Oriente Médio

Aproximação Rússia-Turquia sofre reveses em razão do conflito na Síria

Por Omer Taspinar, via Asia Times, tradução por Eduardo Pessine

O presidente turco Tayyip Erdogan fala durante um encontro com o presidente russo Vladimir Putin em Sochi, na Rússia em 22 de outubro de 2019. Via Reuters.
O presidente turco Tayyip Erdogan fala durante um encontro com o presidente russo Vladimir Putin em Sochi, na Rússia em 22 de outubro de 2019. Via Reuters.

A circunstancial aproximação entre os países é colocada em teste graças à situação espinhosa em Idlib.

Os contratempos entre Turquia e EUA são bem claros. Recentemente, no entanto, as tensões envolvendo Ancara se concentram nas relações com a Rússia. Essa aproximação circunstancial entre os dois países está sendo tensionada na Síria, particularmente na região de Idlib, o último refúgio dos rebeldes sírios.

O conflito em Idlib é, entretanto, apenas a ponta do iceberg. Por de trás da aparente camaradagem entre Recep Erdogan e Vladimir Putin – o “sultão” e o “czar” – existem gigantescas contradições.

Em quase todas as questões de importância estratégica, os dois líderes estão em lados opostos: na Ucrânia, na anexação da Criméia, na guerra civil na Líbia, no conflito Armênia-Azerbaijão, nos Balcãs, no Chipre, na exploração do gás do Mediterrâneo oriental, em Israel, no Egito, na Irmandade Muçulmana – a lista só cresce. Por certo, se tratando da relação entre Rússia e Turquia, a Venezuela é provavelmente o único tema em que Putin e Erdogan têm visões compatíveis.

A compra dos sistemas anti-aéreos russos pela Turquia foi um marco na relação entre os países. Mas não no sentido em que geralmente se acredita. Para Ancara, esse negócio nunca foi visto como o início de uma nova parceria estratégica; foi preço pago para ingressar no norte da Síria.

A Turquia precisava conter a emergência de um Curdistão – nesse caso, um “pequeno Curdistão” – nas regiões controladas pelos curdos ao norte da Síria, onde a Rússia possui o domínio militar. Mas após a Turquia abater um jato russo em 2015, Putin esperava mais do que um mero pedido de desculpas de Erdogan. A compra dos S-400 selou o acordo, permitindo a entrada da Turquia nas regiões curdas como Afrin e al-Bab em 2016 e 2017.

Idlib, no entanto, se tornou um tentame mais complicado para os turcos. Quando o exército sírio retomou o controle de Aleppo, grande parte das forças rebeldes da região buscaram refúgio na pequena província próxima a fronteira com a Turquia, onde, em um acordo com a Rússia, ambos criaram uma zona desmilitarizada em 2018.

A atual população de Idlib gira em torna de 3 milhões. A Turquia já abriga cerca de 4 milhões de refugiados sírios e Erdogan está determinado em conter mais uma onda de sírios de adentrar o país. Por fim, Ancara se comprometeu em garantir a retirada de rebeldes radicais da região e Moscou aceitou um cessar-fogo.

No entanto, nenhum dos lados cumpriu suas promessas. A Rússia violou o cessar-fogo diversas vezes e recentemente lançou uma campanha aberta de bombardeios, abrindo caminho para a retomada da área pelo exército da Síria. Justificando suas ações com base no “anti-terrorismo”, Moscou argumentou que os extremistas têm agora um controle maior de Idlib uma vez que a Turquia fracassou em desmilitarizar a região.

As tensões em Idlib aumentaram drasticamente nas últimas duas semanas. Um confronto direto entre as tropas da Turquia e Síria resultaram na morte de 14 soldados turcos e mais de 100 soldados sírios.

Erdogan culpa a Rússia pela situação, mas não está disposto à confrontar Putin diretamente. Em vez disso, enviou mais 5000 soldados para Idlib e retaliou o governo sírio.

“Se ocorrerem quaisquer danos às nossas tropas… atacaremos as forças do governo seja onde for, e não nos limitaremos a Idlib”, declarou Erdogan na semana passada. Ele também alertou que a não ser que as tropas sírias recuem até o dia primeiro de março (01/03/2020), o exército turco irá fazer “o que for necessário”.

Como se crê que Damasco está agora sob controle de Moscou, é certo que as declarações de Erdogan eram na verdade direcionadas a Putin.

Mas esperar que Moscou ceda não é um expectativa realista. Erdogan sabe que a Rússia controla o espaço aéreo sírio. Bombardeios turcos contra o exército sírio significariam um embate direto com Moscou. Isso é provavelmente a razão pela qual enquanto Erdogan ameaçava Damasco, seu Ministro da Defesa, Hulusi Akar, negociava de forma construtiva, explicando que a razão do envio de novas tropas para Idlib por parte da Turquia era a garantia de um “cessar-fogo duradouro”.

Aqueles que não cumprirem o acordo de cessar-fogo – “incluindo os radicais”, acrescentou ele – serão “enfrentados com o uso da força”. Por “radicais”, o ministro quis dizer Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), o grupo jihadista que o exército sírio busca relegar de Idlib com a ajuda do poder aéreo da Rússia.

Tudo isso evidencia que Erdogan não está disposto a cortar laços com Putin. Afinal, a Rússia controla o tabuleiro. Moscou poderia permitir que Damasco tome o controle de Idlib, e dessa forma, causar uma nova onda de refugiados em direção à Turquia. Ou os russos poderiam pressionar pela saída dos turcos do norte da Síria ameaçando um acordo com as forças curdas da região.

Por fim, não podemos esquecer também que Erdogan é dependente de Putin em relação às necessidades energéticas da Turquia. O país compra a grande maioria de seu gás natural da Rússia e assinou um acordo futuro de energia nuclear e de gasodutos com Moscou.

As tensões entre Ancara e Moscou podem parecer uma boa oportunidade para uma intervenção dos EUA. Mas como Putin tem a vantagem na relação com a Turquia, Washington tem pouco a oferecer para Erdogan.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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