EUA

A “conspiração russa”: uma arma política desde a Guerra Fria

Por Helen Buyniski, via RT, tradução por Eduardo Pessine

Manchetes da mídia mainstream ocidental alegando conexões do presidente Trump com "os russos". Via RT.
Manchetes da mídia mainstream ocidental alegando conexões do presidente Trump com “os russos”. Via RT.

A idéia de uma “coalizão com os russos” não surgiu com o presidente Donald Trump em 2016 – acusações de receber apoio dos “russos malvados” perseguiram candidatos que colidem com o establishment desde a década de 1960.

Trump pode ser o candidato mais conhecido por atrair acusações de ser uma “marionete de Putin”, mas ele não foi, definitivamente, o primeiro. A Guerra Fria foi marcada nos EUA pela “ameaça vermelha”, que levava políticos a acusarem seus oponentes de fazerem o jogo dos russos, seja por ignorância, seja por serem “espiões soviéticos”. Apesar desse padrão ter perdido eficácia após a queda da URSS e a guinada de Washington para espalhar o medo em relação ao terrorismo islâmico (que ironicamente, eles ajudaram a criar, fomentando os mujahideen contra os soviéticos na guerra do Afeganistão), ele retornou com força agora que a dominância geopolítica dos EUA está colocada em cheque.

Barack Obama

As eleições de 2016 foram recheadas de alegações sobre conspirações russas, mas apenas 4 anos antes, o Moscow Times – um jornal publicado em inglês considerado simpático ao ocidente – publicou um artigo entitulado “Porque Putin quer que Obama vença” (“Why Putin Wants Obama to Win”, em inglês). Como Mitt Romney – o bilionário republicano que disputava com Obama – declarou a Rússia como “inimigo geopolítico nº 1” dos EUA, enquanto Putin havia chamado Obama de “um homem honesto que realmente deseja mudar muita coisa para melhor”; Obama seria a escolha de Putin, segundo o autor.

No entanto, até ali os EUA e a Rússia mantinham boas relações, então ser o favorito de Putin, por esse breve período, ainda não era uma sentença de morte política.

Mas Obama se tornou um “alvo” dos russos apenas alguns anos depois – pelo menos segundo a agência de cibersegurança Area 1, fundada por aprendizes da NSA e pelos conspiracionistas da Crowdstrike. Capitalizando no reavivamento da Guerra Fria pela mídia, a Area 1 publicou um relatório em maio de 2017 associando uma série de ciberataques datados da campanha presidencial de Obama em 2008 à Rússia – juntamente com ataques direcionados ao seu rival de 2008, o mega-falcão republicano John McCain.

Não ficou claro qual candidato os russos estariam ajudando com as supostas “cibermaracutaias”, especialmente porque os poucos alvos nomeados pela Area 1 não sabiam que haviam sido atacados, e relatórios da época sobre os ciberataques apontavam para a China. No entanto, Moscou deveria claramente odiar Obama. O artigo da Newsweek que acompanhou o relatório citou o notório russófobo Michael McFaul se gabando sobre o quanto é odiado por Moscou, que seus “colegas, assistentes e pessoas do tipo” em Stanford são atacados “regularmente” pela Rússia, mesmo ele não fazendo mais parte do governo.

A mudança em poucos anos de “Putin adora Obama” para “os russos odeiam o Obama e sempre o odiaram” deveria deixar claro o quão frágil é a construção da narrativa sobre a “interferência russa” na política estadunidense. Com alianças que mudam de acordo com as necessidades do establishment político, o “espantalho russo” é facilmente usado contra qualquer candidato que pareça pacifista demais, nacionalista demais ou populista demais – basicamente quaisquer divergências em relação às diretrizes do establishment.

Jimmy Carter

Da mesma forma, Jimmy Carter – um ex-governador de Georgia sem conexões políticas com a elite – recebeu o rótulo de “marionete russa” em 1976 quando disputava o maior cargo do país. “Assessores afirmam que Carter é cortejado por russos” (“Aides say Carter is courted by Russians”, em inglês), publicou o New York Times, alegando que os assessores do candidato estavam incomodados com o contato com um grupo de “oficiais da embaixada soviética, expressando interesse na disputa eleitoral e insuando que poderiam tomar medidas que possivelmente influenciariam nos resultados”. O artigo incluía protestos de “especialistas em assuntos soviéticos”, declarando que nunca antes haviam visto algo tão absurdo como os contatos de Carter.

“Acredito que eles estavam tentando nos dizer que vêem as eleições presidenciais como uma oportunidade de interferir em nossa política, e que têm capacidade de influenciarem nos resultados”, declarou um assessor anônimo ao NYT, que reservou apenas uma linha para o fato de que a campanha de Carter também teve contato com diplomatas franceses e britânicos.

As eleições de 1976 também foram palco do movimento “Qualquer um menos Carter” (“Anyone But Carter”, em inglês) por parte dos rivais democratas do candidato, ameaçados pelo status de outsider do ex-presidente. A plataforma do relativamente desconhecido ex-governador da Georgia incluía uma redução de 5% nos gastos militares e a “manutenção de relações amigáveis com a Rússia”, e chocou o establishment político ao costurar primárias muito competitivas contra 14 oponentes. Após quatro anos no cargo, no entanto, fez inimigos poderosos, sem contar os Acordos de Camp David que forçaram Israel a retornar a Península do Sinai ao Egito. Conspirações externas não-russas reais podem ter contribuído para removê-lo do cargo. Mas a verdade é irrelevante para essa narrativa.

John F. Kennedy

No mesmo artigo que pintou Carter como o favorito dos russos, o NYT declarou que a Rússia vinha interferindo nas eleições desde 1960, quando “os especialistas em Rússia acreditavam que os russos haviam atrasado a libertação do piloto espião do U2, Francis Gary Powers, para aumentar as chances de John F. Kennedy vencer Richard Nixon”.

O rótulo de “JFK como favorito dos soviéticos” foi especialmente popular talvez porque – diferente da maioria das alegações de “conspirações russas” – existem algumas provas documentais que o comprovam no livro de memórias do ex-líder soviético Nikita Khrushchev. Ele afirmou que foi a decisão de seu governo de não libertar Powers (juntamente com dois outros prisioneiros estadunidenses do bombardeiro capturado), que alavancou a campanha de Kennedy para a vitória. Confrontado com essa afirmação em uma reunião com os soviéticos, JFK, segundo Khrushchev, riu e concordou que a jogada o havia ajudado. O ex-embaixador soviético Oleg Troyanovsky, no entanto, recorda Kennedy negando que “interferências” tenham tido qualquer efeito nas eleições.

Futuramente JFK entraria no famoso conflito com a Rússia devido aos mísseis em Cuba, levando o mundo a beira de uma guerra nuclear, mas esforços anteriores para mover os EUA na direção da paz com a URSS não foram bem vistos pelo establishment político.

A John Birch Society – o notório grupo de direita e anti-comunista – iria acusar Kennedy de “fazer amizade com nossos inimigos” – incluindo a Rússia – e ser “leniente com o comunismo”, acusações que iriam perseguí-lo até seu assassinato, buscando empurrá-lo para uma postura de mais “falcão”. Enquanto a propaganda anticomunista da John Birch pode parecer um exagero perto das acusações “moderadas” da mídia mainstream, elas eram dois lados da mesma moeda: políticos pacifistas são atacados de todos os lados como agentes de forças externas, já que a mera idéia de trabalhar em função da paz – para um establishment que historicamente lucrou com a guerra – é como uma excomunhão para sua visão de América.

Outro Kennedy, o então senador de Massachusetts, Ted, de fato entrou em contato com a URSS em 1983 buscando assistência russa para atingir o então presidente Ronald Reagan. Ted Kennedy, de acordo com um relatório escrito pelo diretor da KGB Viktor Chebrikov, propôs levar a TV nos EUA o líder do Partido Comunista Yuri Andropov de forma à amenizar sua imagem para o povo estadunidense, e garantiu dar ajuda para melhorar a propaganda soviética; em troca, eles deveriam o ajudar na campanha presidencial. Os movimentos de Kennedy foram aparentemente ignorados. Quando o documento foi descoberto após o fim da URSS, figuras da direita a utilizaram como prova de que Moscou utilizou “infiltrados” Democratas como Kennedy para influenciar a política nos EUA. No entanto, a ausência de uma resposta dos russos aos contatos de Kennedy desmente a acusação de “conspiração russa”.

Al Gore

O ex-vice-presidente de Bill Clinton, Al Gore, aprendeu da pior forma durante sua campanha presidencial em 2000, que andar na linha durante toda sua carreira política não é garantia contra as acusações de “combinar com os russos” quando o establishment quer se livrar de alguém. Com menos de um mês antes da eleições, ele recebeu a “surpresa de outubro” a partir de seu trabalho na Comissão Gore-Chernomyrdin – uma colaboração banal entre os governos dos EUA e da recém-capitalista Rússia que ele imaginou tão inofensiva que levou o vice-presidente russo à TV para tecer-lhe elogios.

Até mesmo o LA Times cobriu a controvérsia, publicando a manchete “Ligações de Gore com os russos é agora um risco” (“Gore’s Links with Russian Now a Liability”, em inglês). Mas nas mãos criativas da campanha de Bush, um aperto de mãos público se tornou “acordos secretos” necessitando investigações, e acusações sem base de desvios no FMI fizeram a inocente comissão parecer um poço de pecados.

Com um público estadunidense ainda recheado de propagandas negativas sobre os “soviéticos malvados”, não foi difícil para a máquina Bush pintar Al Gore como uma criação corrupta do Kremlin. Mesmo tendo ganho no voto popular, acabou perdendo no colégio eleitoral, e cedeu a eleição à Bush, evitando uma longa disputa jurídica pela recontagem.

Gore não era um “pombo”, no entanto. Sua plataforma incluía derrubar o líder iraquiano Saddam Hussein, cujo país fora devastado pelas sanções do governo Clinton durante quase toda a década. Ele apoiou Clinton no bombardeio ilegal da Yugoslavia em 1999, descartando quaisquer críticas ao ato de guerra inconstitucional como “colocar a política na frente do exército”. Enquanto é impossível dizer se Gore entraria nas guerras desastrosas de Bush, ele certamente não era uma ameaça ao establishment.

Tudo isso nos mostra que, se a acusação de “laços com os russos” recai até mesmo sobre o inofensivo Al Gore,  não é preciso ser nenhum iconoclasta para atrair o rótulo. É um ataque oportunista que depende apenas da capacidade de persuação do acusador – e o quão bem consegue manipular a opnião pública.

A eficácia do “espantalho russo” varia dependendo das relações entre os EUA e Rússia, perdendo força após a queda do Muro de Berlim e ressuscitando devido à falta de imaginação da classe política. Encontrou base sólida em 2016 e vem atraindo a atenção dos eleitores na disputa de 2020, que tem grandes possibilidades de uma disputa entre dois “fantoches russos”. Mas os dias em que acusações extraordinárias requeriam provas extraordinárias acabaram, assim como a credibilidade de tais acusações. Não é meio século de red-baiting* o suficiente?

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

* “red-baiting” é um termo em inglês que se refere ao ato de atacar ou invalidar um oponente político acusando-o de comunista, marxista, etc.

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