EUA

Soprando ao furacão: cada um colhe o Biden que semeia

É muito possível que Biden vença Trump. Já que para muitas pessoas, não importa o que Biden diga ou não diga, sua coerência. O que importa é que ele é uma nova tela onde nossos maiores medos e esperanças ilusórias podem se projetar.

Por Chris Floyd, via Counterpunch, tradução por Eduardo Pessine

Placa da Wall Street, próxima ao New York Stock Exchange. Via Associated Press.
Placa da Wall Street, próxima ao New York Stock Exchange. Via Associated Press.

As múltiplas e evidentes fraquezas de Joe Biden em uma disputa com o já desgastado mas “bom-de-mídia” Donald Trump são frequentemente apontadas pelos apoiadores de Bernie Sanders como um argumento a seu favor. “Biden irá perder”, eles dizem; “se você realmente quer derrotar Trump, Sanders é a única opção”.

Existem fortes evidências para tal – sem contar o fato de que Sanders tem repetidamente, desde 2015, superado todos os Democratas em pesquisas contra Trump. Certamente, eu prefiro ter Sanders como candidato. E certamente, eu tenho feito campanha contra Biden em publicações impressas e online há mais de 20 anos, denunciando-o como um agente das corporações que cumpriu um papel central no sofrimento de americanos comuns com sua obsessão draconiana por leis criminais e falimentares, sem contar as multidões de inocentes ao redor do mundo que perderam suas vidas graças aos falcões e suas políticas que ele tanto apoia.

Mas enquanto eu odeio dar quaisquer argumentos em favor de Biden, eu acredito que é possível que o velho Joe derrote Trump. Aqui estão como provavelmente serão os rumos da disputa, caso Biden seja o candidato.

Tanto ele quanto Trump viajarão o país por meses, soltando baboseiras para apoiadores que não têm o menor interesse no que os velhos gagás no palanque estão dizendo. Ambos irão jorrar chavões vazios sem oferecer nada remotamente próximo a programas e soluções reais para as inúmeras crises que passamos.Ambos terão suas divagações ocas e incoerentes apresentadas como “debate” ou “posições políticas” dignas de “análises profundas” por parte dos pobres sábios da mídia nacional. Teremos diversas gafes, ataques de fúria, mini-escândalos, juntamente com resultados de pesquisas alucinantes que mudam dia após dia, ou até de hora em hora.

E nada disso terá importância. A política eleitoral dos Estados Unidos está há muito distanciada de como o poder é de fato exercido em nossa sociedade – e do atual estado de degeneração que nossa sociedade moribunda se encontra – e não passa de um desenho animado mal feito, uma série médica com palhaços e charlatões, um ruído de fundo encobrindo todo e qualquer sentimento e pensamento genuíno. Ela é, literalmente, um grito de fúria, sem nenhum significado: precisamente porque não mantém mais nenhuma conexão com a gestão real do poder e a concretude de nossa decadência.

Trump percebeu isso primeiro, mas os Democratas também já acordaram. Você não precisa ter propostas reais. Você não precisa oferecer nenhuma esperança real. Você não precisa nem fazer sentido. A maioria das pessoas está tão afundada na decadência e atormentada pelo ruído que tudo que podem fazer é se agarrar em alguma figura carismática oferecida a eles pelo sistema, e assim, projetar nela toda sua esperança, sonhos, medos e desejos. Mesmo que as figuras oferecidas sejam um par de velhos gagás, vagando pelo país repetindo baboseiras.

A derrota de Sanders em Michigan será o ponto final para muitos, ou o começo do fim de sua empreitada pela candidatura. E no desenrolar da derrota, os apoiadores de Sanders irão – e com razão – apontar para manipulação e inteferência do Comitê Nacional Democrata (DNC, em inglês) na disputa, a série espantosa de “problemas” com cada contagem de votos que podiam beneficiá-lo, o papel desproporcional exercido pelo Big Money (exemplificado pelos recentes apoiadores de Biden, Mike Bloomberg e os magnatas de Wall Street que Biden sonda como possíveis membros do governo), e, o que talvez tenha sido o mais decisivo, o fato que Sanders foi implacavelmente, incessantemente e impiedosamente demonizado e atacado pela mídia – e principalmente pela mídia “liberal”.

É um fato que a maioria dos americanos – cujo mínimo de informações sobre política que absorvem vem através de relances da mídia – nunca verão uma única representação de Sanders que não seja negativa em algum aspecto, ou até em todos os aspectos. E como dito, se torna ainda pior para os Democratas liberais “casuais”, que absorvem informação através do New York Times, MSNBC, National Public Radio, CNN, CBS, American Broadcasting Company, Washington Post, etc. Por lá, Sanders ou é retratado como uma cria demoníaca de Chavez ou Che, que destruirá sua aposentadoria e executará milionários no Central Park – ou como um terraplanista fantasioso com nenhuma habilidade política, ditando assim, que devemos sempre nos curvarmos para o centrista medíocre (seja qual for o escolhido de cada ano, no entanto, independente de quem seja, está sempre à direita do anterior).

Sander teve que bancar sua campanha contra todo o peso da estrutura de poder do bipartidarismo: o Partido Democrata, o Partido Republicano, Wall Street, o Pentágono, as “agências de segurança”, a mídia nacional de forma geral. As contagens de votos das convenções e primárias estão claramente sendo ofuscadas ou, caso tudo dê errado, simplesmente deixadas em grande parte à esmo, como no Texas e na Califórnia.

Mas caso ou quando a campanha de Sanders eventualmente sair do trilho, não acredito que possamos mais colocar toda a culpa totalmente nas costas de atores coniventes da estrutura de poder. A maior parte, sem dúvidas – mas parece haver algo a mais nessa campanha de 2020 (para além do Covid-19). Acredito que, talvez, tenhamos chego a tal ponto da crise em tantos aspectos que as coisas se tornaram grandes demais para que as pessoas entendam, ainda mais lidem com elas realisticamente. Uma combinação estranha de fatalismo e pensamento fantasioso parece ter tomado conta de grandes fatias do eleitorado.

Parece que o sentimento de que não se pode fazer nada para resolver os problemas que nos esmagam – as mudanças climáticas e suas repercussões graves; a ascensão das elites hiper-ricas que manipulam nossas cada vez mais esvaziadas instituições em benefício próprio; a falência de indústria após indústria, região após região, comunidade após comunidade; as guerras intermináveis, ocultas ou evidentes, com a corrupção colossal e ciclos injustificados de violência; o sistema de saúde atroz que leva milhões de pessoas a literalmente a mendigarem por ajuda na internet para tratamentos simples, e por aí vai. Em meio a tudo isso, muitas pessoas abraçam figuras que nos prometem um retorno ao “status quo”: seja uma era mitológica do pós-guerra quando a América era “grande” (Make America Great Again), ou os anos de Obama, quando as coisas eram “normais”.

Sobrecarregadas, feridas, assoladas, ansiosas, sofridas, confusas, muitas pessoas não querem ouvir que muito trabalho e grandes mudanças serão necessárias se quisermos melhorar as coisas. Elas querem apenas agarrar em algo que as fará sentir – e apenas por um momento – mais calmas, que alguém lá de cima, nos círculos de poder, resolverá as coisas por nós.

Esse não é o caminho mais inteligente ao se deparar com uma crise dessa magnitude – mas é totalmente natural e compreensível. Se juntarmos essa reação natural com o já mencionado esforço sistemático para prejudicar a campanha de Sanders, não é nenhuma surpresa que acabemos com uma tela em branco como Joe Biden como candidato.

E pense nisso: a tela em branco de Donald Trump já teve quatro anos de governo, e mesmo assim os sentimentos de ansiedade, sofrimento, confusão não foram embora – de fato, eles aumentaram. Nesse caso, é totalmente plausível, talvez até provável, que pessoas o suficiente troquem a tela quebrada de Trump por uma nova cura para suas angústias.

Então sim, acredito que é muito possível que Biden vença Trump. Já que para muitas pessoas, não importa o que Biden diga ou não diga, sua coerência, suas mentiras, seu histórico atroz, ou o quão diligente é para servir as elites dominantes que degradaram nossa sociedade a esse ponto. Não importa que ele tenha deixado claro que não fará nada em relação à mudança climática, às dívidas estudantis, à críse de saúde, ao militarismo exacerbado, à brutalidade policial, à injustiça econômica, aos baixos salários, à imigração, e por aí vai. O que importa é que ele é uma nova tela onde  nossos maiores medos e esperanças ilusórias podem se projetar por um tempo; onde podemos esquecer, temporariamente, dos imensos desastres que estão se aproximando e fingir que as coisas podem de alguma forma voltarem ao “normal”.

É claro, isso só pode ser feito se ignorarmos que foi a anterior “normalidade” que nos trouxe até aqui – e ao ignorar o fato que as grandes mudanças e convulsões estão se aproximando independentemente de quem seja eleito. Não podemos escapar. A questão é: nós tentaremos lidar com essas transformações visando o bem comum – ou deixaremos que elas assolem nossas vidas da pior forma possível enquanto buscamos uma paz e status quo que nunca existiu, e assim, não pode retornar?

Eu temo que a resposta para isso, meu caro, está soprando ao furação: é aquela que estamos colhendo após semearmos tantos erros por tantos anos – e que aparentemente não temos o conhecimento necessário para mitigá-la, e muito menos evitá-la.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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