América Latina

Os parasitas da América Latina

O diretor de “Parasita”, de forma inteligente e sutil, esboça a realidade desse mundo criado pelo capitalismo, pelos grupos midiáticos hegemônicos e por certos pensadores que estão convencidos que a extrema riqueza é sinônimo de bem-estar social.

Por Orlando Pérez, via teleSUR, tradução por Eduardo Pessine

Manifestantes carregam bandeiras e cartazes durante o oitavo dia de protestos contra o presidente Sebastian Piñera no dia 21 de outubro em 2019, em Santiago, Chile. Foto de Marcelo Hernandez.
Manifestantes carregam bandeiras e cartazes durante o oitavo dia de protestos contra o presidente Sebastian Piñera no dia 21 de outubro em 2019, em Santiago, Chile. Foto de Marcelo Hernandez.

O filme vencedor da última edição do Oscar faz um retrato fiél da Coréia do Sul: a desigualdade presente no país nos convida a pensar que todo seu desenvolvimento não foi capaz de resolver os problemas profundos de sua economia, nem para redistribuição da enorme riqueza do país, nem para servir de modelo de desenvolvimento às nações latino-americanas.

Segundo coeficiente de Gini, usado para medir o índice de desigualdade de um país, “a Coréia do Sul possui um índice de 0,35, segundo a OCDE. Ou seja, está abaixo dos 0,46 do Chile e México, próxima dos 0,39 dos Estados Unidos; está longe no entanto dos 0,29 da França ou os 0,26 da Dinamarca”, como indica uma nota da BBC.

Dessa forma, o diretor de “Parasita”, Bong Joon-Jo, de forma inteligente e sutil, esboça a realidade desse mundo criado pelo capitalismo, pelos grupos midiáticos hegemônicos e por certos pensadores que estão convencidos que a extrema riqueza é sinônimo de desenvolvimento e bem-estar social.

O filme serve muito bem para compreender o que ocorreu no Chile, quando Cecilia Morel, esposa do atual presidente Sebastián Piñera, disse em relação ao caos social em seu país, que seriam obrigados a “reduzir seus privilégios” em um áudio vazado em outubro do ano passado (2019). A família Kim, no filme coreano, é também o retrato vivo de famílias como os Piñera ou os Macri, que em países como o Chile e a Argentina enriqueceram descaradamente mas sem aplicar o modelo coreano de industrialização e desenvolvimento tecnológico intensivo.

Mas, se na Coréia do Sul 3 de cada 4 jovens querem sair do país, se pode considerar esse um modelo exitoso para unidade da nação e para incentivar as novas gerações para uma participação mais ativa no futuro de seus compatriotas?

A realidade de “Parasita” é simplesmente a de países como o Equador, onde temos nas mesmas cidades exemplos extremos de riqueza e pobreza a um ou dois quilômetros de distância: como mostram o cantão Samborondón de Guayas, Quito, Cumbayá e seus arredores. O mesmo se observa em cidades como Lima, Bogotá, Cidade do México e Rio de Janeiro.

A qualidade do roteiro e da direção do filme coreano é inegável, e apesar desses temas terem sidos já retratados em diversos filmes em muitas ocasiões e sobre realidade similares (a luta de classes é uma constante) e também em tom de denúncia, talvez para além do “viés político” tenha faltado esses atributos exigidos por Hollywood para apostar em uma indicação. Para nós, o filme é um convite à reflexão. Foi um grande acerto.

A única crítica é em relação à conclusão sangrenta, muito “a la Tarantino”, que não aprofunda no tema proposto, ainda mais se tratando de um contexto que exige, cinematograficamente, as saídas sugeridas no desenrolar do filme.

A pergunta que fica após assistir o “filme do ano” é: quem parasita à quem em nossa sociedade? E nas Coréias, na África e nos EUA? Se limitar a Seul graças às suas imagens e particularidades é uma escolha do filme, mas observando a situação econômica global e a desigualdade social é evidente que os super-ricos e mega-empresários são os parasitas de grandes massas empobrecidas ao redor do mundo, que trabalham sob a exploração e indiferença dos outros para se empobrecerem cada vez mais, como afirmou o economista Ha-Joon Chang em sua entrevista com Rafael Correa.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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