Oriente Médio

O desastre na Síria retrata a deslealdade sem fim da política externa dos EUA

Por James Bovard, via Counterpunch, tradução por Eduardo Pessine

Refugiados sírios andam no campo de Atme, próximo à fronteira turca ao noroest da Síria, na província de Idlib, no dia 29 de março de 2013. Foto por Bulent Kilic/AFP.
Refugiados sírios andam no campo de Atme, próximo à fronteira turca ao noroeste da Síria, na província de Idlib, no dia 29 de março de 2013. Foto por Bulent Kilic/AFP.

A Turquia está intensificando sua invasão na Síria e busca trazer a OTAN para o projeto de “reabilitação” de Erdogan. Ameaças e contra-ameaças estão sendo atiradas tanto quanto as bombas e balas. Resta saber se os dirigentes estadunidenses irão cair nesse jogo.

Em outubro do ano passado (2019), o establishment de Washington aparentou se espantar quando o presidente Donald Trump aceitou uma invasão dos turcos no norte da Síria. A atitude foi vista como os EUA abandonando os curdos, muitos dos quais se aliaram com os yankees na luta contra o ISIS e outros grupos terroristas. Mas a indignação em relação a recente reorientação política no Oriente Médio é uma farsa se considerarmos o longo histórico de traições dos EUA. Ao invés do triunfo do idealismo americano, a política estadunidense recente tem sido de deslealdade sem fim com doses frequentes de cretinismo.

Quase nenhuma cobertura da mídia sobre a invasão turca e da massa de refugiados curdos mencionou que o presidente George H. W. Bush incitou que os curdos e outros iraquianos “forçassem, com suas próprias mãos, a queda do ditador Saddam Husseim” durante os bombardeios em 1991 na primeira Guerra do Golfo. Após se tornar claro que o exército dos EUA não seria capaz de proteger os curdos das retalhações de Saddam, os dirigentes estadunidenses basicamente encolheram os ombros e lavaram as mãos. Como a CNN publicou em 2003, “Bush se absteve de dar apoio aos curdos rebeldes ao norte, embora tenha finalmente enviado tropas e suprimentos para socorrer centenas de milhares de curdos refugiados que estavam sob o risco de morte por hipotermia e fome. Bush nunca se arrependeu de sua decisão de não intervir”. O abandono e traição dos curdos por George H.W. Bush não impediu a mídia e o establishment político de santificá-lo após sua morte ao final de 2018.

As intromissões dos EUA no Oriente Médio se multiplicaram após os ataques de 11 de setembro. Apesar da maioria dos sequestradores serem sauditas, que receberam assistência considerável do governo de seu país, o governo de George W. Bush usou da oportunidade para demonizar e atacar Saddam Hussein no Iraque. O presidente Bush retratou sua invasão do Iraque como o mais puro idealismo americano. Em seu discurso de “missão cumprida” no 1º de maio de 2003, abordo do USS Abraham Lincoln, Bush saudou “o caráter de nossas forças armadas ao longo da história” por demonstrarem “a decência e o idealismo que transformaram inimigos em aliados”. Discursando três semanas depois em uma campanha republicana, Bush se gabou, “o mundo viu a força e o idealismo das forças armadas dos Estados Unidos”. O colunista David Ignatius do Washington Post declarou no final de 2003 que “essa deve ser a guerra mais idealista travada nos tempos modernos”. O escândalo de Abu Ghraib – onde ocorriam torturas e abusos dos prisioneiros – também não impediu a recente semi-canonização de George W. Bush pela mídia.

A administração Bush e seus aliados midiáticos produziam uma cortina de fumaça atrás da outra para santificar a guerra. Praticamente todas as notícias às vésperas da invasão foram produzidas pelo governo federal. Bill Moyers da PBS apontou que “das 414 transmissões em horário nobre a respeito do Iraque na NBC, ABC e CBS, de setembro de 2002 até fevereiro de 2003, praticamente todas possuíam fontes que podiam ser traçadas da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado”. Um relatório de 2008 feito pelo Center for Public Integrity concluiu que “em discursos, coletivas, entrevistas e outros meios, Bush e integrantes do governo afirmaram categoricamente em pelo menos 532 ocasiões que o Iraque possuía armas de destruição em massa ou buscava produzí-las ou obtê-las, e/ou mantinha ligações com a Al-Qaeda”. O relatório apontou que as “afirmações falsas – amplificadas por milhares de notícias e transmissões” criaram “um ruído praticamente impenetrável nos meses críticos às vésperas da guerra”. As mentiras de Bush sobre o Iraque se provaram mais tóxicas do que qualquer coisa do arsenal de Saddam. Mas a exposição das mentiras oficiais não impediram o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld de igualar os críticos da guerra do Iraque à admiradores de Adolf Hitler em 2006.

O caos causado pela invasão do Iraque em 2003 ainda estava fora de controle quando o governo Bush começou a buscar pretextos para atacar o Irã, designado por Bush como parte do “Eixo do Mal” em seu discurso do “State of the Union” em 2002. Integrantes desse governo e do seguinte escolheram apoiar o grupo terrorista Mujahideen-e-Khalq (MEK). Esse grupo surgiu nos anos 1960, assassinou americanos nos anos 1970 e passaram a atacar iranianos nas décadas seguintes. O relatório de 2004 do FBI apontou que o MEK continuou “envolvido ativamente no planejamento e na execução de atos de terrorismo”. A NBC News reportou no começo de 2012 que o MEK praticou assassinatos de cientistas nucleares do Irã e que era “financiado, treinado e armado pelo serviço secreto de Israel”.

Esse foi o mesmo ano em que diversos corruptos em Washington receberam grandes quantias de dinheiro para apoiarem publicamente a retirada da MEK das listas de organizações terroristas. Como Trita Parsi apontou na New York Review of Books, o MEK “alugou escritórios em Washington, auxiliaram na arrecadação de recursos para campanhas de parlamentares e ofereceram pagamentos para membros do governo comparecerem em suas reuniões. O MEK fez isso abertamente durante anos, mesmo constando nas listas de grupos terroristas do governo estadunidense”. Leis federais proibiam receber dinheiro ou advogar em causa de qualquer um dos grupos terroristas listados. Mas, como o Huffpost afirmou na manchete em 2011, “Ex-membros do governo dos EUA fazem milhões advogando em causa de organização terrorista”. O ex-chefe do FBI Louis Freeh, ex-chefe da CIA Porter Goss, co-membro da 9/11 Commission Lee Hamilton, ex-Procurador Geral Michael B. Mukasey, ex-Secretário de Segurança Interna Tom Ridge receberam $30,000 ou mais por breves discursos em eventos pró-MEK. Glenn Greenwald expôs corretamente que a defesa do MEK “revela a impunidade com a qual as elites políticas cometem os crimes mais graves, para além dos privilégios que eles explicitamente acreditam ter direito”. Greenwald apontou que pessoas comuns  são flageladas pelas mesmas leis que os poderosos passam por cima: “Um vendedor de TV à cabo de Staten Island foi sentenciado a cinco anos de prisão em 2009 por meramente incluir um canal de TV do Hezbollah como parte do pacote que vendia aos clientes”.

Devido a grande pressão interna, o governo Obama cancelou a listagem do MEK como grupo terrorista em 2012. Enquanto os poderosos de Washington continuavam a retratar o grupo como guerreiros idealistas pela liberdade e pela democracia, uma simples busca online mostra que a tradução iraniana para o nome do grupo é “guerreiros sagrados do povo”, como Ted Carpenter relatou em seu novo livro, “Gullible Superpower”. Os membros do governo Trump têm especulado sobre um possível governo da MEK no Irã após a derrubada do atual regime. Mas o MEK continua odiado pelo povo iraniano mesmo com o sucesso publicitário do grupo dentro de Washington.

Os fracassos anteriores da política externa estadunidense no Oriente Médio não fizeram com que a revolta com a retirada das tropas do leste da Síria por Trump fosse contida. O Congresso mostrou indignação maior em relação à uma retirada de tropas do que em relação a todas as vidas perdidas de soldados americanos em conflitos injustificados nos últimos 18 anos. A Câmara dos Representantes repudiou Trump por 354 votos a 60, e o deputado Eliot Engel (Democrata), membro da Comissão de Relações Exteriores proclamou, “Nas mãos do presidente Trump, a liderança americana foi rebaixada, e a política externa americana se tornou nada mais que uma ferramenta para avançar seus próprios interesses”. O senador Richard Blumenthal (Democrata), afirmou que sentiu “horror e vergonha” da ação de Trump. O colunista da Boston Globe Stephen Kinzer rotulou prontamente o protesto do Congresso como “um exemplo clássico de um ‘buffet de revoltas’, no qual cada um escolhe quais horrores condenar”.

O presidente Barack Obama prometeu 16 vezes que não haveriam tropas estadunidenses na Síria; quando Obama descumpriu sua promessa, o Congresso não fez nada. Os planos de Trump de manter menos tropas em solo sírio – ou pelo menos em parte dele – de alguma forma se tornou o equivalente moral de devolver o Alaska para a Rússia. Especialistas atacaram políticos que defendiam a retirada de tropas como “infiltrados russos” – em outras palavras, traidores.

A Síria nos relembra que o “apoio material ao terrorismo” só é um crime federal se você não trabalha para a CIA, o Departamento de Estado, o Pentágono, ou a Casa Branca. Depois que o presidente Barack Obama, e os ex-secretários de Estado Hillary Clinton e John Kerry declararam publicamente que o presidente sírio Assad deveria ser derrubado, os EUA passaram a armar grupos terroristas para desestabilizá-lo. Os imaginários “rebeldes sírios moderados” não conquistaram nada. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK, o grande beneficiário da ocupação estadunidense, é considerado um grupo terrorista pelo governo dos EUA desde 1997. Evan McMullin, um candidato presidencial de 2016, admitiu no Twitter: “Meu papel na CIA foi convencer operadores da Al Qaeda para trabalharem conosco”. Esses absurdos motivaram a deputada Tulsi Gabbard, democrata do Havaí, a propor o Stop Arming Terrorists Act em 2017, que visava proibir qualquer financiamento estadunidense à grupos terroristas. A proposta de Gabbard foi majoritariamente ignorada e nunca foi ao plenário, mas mesmo assim sua postura crítica da política externa dos EUA fez com que Hillary Clinton e outros a demonizassem.

Políticos importantes e grande parte da mídia culparam Trump pelos ataques a civis que se seguiram à invasão turca, feitos em grande parte por grupos aliados da Turquia. Grupos terroristas armados pelos EUA envolvidos na invasão também libertaram membros do Estado Islâmico presos. Um think tank turco analisou os grupos violentos que cometeram atrocidades na Síria após o início da invasão turca; “Das 28 facções, 21 foram anteriormente apoiadas pelos EUA, 3 delas através do programa do Pentágono para combater o Daesh. Dezoito dessas facções foram supridas pela CIA”. Um jornalista proeminente da Turquia narrou após a invasão na Síria: “Os grupos que foram treinados e equipados pelos EUA no oeste do Eufrátes agora estão lutando contra os grupos do leste do rio, que também foram treinados e equipados pelos americanos”. Isso não é novidade: em 2016, rebeldes sírios apoiados pelo Pentágono entraram em conflito com rebeldes apoiados pela CIA. Um importante oponente de Assad que organizou conferências de grupos anti-governo financiados pela CIA teve seu pedido de asilo político negado em 2017, devido ao seu apoio para o Exército Livre da Síria (FSA), o que significava que havia “participado de atividades terroristas”, de acordo com o Departamento de Segurança Interna. Uma forte pressão midiática causou um recuo da decisão, mas a mídia geralmente ignorou as outras contradições na política dos EUA na Síria.

Membros do Congresso se indignaram que civis sírios sofreram como resultado da retirada das tropas por Trump. Mas tanto o Congresso quanto a maioria da mídia estadunidense ignoraram as mulheres, crianças e homens sírios que morreram devido à política externa estadunidense que intensificaram e prolongaram a guerra civil no país. É um comportamento comum em Washington: as únicas mortes reconhecidas são aquelas políticamente úteis.

Apesar das declarações esporádicas de Trump sobre a Síria, os EUA ainda mantêm mais de 50,000 tropas no Oriente Médio. Para evitar que o país se atole na lama novamente, deveria retornar suas tropas para casa o quanto antes. As fraudes e ingerências intermináveis de sua política no Oriente Médio nos dá um dos maiores argumentos para que os EUA se preocupem apenas com o que lhes diz respeito.

James Bovard é o autor de “Attention Deficit Democracy”, “The Bush Betrayal”, “Terrorism and Tyranny”, e outros livros. Bovard é colaborador da USA Today. Seu twitter é @jimbovard. Seu site é www.jimbovard.com. Esse artigo foi publicado originalmente pela Future of Freedom Foundation.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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