América Latina

Quem irá vencer as eleições na Bolívia?

Por Alfredo Mancilla, via CELAG, tradução por Eduardo Pessine

Ex-presidente boliviano Evo Morales (esquerda) e o atual candidato à presidência pelo Movimento para o Socialismo (MAS), Luis Arce (direita), durante coletiva de imprensa em Buenos Aires, Argentina, 27 de janeiro de 2020. Foto por Aitor Pereira/EFE.
Ex-presidente boliviano Evo Morales (esquerda) e o atual candidato à presidência pelo Movimento para o Socialismo (MAS), Luis Arce (direita), durante coletiva de imprensa em Buenos Aires, Argentina, 27 de janeiro de 2020. Foto por Aitor Pereira/EFE.

O golpe de estado na Bolívia sacudiu o tabuleiro político e eleitoral, no entanto, o MAS ainda se mantém no topo das intenções de voto.

Nessa época do ano, a Bolívia já deveria estar às portas de uma disputa eleitoral que nada teria a ver com a presidencial. O previsto, segundo o cronograma do ano passado, era que na segunda quinzena de março aconteceriam as eleições subnacionais (departamentos e municípios). Entretanto, a interrupção da ordem democrática alterou absolutamente tudo que havia planejado, e estamos agora a menos de dois meses da decisão de quem será o próximo presidente da Bolívia.

Estas são eleições totalmente anômalas por muitas razões: (I) acontecem sob a gestão de um governo não-eleito; (II) estão muito próximas das eleições anteriores (20 de outubro de 2019); (III) não compete quem foi o principal candidato do país dos últimos 15 anos (Evo Morales foi proscrito inclusive de uma candidatura ao Senado); (IV) diversas instituições (MIT, CEPR, CELAG) têm demonstrado que não houveram fraudes, ao contrário do que manifestou a OEA sem prova alguma; (V) existem poucas garantias democráticas devido ao alto grau de perseguição judicial contra os dirigentes do governo anterior e (VI) a Bolívia está envolta em uma grave crise institucional e política.

Depois de toda grande ruptura é fundamental conhecer e identificar como se reacomodaram os significados comuns da cidadania em todos os planos, desde o ideológico, as subjetividades econômicas e, certamente, até as preocupações cotidianas. É por isso que, dando seguimento, vamos apresentar alguns aspectos característicos da Bolívia de hoje com base na pesquisa elaborada pelo CELAG (2000 entrevistados presencialmente em todo o país, em regiões rurais e urbanas).

1. Novamente se constata algo que nenhum golpe de estado pode efetuar: desaparecer subitamente com a principal força política de um país. O candidato do MAS, Luis Arce, tem 33,1% de intenções de voto e, muito atrás, se encontra Jeanine Áñez com 20,5%; logo depois aparecem Carlos Mesa (17,4%) e Fernando Camacho (7,4%). Ainda é cedo para saber se essa diferença permite a Arce vencer no primeiro turno (é necessário superar 40 pontos percentuais e uma diferença de 10 sobre o segundo colocado); mas o que se pode afirmar é que, nesse momento, é a opção eleitoral com mais apoio no país, assim como nos últimos anos.

2. Arce tem espaço para ampliar seus votos. Seu teto eleitoral está próximo dos 40%. Mas devemos levar em conta que seu nível de desconhecimento é muito alto (cerca de 25%), e assim, ainda tem grande margem para subir nas intenções de voto. Arce tem a vantagem de contar com uma avaliação muito positiva como Ministro da Economia (54,8%), e além disso, em termos comparativos, a população boliviana o vê com maior capacidade de governar e com maior compromisso com os necessitados do que seus rivais.

3. Por sua vez, Áñez se coloca como a grande competidora para Arce. A atual presidenta de facto não tem tantas intenções de voto (20,5%) e potenciais eleitores (40%). Seu teto eleitoral é o dobro de suas intenções de voto. E a única razão para tal é muito simples: ela se converte na provável canalizadora dos votos úteis contra Evo. Esse foi o fenômeno político que marcou as eleições anteriores e faz com que o primeiro turno tivesse o espírito de segundo. E desta vez a grande incógnita é saber se os eleitores de La Paz simpatizantes de Mesa estarão dispostos a apoiar Áñez (a candidata do leste). No entanto, Áñez também tem seus pontos negativos: por um lado, quase dois terços (64,6%) crêem que ela não deveria ter se colocado como candidata à presidência e, por outro lado, mais da metade (54,4%) acredita que ela pode cometer fraudes nas próximas eleições.

4. Na Bolívia existe uma grande sensação negativa em torno de vários problemas: violência contra as mulheres (80,4%), potencial desvalorização da moeda (68,5%), medo de perder o emprego (63,3%). Além disso, 82,6% acreditam que segue existindo o racismo e que é algo a ser superado, 85,5% considera que os programas sociais são necessários, e apenas 31,1% pensam que as privatizações melhoram o funcionamento da economia.

Esses são exemplos claros que demonstram que o processo de transformação na Bolívia não foi em vão, e que ainda predominam esses sentimentos comuns no imaginário coletivo. Isto faz com que o panorama eleitoral seja mais favorável para Arce do que para os demais. Mas considerando tudo que ocorreu nos últimos meses, tudo pode acontecer nas próximas eleições; antes, durante e também depois.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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