Ásia

A grande fuga: a erradicação da pobreza na China

Ao realizar seu objetivo de construir uma “sociedade moderadamente próspera”, 2020 será o ano em que a China finalmente alcançará seu objetivo de eliminar a pobreza extrema.

Por David Gosset, via China Daily, tradução por Eduardo Pessine

Chineses participam de cerimônia para distribuição anual de dividendos no vilarejo de Daoping na cidade de Longnan, ao noroest da província de Gansu, no dia 7 de janeiro de 2020. Via Xinhua.
Chineses participam de cerimônia para distribuição anual de dividendos no vilarejo de Daoping na cidade de Longnan, ao noroeste da província de Gansu, no dia 7 de janeiro de 2020. Via Xinhua.

A conquista chinesa de erradicação da pobreza tem importância global: é fácil perder de vista os numerosos aspectos positivos da transformação pela qual o país passou em meio aos recentes ataques direcionados à China.

Uma das conquistas mais importantes dos últimos 70 anos desde a fundação da República Popular da China está relacionada à redução da pobreza. Na lista dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, a erradicação da pobreza vem, precisamente, em primeiro lugar.

Ao realizar seu objetivo de construir uma “sociedade moderadamente próspera”, 2020 será o ano em que a China finalmente alcançará seu objetivo de eliminar a pobreza extrema. Dado a importância demográfica do país – com 18% da população mundial – esse positivo avanço é uma grande contribuição para o progresso humano.

Existem diversos fatores interdependentes que permitiram esse feito. Primeiramente, o sistema de governo chinês permitiu uma mobilização coletiva altamente eficiente. Mais especificamente, a partir do momento em que o Partido Comunista da China define claramente um objetivo, as organizações políticas do país são aptas para utilizar todos os recursos disponíveis para atingí-lo.

Além da capacidade de mobilizar, uma das vantagens do sistema chinês é sua continuidade ao longo do tempo. Essa continuidade é essencial para transformar uma sociedade tão grande quanto a da China.

A China também foi capaz de seguir seu próprio modelo de desenvolvimento. Enquanto diversas nações optaram por seguir o “Consenso de Washington” – forjado pelo Banco Mundial e pelo FMI em torno que um conjunto de ideais ocidentais – a China trilhou seu próprio caminho em direção ao “Consenso de Pequim”, que leva em conta as especificidades de uma civilização milenar.

Desde 1978, é a combinação das forças do estado e do mercado que definem a sociedade Chinesa, ou o que é oficialmente descrito como a “economia de mercado socialista”. Como o ex-líder chinês Deng Xiaoping dizia: “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que ele agarre o rato”. Pode-se dizer que a erradicação da pobreza foi um “rato” que a China certamente agarrou.

Na batalha contra a pobreza, as autoridades chinesas puderam focar-se nas prioridades certas. A capacidade de moldar uma sólida infraestrutura permitiu o progresso da China. O país seguiu a idéia de um famoso ditado popular: “Quer ser rico? Então primeiro construa estradas!”.

Paralelamente com essa atenção à infraestrutura, o país elevou as taxas de alfabetização a níveis extraordinários. Enquanto cerca de 71% da população é considerada alfabetizada na Índia, o índice na China chega à impressionantes 96%, com uma educação que também contribui para a emancipação das mulheres.

Na lista estabelecida pela ONU em 2015, “Saúde e Bem-estar” vem em terceiro lugar. Seguindo o sucesso da estratégia de reformas e abertura, a China tem conseguido construir um sistema de saúde básica. Com o Novo Sistema de Cooperativas Médicas Rurais (NRCMCS) criado em 2005, 800 milhões de habitantes das áreas rurais tiveram acesso ao atendimento médico.

No livro “A Grande Saída”, o vencedor do prêmio Nobel, Angus Deaton escreveu: “A grande fuga da história humana é a fuga da pobreza e da morte”. É por sua análise sobre a pobreza e assistência social que Deaton recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2015. A grande fuga da China da pobreza também tem sido uma fuga da morte. Em 1949, a expectativa de vida no país era de 35 anos. Atualmente, é de 77 anos. No entanto, como a epidemia do novo coronavírus demonstrou, o sistema de saúde da China ainda tem de fato muito a melhorar.

Uma urbanização relativamente harmoniosa também pode ser vista como um elemento à contribuir para a redução da pobreza. “Cidades e Comunidades Sustentáveis” é o 11º objetivo da lista da ONU. Cidades geram empregos, no entanto, diversas cidades ao redor do mundo são diretamente associadas às favelas. A capacidade da China de prevenir esse fenômeno que afeta tantos centros urbanos pelo mundo é uma conquista admirável.

O recado enviado da China para o mundo não pode ser mais claro: a pobreza não é um destino inevitável. Ela pode ser derrotada. Em 2018, quando Pequim estabeleceu a Agência Chinesa de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional (CIDCA), o país também demonstrou um poderoso gesto. Seguindo seu próprio sucesso, a China já está organizando sua assistência aos países menos avançados.

Assistência médica na Mauritânia, Uganda, Líbia, Comores ou Sudão do Sul; apoio humanitário no Afeganistão, Cuba, Irã ou Somália; programas educacionais na Tunísia, Gana, Maldivas ou Costa do Marfim; ou colaboração tecnológica com o Paquistão, Nigéria ou Laos, a CIDCA já é uma das principais agências de cooperação internacional.

Entretanto, não existe pois, o fim da História. Após resolver a questão da erradicação da pobreza, a China ainda têm desafios pela frente. Em 1978, a idéia de desigualdade não se aplicava à realidade do país. O que geralmente é referido como a divisão entre cidade e campo também precisa ser articulado com o desequilíbrio geográfico.

O desafio demográfico também é outra questão que não pode ser subestimada. Assim como muitos dos países vizinhos, a China possui uma grande população envelhecida. Enquanto a China precisará encontrar formas de reduzir as desigualdades – reformas fiscais provavelmente serão necessárias para tal – também precisará escapar da chamada “armadilha da renda média”, como chamam os economistas.

De maneira geral, pode-se dizer que a mudança de expectativas do povo chinês que impõe um novo conjunto de problemas. Depois que as necessaridades materiais imediatas são supridas, outros aspectos qualitativos da vida precisam ser contemplados. A população urbana e hiperconectada que habita Pequim, Xangai, Xiamen, Guangzhou ou Shenzhen está cada vez mais demandando melhor educação, saúde e qualidade de vida. Essa transição de quantidade para qualidade terá de ser conduzida com cautela.

As lideranças da China já identificaram os “desequilíbrios e falhas” que caracterizam a nova fase de transformação chinesa. Isso maximiza a chance de redirecionar e solucionar seus problemas.

Ao continuar seu progresso em seu próprio caminho de reformas e abertura, a China irá certamente superar seus novos desafios e, ao fazê-lo, irá contribuir para a estabilidade e prosperidade global.

O autor do texto é um estudioso da China e fundador do Fórum Europa-China. Contribuiu com esse artigo ao China Watch, um think-tank fomentado pelo China Daily. Suas visões não necessariamente refletem as do China Daily.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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