Internacional

O que o Covid-19 está tentando nos ensinar?

Tivemos certamente um derrotado na Guerra Fria. Mas foram os Estados Unidos um vencedor?

Por H. Bruce Franklin, via Counterpunch, tradução por Eduardo Pessine

Clientes enfileirados para fazer compras em uma loja Costco em Brooklyn, conforme a epidemia de COVID-19 continua, dia 19 de março de 2020, na cidade de Nova Iorque. Foto por Victor J. Blue/Getty Images.
Clientes enfileirados para fazer compras em uma loja Costco em Brooklyn, conforme a epidemia de COVID-19 continua, dia 19 de março de 2020, na cidade de Nova Iorque. Foto por Victor J. Blue/Getty Images.

Algumas pessoas percebem o mundo como uma sequência infinita de lutas premiadas, sempre com um vencedor e um perdedor. Para eles, a vida é uma série interminável de jogos de soma-zero. Infelizmente, uma dessas pessoas é o presidente dos Estados Unidos.

Um exemplo de algo que não é um jogo de soma-zero é uma pandemia global. O contágio de outra pessoa não é um ganho para mim, mas uma ameaça. Nenhuma nação sai ganhando com as perdas de outra. Para lutar contra o vírus, a principal arma é a cooperação, em todos os níveis, do interpessoal ao internacional. No nível internacional, compartilhar recursos e informação é essencial, já que qualquer vulnerabilidade de qualquer país é uma ameaça a todos os outros.

Os países que combateram uns aos outros durante a Primeira Guerra pensaram o oposto. Cada um, incluíndo os Estados Unidos, trataram a crescente epidemia de 1918 como um segredo de guerra. A existência do vírus mortífero se tornou pública graças a Espanha, que não era uma das nações beligerantes, se recusar a censurar notícias sobre a doença. As estimativas de mortes da epidemia de 1918 vão de 17 a 100 milhões. A guerra matou diretamente 53.000 americanos. O vírus matou entre 500.000 e 675.000. Um olhar cuidadoso revela que os estragos do conflito, juntamente com a cultura perversa da guerra, foram os principais vetores da pandemia, se não até mesmo suas principais causas.

Hoje não vemos mais guerras com a escala da Primeira e Segunda Guerra, da Guerra da Coréia, do Vietnã ou do Iraque, pelo menos nas últimas duas décadas. Vemos o que muitos chamam, eufemisticamente, de “conflitos de baixa intensidade” e “guerras comerciais”. Os EUA em particular têm repetidamente demonstrado sua habilidade em destruir economias e infraestruturas de países inteiros, até mesmo nações desenvolvidas como a Venezuela e o Irã, usando apenas da subversão, proprinas, boicotes, sabotagem, desinformação e tarifas.

Isto levanta algumas questões amplas demais para respondermos com precisão em um curto texto. Primeiramente: não foi essa estratégia atual de guerra que, na verdade, destruiu a União Soviética, coroando os Estados Unidos como vencedor da Guerra Fria? Houveram três tentativas em utilizar exércitos convencionais para derrubar a URSS. A primeira foi a invasão conjunta lançada em 1918 pelo Reino Unido, França, Estados Unidos, Japão, Austrália, Canadá, Checoslováquia, Sérbia, Itália, Polônia, Grécia e Romênia. A segunda foi a série de invasões japonesas, começando em 1931 e se encerrando com a destruição do 6º Exército do Japão pelos soviéticos na histórica Batalha de Khalkin Gol, em agosto de 1939. Por fim, ocorreu a invasão do gigante nazista, que havia acabado de conquistar com facilidade todos os seus rivais europeus. A União Soviética derrotou até mesmo esse colosso militar na decisiva Segunda Guerra. Mesmo assim, 45 anos de Guerra Fria levaram a URSS a se desmembrar e desaparecer. Isso nos leva a segunda questão: Pode a estratégia da Guerra Fria destruir a China, o mais recente candidato a maior e mais desenvolvido país do mundo? Mesmo antes da chegada do Covid-19, a guerra política e econômica de Trump contra a China já estava afetando negativamente a economia chinesa e também a própria economia estadunidense. Isso tudo nos leva a questão mais importante:

Tivemos certamente um derrotado na Guerra Fria. Mas foram os Estados Unidos um vencedor? Observando as estatísticas abismais de saúde (incluindo a expectativa de vida, mortalidade infantil, obesidade, abuso de drogas, taxas de suicídio), a infraestrutura em colapso, nossa educação pública decadente, a desigualdade grotesca entre o 1% e o restante da população, nosso sistema político desfuncional, devemos nos perguntar: o que vencemos? E como nosso país seria hoje se, ao invés da Guerra Fria, tivessemos expandido nossa cooperação com a União Soviética? A única consequência clara da Guerra Fria é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos mantiveram armas de destruição em massa que ainda ameaçam a civilização humana e a existência de nossa espécie.

O que nos trás de volta para o cenário atual de quebra dos mercados, a tragicômica eleição dos EUA e uma pandemia ameaçando nossas liberdades individuais, prazeres sociais e nossas vidas. A China, enfraquecida pelos ataques políticos e econômicos dos Estados Unidos, cometeu o mesmo erro dos combatentes da Primeira Guerra: tentou manter o Covid-19 em segredo. O governo Trump, entre diversos erros e gafes, está cometendo agora um erro ainda pior e incompreensível: manter as tarifas e a guerra comercial.

Está cometendo o mesmo erro em relação ao Irã. Antes da expansão do Covid-19, os EUA foram bem-sucedidos em destruir boa parte da economia e infraestrutura iraniana, reduzindo a capacidade do país conter a doença. A noção de jogo de soma zero por de trás da política estadunidense dificilmente irá nos ajudar na luta contra o vírus.

A continuidade da guerra comercial de Trump com a China está diretamente prejudicando a economia americana e global, e exacerbando significativamente o crash dos mercados de ações domésticos e do mundo. Isto deveria ser óbvio para os dirigentes de Washington, mas nem tanto para alguém que herdou 412 milhões de dólares e mesmo assim foi à falência múltiplas vezes.

Trump está colocando a culpa da quebra dos mercados na mídia e nos Democratas, por alegadamente exagerarem sobre os perigos do vírus. O Covid-19 é certamente o estopim dos crashes e certamente irá agravar a eminente recessão. Mas antes do surto do vírus já haviam inúmeros sinais de uma possível recessão e da existência de uma bolha financeira prestes a estourar há meses. Os índices manipulados dos Estados Unidos já estavam contraíndo. O governo Trump já estava cedendo dezenas de bilhões de dólares para salvar os agricultores americanos que perderam seus mercados devido às retalhações da China. A curva de juros já havia se invertido duas vezes, normalmente um indicador confiável de uma eminente recessão. As taxas de juros a longo prazo estavam tão baixas que desmentiam a euforia do mercado financeiro (outro sinal de que a bolha está prestes a estourar). Trump tentou desesperadamente manter os mercados em alta e retardar uma recessão até sua reeleição. Por esse motivo ele pressionava o FED para reduzir as taxas de juros drasticamente, até mesmo em direção a taxas negativas.

Agora lembremos da virada de 2007 para 2008, quando oito anos de imprudência financeira e militar dos Republicanos quase causaram a destruição do sistema bancário mundial e conseguiram quebrar os mercados e lançar o país e a economia global no que chamamos agora de a Grande Recessão, a maior crise desde a Crise de 1929. O único grande país que escapou dessa crise foi a China. Enquanto a demanda colapsava em todo o mundo, foi a China, agindo como um grande motor, que desatolou a economia global. Continuar a guerra econômica contra a China nos dias atuais é uma loucura suicida.

Nem o Covid-19 ou uma grande recessão impõem uma ameaça à nossa sobrevivência como espécie. Nós enfrentamos, no entanto, duas ameaças existenciais, ambas criadas por nós, e ambas lideradas pelo nosso país. No momento em que apenas a cooperação mundial pode nos salvar do holocausto nuclear e da devastação ambiental, o patriotismo cego está dividindo nossa espécie. Pode o Covid-19 nos ensinar que estas duas grandes ameaças para a nossa existência também não são jogos de soma zero? Que ou nossa espécie como um todo vence ou nós, assim como diversas outras espécies, todos perdemos?

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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