúblicas que compunham a União Soviética e a grande crise econômica que foi causada pela mudança de modelo econômico durante os anos 1990. Mas apesar desse fato inegável, e apesar das análises recorrentes que pretendem mostrar que a Federação é apenas um gigante com pés de barro[1], que se encolhe frente aos colossos que a acompanham na categoria de grandes potências, não podemos negar que durante a última década a Rússia vem sabendo jogar suas cartas e aumentar sua influência em todo o mundo. Mas concentremo-nos no cenário africano: desde há quase trinta anos da queda da União Soviética, em que se baseia atualmente a influência russa em África?

Os principais âmbitos dos quais a Rússia ganha influência em África e no resto do mundo têm se mostrado muito claros ao longo dos últimos anos: cooperação militar, na forma de treinamentos e venda de materiais, investimentos em energia nuclear e desenvolvimento dos campos de petróleo e gás.

Intervenções russas em África (vínculo militar, investimentos em mineração, energia nuclear, intervenções políticas, investimentos em gás e petróleo). Via Bloomberg.
Intervenções russas em África (vínculo militar, investimentos em mineração, energia nuclear, intervenções políticas, investimentos em gás e petróleo). Via Bloomberg.

O boom demográfico africano é uma realidade inegável que tem se convertido em uma fonte de preocupações cada vez maior para muitos dos países do continente, já que a raíz dessas transformações traz grandes necessidades difíceis de serem supridas. A Federação Russa está aproveitando as circustâncias para ganhar influência graças a uma dessas necessidades em particular: a demanda energética. A política do governo russo em relação à essa necessidade está sendo administrada a partir de dois ângulos diferentes.

Por um lado, a Rússia aproveita sua experiência histórica, afinal de contas o gigante euroasiático tem sido para Europa sinônimo de gás e petróleo durante décadas, o que provocou uma considerável dependência em grande parte da região oriental do continente, o que é a causa de grandes dores de cabeça. A importância destes dois recursos na economia russa, demonstrada pela existência dos gigantes industriais Gazprom e Lukoil, indica que a Rússia tem importantes interesses nesse âmbito com grandes investimentos em países como a Argélia[2], Sudão[3] e Nigéria[4], entre outros. Dentre estes, o mais relevante é a Argélia, principal competidor da Rússia no mercado de gás europeu e seu parceiro histórico a nível político e militar.

Mas nem tudo é gás e petróleo em África, e ante a necessidade de diversificar e incrementar as fontes de enegia disponíveis no continente, a Rússia tem oferecido seus conhecimentos em matéria de energia nuclear a alguns dos países mais ricos de África. Entre esses existem dois nomes que se destacam: o Egito, que firmou com a Rússia a construção de sua primeira usina nuclear em outubro de 2017, e a Etiópia, com quem estão realizando negociações para desenvolvimentos nesse campo. É necessário destacar, que nem tudo tem ido bem para Moscou nesse âmbito, sendo o exemplo mais claro a África do Sul, que também estava no rol de países que teriam acordos para o desenvolvimento conjunto de enegia nuclear com a Federação Russa, mas teve seu projeto congelado com a chegada ao poder do atual presidente, Cyril Ramaphosa.

A Rússia também tem buscado negociações com outros países cujas economias são menos sólidas, com destaque para o caso do Sudão, que haveria solicitado à Rússia que se realizassem preparações para a construção de uma usina nuclear no país nos próximos oito anos, durante a visita de Al-Bashir à Moscou em novembro de 2017[5].

Omar al-Bashir, presidente do Sudão, durante sua visita a Moscou em novembro de 2017.
Omar al-Bashir, presidente do Sudão, durante sua visita a Moscou em novembro de 2017.

Finalmente chegamos à mais poderosa das cartas na manga de Moscou: o setor militar. Este setor tem demonstrado ser um ativo valioso para a Federação Russa, sobre tudo por ser o principal país herdeiro do grande arsenal soviético, a partir do qual já estavam armados um grande número de países africanos. Isso permitiu que os diplomatas e empresários russos mantivessem, ainda que em um nível mínimo, as relações com países como Angola ou Argélia através dos acordos para a manutenção e renovação desses equipamentos, inclusive durante os anos mais graves da crise econômica e política na Rússia. Após os acontecimentos na Síria e Ucrânia a partir de 2014, as vendas de material militar da Federação Russa para países africanos têm aumentado consideravelmente com alguns acordos importantes como:

  • A venda ao Egito de 46 caças MiG-29M/M2 e de 46 helicópteros de ataque Ka-52 requisitada em dezembro de 2015.
  • A venda à Argélia de 200 tanques T-90SA em 2016 e de quatro regimentos de sistemas de mísseis Iskander-E em março de 2018.

Mas estas vendas de armamentos, apesar de serem economicamente relevantes e criarem um vínculo comercial que perdura através dos anos, não são a principal forma através da qual a Rússia aumenta sua influência militar na África. Essa posição está nas mãos dos acordos de cooperação no campo de segurança que inclui: cooperação técnico-militar, contraterrorismo, manutenção da paz, treinamento, combate à pirataria e manutenção do equipamento militar, entre outras.

Mas com quem a Rússia fez estes acordos[6]? Vejamos na tabela abaixo:

Países com os quais a Rússia firmou acordos em matéria de segurança. Via Descifrando la Guerra.
Países com os quais a Rússia firmou acordos em matéria de segurança. Via Descifrando la Guerra.

Aparentemente se incorporou a implantação da força de segurança privada conhecida como Wagner Group nesses acordos de cooperação, acusada de participar nos últimos anos dos conflitos da Ucrânia, Síria[7] ou mais recentemente na Líbia[8], atuando como supostos agentes de Moscou em zonas de conflito em que o exército russo não pode ou não quer atuar diretamente. É necessário destacar que Wagner é, segundo fontes ocidentais, dirigida pelo suposto ex-membro da GRU, a agência militar de inteligência da Rússia, Dmitry Utkin, que foi sancionado pelos Estados Unidos em 2016 por seu suposto envolvimento no conflito ucraniano.

Ao longo de 2018, diversas fontes têm advertido sobre a implantação da Wagner em ao menos dois países africanos[9]: na República da África-Central, mergulhada em uma guerra civil desde 2012, e no Sudão, sacudido por vários conflitos e protestos generalizados contra o governo de Omar al-Bashir. E o que estaria fazendo ali este grupo paramilitar? Em ambos os países, a resposta aparenta ser a mesma:  defender as minas, os campos petrolíferos e outras instalações industriais controladas por empresas russas ao mesmo tempo que garantem a sobrevivência dos governos nacionais, ao menos aqueles que respeitem os interesses russos no país, que se encontram em clara instabilidade.

Com esta breve análise, fica claro que durante os últimos anos a Rússia tem aumentado e continua aumentando consideravelmente sua influência em África. Isso tem sido visto no ocidente com preocupação, já que supõe o retorno de uma potência rival que se imaginava confinada à sua região e suas áreas adjacentes.

Algo particularmente inquietante que surgiu em meio ao acompanhamento próximo dos movimentos russos no tabuleiro africano, é um nome que começou a aparecer repetidamente aqui e ali: Yevgeny Prigozhin.

Yevgeny Prigozhin, o “éminence grise” do Kremlim em África
Yevgeny Prigozhin, o “éminence grise” do Kremlim em África

Conhecido como o “chef” do Kremlim, Yevgeny Prigozhin se converteu em uma das figuras principais da política externa russa, ao menos segundo fontes ocidentais. Mas quem é Yevgeny Prigozhin? Um empresário e restaurador de San Petersburgo, cidade natal do presidente Vladimir Putin, que parece, nos últimos anos, e especialmente após as intervenções na Síria e a anexação da Criméia, ter incorporado-o à equipe diplomática privada do Kremlim.

Nos últimos dois anos, seu nome tem aparecido em todas as partes, sempre como executor sombrio das ações do governo russo. Quem financia as “fazendas de trolls” na internet[10]? Prigozhin. Quem está por trás dos últimos assassinatos de jornalistas russos[11]? Prigozhin. Quem financia o Grupo Wagner por debaixo dos panos[12]? Prigozhin.

Culpado ou não de todas as acusações, sua presença em certas reuniões importantes em especial sobre a política externa russa em África[13], deixam claro que ao menos algum papel lhe pode ser atribuído. O principal indicador da presença de Prigozhin tem sido o aumento recente de vezes em que foi visto no continente, mas segundo algumas fontes, essa implantação não se limita – ou deixará de se limitar em breve – ao Sudão, Líbia e República da África-Central, mas se expandiria ao menos a outros oito países com os quais a Federação Russa já mantém algum tipo de vínculo militar: República Democrática do Congo, Madagascar, Angola, Guiné, Guiné-Bissau, Moçambique e Zimbabué.

Dentre esses, o que gera mais dúvidas atualmente é a República Democrática do Congo, já que a saída do poder de Joseph Kabila nos leva a crer que o país poderia estar mais aberto a receber influências dos países da União Européia, mas falaremos sobre este tema em futuros artigos da série.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] https://www.cnbc.com/2018/07/19/checkmate-putin-falling-short-on-master-plan-for-aging-oil-economy.html

[2] https://www.mepc.org/journal/russia-and-algeria-partners-or-competitors

[3] https://sputniknews.com/africa/201804241063842087-sudan-russia-oil-gas/

[4] https://www.vanguardngr.com/2017/10/senate-partners-russian-oil-giants-develop-nigerias-oil-gas/

[5] https://newafricanmagazine.com/news-analysis/politics/the-return-of-russia-to-africa/

[6] https://www.reuters.com/article/us-africa-russia-factbox/factbox-russian-military-cooperation-deals-with-african-countries-idUSKCN1MR0KH

[7] https://www.bbc.com/news/world-europe-43167697

[8] https://www.alaraby.co.uk/english/indepth/2019/1/22/russias-agenda-in-libya

[9] https://www.theatlantic.com/international/archive/2018/08/russian-mercenaries-wagner-africa/568435/

[10] https://www.lavanguardia.com/internacional/20180219/44905736240/yevgueni-prigozhin-trols-rusiagate-trump-putin.html

[11] https://www.telegraph.co.uk/news/2019/01/10/report-links-journalists-murder-africa-russian-mercenaries-investigating1/

[12] https://smallwarsjournal.com/jrnl/art/swj-factsheet-observing-wagner-group-open-source-intelligence-study

[13] https://www.libyanexpress.com/russian-businessman-linked-to-sending-mercenaries-to-syria-attends-meeting-for-haftar-in-moscow/

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