Internacional

O petróleo despenca fora do controle dos governos

Atingido tanto por um choque de demanda e de oferta, o petróleo despencou quase 50% nesse ano. A preocupação dos governos que buscam combater os efeitos negativos da queda é que, nesse momento, não há muito o que se fazer.

Por Christian Le Miere, via Asia Times, tradução por Eduardo Pessine

Bombeadoras de petróleo operam ao pôr-do-sol em Midland, Texas, Estados Unidos, 11 de fevereiro de 2019. Foto por Nick Oxford/REUTERS.
Bombeadoras de petróleo operam ao pôr-do-sol em Midland, Texas, Estados Unidos, 11 de fevereiro de 2019. Foto por Nick Oxford/REUTERS.

Na segunda-feira (09/03/2020), os mercados de capitais, energia, de obrigações e de moedas entraram em um turbilhão assim que os preços do petróleo despencaram. Atingido tanto por um choque de demanda e de oferta, o petróleo despencou quase 50% nesse ano. Enquanto os produtores de petróleo devem ser afetados gravemente, os efeitos a longo prazo dessa queda de preços não devem ser tão ruins. A preocupação dos governos que buscam combater os efeitos negativos da queda é que, nesse momento, não há muito o que se fazer.

A motivação para a liquidação do petróleo na segunda-feira (09/03/2020) foi o fracasso dos acordos entre a Rússia e a OPEC para reduzir ainda mais a produção do óleo. Essa foi a maior queda de preços desde a Guerra do Golfo em 1991 – o petróleo bruto Brent chegou à US$34, uma queda de 24% – e ocorre apenas 5 anos depois de outro colapso em 2014-15, quando os preços caíram de US$115 para US$30 em 18 meses.

Na época, a OPEC e a Rússia chegaram eventualmente em um acordo para reduzir a produção em 1,8 milhões de barris por dia (mbpd). Isso equivalia a cerca de 2% da produção mundial. Dessa vez, como Riade pressionou por cortes ainda mais agressivos de cerca de 3,5%, Moscou não concordou.

Sem acordos entre a OPEC e países de fora da organização, a Arábia Saudita fez o mesmo que em 2014 – lançou uma guerra de preços aumentando a produção e abaixando oos preços na Ásia e Europa para aumentar sua fatia de mercado.

Os sauditas podem levar a cabo essa estratégia agressiva já que seus custos de produção são muito baixos. O custo para produzir e transportar um barril de petróleo na Arábia Saudita (e outros estados do Golfo Árabe) é de menos de US$10. Na Rússia, é de US$30. Nos Estados Unidos, está próximo dos US$50.

Assim, aumentando a produção e forçando uma queda de preços, Riade está pressionando os produtores de alto-custo, particularmente os EUA, onde a produção aumentou de 5,5 mbpd para 12,8 mbpd em 2009, ultrapassando a Arábia Saudita e a Rússia como maior produtor mundial. Na última vez que os sauditas utilizaram essa estratégia em 2014-15, 1 milhão de barris foram removidos da produção estadunidense, já que diversos poços se tornaram não-lucrativos.

Mas essa política têm seu ônus: o preço de equilíbrio fiscal para a Arábia Saudita é de aproximadamente US$83 por barril. Isso significa que a cada dólar abaixo desse valor, Riade precisa emprestar dinheiro para financiar seus gastos. Em 2012, os sauditas tiveram um superávit acima de 13% do PIB; após o crash do petróleo, tiveram um déficit de 15% do PIB em 2015. Dessa forma, Riade teve de emprestar US$100 bilhões naquele ano para tapar o rombo no orçamento.

Isso é um fato para todos os países dependentes do petróleo como fonte primária de receita pública, particularmente no Oriente Médio. O preço de equilíbrio fiscal em toda a região do Golfo Pérsico é muito maior do que os preços atuais do petróleo: nos Emirados Árabes é de US$70, em Omã é de US$87, em Barém é de US$92, e no Irã, US$195. Todos esses países serão forçados a emprestar mais dinheiro, cortar custos ou gastar suas reservas (que nos casos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes estão na casa das centenas de bilhões de dólares).

Para países endividados – a relação dívida-PIB do Barém já está próxima dos 100%, por exemplo – a probabilidade de uma crise sistêmica é grande.

Para outros países produtores, os efeitos devem ser menos severos, mas ainda assim substanciais. Na Rússia, o preço de equilíbrio fiscal é de US$42 por barril, mas sua moeda provavelmente irá ser afetada (já havia caído mais de 8% na segunda-feira) e pode gerar uma outra crise no país.

Nos Estados Unidos, um preço tão baixo por um período longo poderá pressionar sua própria produção de petróleo. Mas a economia como um todo é muito menos dependente dessa indústria, e reduções no preço da gasolina causam um estímulo efetivo para o consumo, o principal condutor na economia estadunidense. Um relatório da Brookings Institution em 2016 sugeriu que a queda de preços do pretróleo em 2014-15 teve um efeito quase nulo na economia já que o aumento do poder de consumo foi balanceado pela redução do custo do petróleo.

Para países importadores, a queda dos preços pode significar um impulso muito oportuno. A China já é o segundo maior consumidor de petróleo e o maior importador. Em 2019, a China importou a quantidade recorde de 10.1 mbpd. Se o preço se manter onde está, significará um desconto de US$30 por barril nesse ano, com a China poupando mais de US$100 bilhões. Essa ajuda não poderia vir em melhor hora para economia chinesa, que ainda se recupera de uma quase paralisação em fevereiro devido ao surto do coronavírus.

Outros grandes importadores, como a Índia, que no ano passado gastou cerca de US$100 bilhões em petróleo, pode poupar aproximadamente 1,5% do PIB em uma queda de 50%, enquanto economias atingidas pelo coronavírus como a Itália podem ver o valor de suas importações caírem na casa de US$15 bilhões ou 0,75% do PIB.

O colapso dos preços do petróleo terão assim uma série de efeitos: negativos para economias dependentes do petróleo no Oriente Médio, efeitos potencialmente catastróficos para economias endividadas, efeitos macroeconômicos neutros para os EUA e efeitos positivos para importadores na Ásia e Europa.

Mas o efeito nos mercados e na indústria serão dramáticos: na segunda-feira, o índice Dow Jones caiu 7,8% e FTSE 100, majoritariamente de commodities, caiu mais de 7,7%. A indústria de xisto nos EUA sofreu o maior impacto, já que preços mais baixos também representam menor investimento de capital, restringindo os projetos de óleodutos potencialmente por décadas.

O preço do petróleo foi pego entre a Cila[1] de um choque de demanda – a maior queda desde a Grande Depressão – e a Caribde de um choque de oferta. Os governos já começaram a reagir à piora do cenário econômico com estímulos monetários na forma de reduções nas taxas de juros. Provavelmente serão acompanhados de estímulos fiscais para dar apoio às indústrias afetadas e do petróleo para reeguer as economias que dependem do ouro negro.

Mas ainda que essas medidas remediem os sintomas, as causas sistêmicas do colapso do petróleo estão fora do controle dos governos. Até que a demanda cresça conforme a crise do coronavírus se estabilize na China e no mundo, ou a oferta seja restrita através de uma redução na produção de xisto estadunidense ou um novo acordo da OPEC, ainda haverão muitos problemas para os produtores ao longo de 2020.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] A expressão “Entre Cila e Caribde” é uma forma de dizer se estar “num dilema, em perigo iminente, em grande dificuldade”.

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