Ásia

A China já ultrapassou os EUA nos investimentos militares?

A mídia insiste que a economia chinesa é a “segunda maior do planeta” enquanto até mesmo a CIA admite que é cerca de 30% maior que a dos EUA. Isso significa, entre outras coisas, que o orçamento militar da China é 30% maior do que imaginamos.

Por Godfree Roberts, via The Unz Review, tradução por Eduardo Pessine

Locais acenam para o destróier da Marinha Chinesa, o Qingdao (DDG 113), que atraca no porto de Pearl Harbor, Havaí. Foto por Ben A. Gonzales/US Navy.
Locais acenam para o destróier da Marinha Chinesa, o Qingdao (DDG 113), que atraca no porto de Pearl Harbor, Havaí. Foto por Ben A. Gonzales/US Navy.

“A missão política e militar dos Estados Unidos no período pós-Guerra Fria é impedir a emergência de uma superpotência rival na Europa Ocidental, Ásia ou nos antigos territórios da União Soviética. O documento confidencial defende um mundo dominado por uma única superpotência cuja posição pode ser perpetuada por uma postura construtiva e poder militar suficiente para impedir qualquer nação ou conjunto de nações de contestar a supremacia estadunidense.” Departamento de Defesa dos Estados Unidos, The New York Times, Março de 1992.

Em 2015 a Research and Development relatou, “a China já pode causar riscos a frota da Marinha dos Estados Unidos (USN, em inglês) a distâncias consideráveis de seu território”. Dois anos depois o Pentágono calculou, “a Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN, em inglês) é a maior marinha da Ásia, com mais de 300 navios, submarinos, veículos anfíbios e embarcações de patrulha.”

Em 2018, o Comandande do Índo-Pacífico da USN, Philip Davidson comunicou ao Senado, “Não temos garantia que os Estados Unidos venceríam um futuro conflito com a China”.

Até o próximo verão, segundo a USN, a PLAN terá 342 navios de guerra disponíveis, muito mais do que a USN pode manter na região. A nossa mídia, nas raras ocasiões em que revela alguma verdade sobre a China, a protela por quase uma década. Dez anos atrás, por exemplo, a Huawei já era gigante, inovadora e liderava a corrida pelo 5G, mas só recebemos o recado no ano passado. Atualmente, a mídia insiste que a economia chinesa é a “segunda maior do planeta” enquanto até mesmo a CIA admite que é cerca de 30% maior[1] que a nossa. Isso significa, entre outras coisas, que o orçamento militar da China é pelo menos 30% maior do que imaginamos e, já que sua economia cresce três vezes mais rápido que a americana, seu gasto militar será igual ao nosso daqui oito anos, em 2028, quando terá o dobro de navios de guerra, aviões e mísseis que os EUA, todos novos e de igual ou melhor qualidade.

Orçamento militar EUA e China.

Mas os valores ajustados pela PPP são apenas uma média de todos os preços e não expressam o fato que dólares chineses militares compram cerca de 50% mais do que dólares americanos militares. Em outras palavras, o gasto militar da China já ultrapassou o nosso por uma margem considerável.  O raciocínio é esse:

1. Pequim comanda o governo mais eficiente do mundo. Eles sabem como tirar valor do dinheiro, e cada categoria do orçamento é um exemplo de parcimônia:

Gasto público em % do PIB, 2016, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Índia e China.

2. A China gasta 300% a mais do que nós em pesquisa e desenvolvimento (R&D, em inglês). Como nos Estados Unidos, muitas pesquisas de ponta têm origem militar, mas Pequim assegura que todas suas descobertas sejam rapidamente aproveitadas pelo Exército de Libertação Popular (PLA, em inglês).

Gasto em pesquisa e desenvolvimento em % do PIB, Estados Unidos e China.

3. A China controla os fornecedores militares e assim economiza em lobbying, propinas, taxas de lucro, aluguéis, desperdício, redundância, executivos e conselhos com mega-salários, decisões políticas, e muito mais.

4. A China é livre para consistentemente tomar decisões militares racionais. Desmobilizar um milhão de tropas? Feito. Transferir recursos para a Força de Mísseis? Feito. Recrutar toda a Marinha Mercante? Feito.

5. A fusão Civil-Militar de Pequim é um multiplicador de forças que gera grande economia. A China possui três forças marítimas, todas subordinadas às Forças Armadas: a PLAN, a Guarda Costeira Chinesa (CCG, em inglês) e a Milícia Marítima das Forças Armadas Populares (PAFMM, inglês). Cada uma possui a maior quantidade do mundo de embarcações em suas categorias e todas operam sob controle e comando unificado. A primeira linha de defesa, a PAFMM, tem 180.000 barcos de pesca no oceano e 4.000 cargueiros mercantes – alguns equipados com sonares. Tripulados por um milhão de marinheiros experientes, eles transmitem informações detalhadas sobre cada navio de guerra em todos os oceanos 24 horas por dia. As bases costeiras agregam essas informações com transmissões automáticas dos satélites de posicionamento, navegação e temporais Beidou, e fornecem dados em tempo real para especialistas treinados em coleta de informações e identificação de alvos, que operam uma “plataforma de administração de embarcações”, que coleta, trata e envia informações práticas para a cadeia de comando da PLAN. Em terra firme, 8 milhões de reservistas costeiros recebem treinamento náutico, para reparos emergenciais, de defesa anti-aérea, manuseio de armas leves e sabotagem naval, de forma regular.

6. A tecnologia contribue para maior eficiência de custos e funcionalidade: a China, líder mundial em química, matemática, ciência da computação e engenharia, aplicou sua química de ponta em propulsores e explosivos. Todos os seus mísseis, de ar-ar à balísticos intercontinentais têm alcance 50-100% maior que os nossos e suas ogivas sem dúvidas têm maior poder de destruição.

7. A padronização poupa bilhões. O famoso DF-21D “Mata-Porta-Aviões” é um míssil balístico de médio alcance (IRBM, em inglês) adaptado que a PLAN utiliza para lançar muitos de seus mísseis, e ao produzí-lo em massa, reduz seu custo à uma fração dos nossos ainda mantendo uma enorme variedade.

8. Navios de guerra produzidos em massa. A PLAN lançou 17 navios de guerra em 2017 e 19 no ano passado, utilizando um método de produção comum, enquanto progressivamente reduzia custos e aperfeiçoava cada unidade – utilizando feedback de navios em teste. Sua nova fábrica de submarinos, a maior do mundo, produz 6 submarinos ao mesmo tempo, reduzindo o custo de produção à uma fração dos nossos. Se os chineses conseguem construir usinas nucleares por 35% do custo das nossas, o que de fato conseguem, eles certamente produzem destróiers como o Tipo 055, a mais poderosa embarcação de guerra em atividade, por metade do custo de nossos Ticonderoga.

9. A PLAN investe apenas em defesa. Defesa. Em 2001, terroristas anti-americanos com atuação global foram encontrados em apenas um ou dois países. Hoje combatemos terroristas em 80 nações com um custo de dois-terços do orçamento discricionário, deixando pouco para investimentos produtivos – ou até mesmo sistemas inovadores de armamentos. A Guerra Global ao Terrorismo (GWOT, em inglês), já custou US$6,4 trilhões, incluindo a assistência aos veteranos, e ainda mantemos guarnições na Alemanha, Japão, Coréia, Afeganistão e Iraque. Por insistência nossa, a China construiu uma única base, em Djibuti (na África Oriental), que também serve de apoio para o massivo (comparado com o nosso inexistente) programa de desenvolvimento no país enquanto nós abastecementos bases estrangeiras em 800 localidades diferentes.

10. A Força de Mísseis Balísticos do Exército de Libertação Popular (PLARF, em inglês) possui capacidade para destruir todas as cidades dos Estados Unidos em 48 minutos. Mesmo se precisasse derrubar todas as nossas bases estrangeiras, caso atacássemos seu território, a China poderia (ou em outras palavras, iria) atacar o território dos Estados Unidos com a mesma facilidade. Isso que é guerra assimétrica!

Deveríamos ficar surpresos se a China não buscasse o domínio militar absoluto, levando em conta nosso comportamento recente:

Bases militares estadunidenses próximas ao território chinês.
Bases militares estadunidenses próximas ao território chinês.
  • Em 1951, aviões da USN sobrevoaram em baixa altitude a cidade portuária de Shantou.
  • Em 1993, a USN confiscou à mão-armada por três semanas o cargueiro Yinhe em águas internacionais, alegando que a carga era contrabandeada (e não era).
  • O presidente Clinton enviou duas frotas militares para águas territoriais chinesas, no Estreito de Taiwan, em 1996. O analista militar Michael Thim afirmou que, “a PLAN já tinha poder suficiente disponível em 1996 para que o envio de frotas para o Estreito de Taiwan fosse uma missão suicida. A situação só piorou para a USN nos últimos anos – e não apenas porque a PLAN agora possui um porta-aviões próprio – mas porque a China aprimorou e modernizou muito suas capacidades de impedir o acesso ao seu território.
  • Em um artigo de 2014, “Contendo o dragão” (“Deterring the Dragon”, em inglês) do Instituto Naval dos Estados Unidos, se propôs o uso de minas subaquáticas ao longo da costa chinesa para fechar seus portos principais e destruir suas linhas de comunicação marítimas, além do envio de forças especiais para equipar minorias em Xinjiang e no Tibete.
  • Em 2017, as Forças Aéreas dos Estados Unidos reafirmaram sua disposição em lançar um ataque nuclear contra a China.
  • Em 2018, a Operação Talisman Sabre realizou treinamentos para bloquear o acesso da China ao petróleo através do Estreito de Malaca.

E o povo chinês está muito ciente de nossos esforços em humilhar seu país, como o gráfico abaixo demonstra:

Se houvesse uma guerra envolvendo [seu país], você estaria dispostos a lutar por [seu país]? Alemanha, Reino Unido, França, EUA, Rússia e China.

É o game over?

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] Ajustada pela Paridade do Poder de Compra (PPP, em inglês).

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: