Oriente Próximo

Porque os EUA não retiram suas tropas mesmo após a decisão do parlamento iraquiano?

Porque os EUA não respeitam a decisão do parlamento iraquiano e retiram suas tropas do país? A resposta curta é: os EUA nunca respeitaram as decisões e a soberania de nenhum país caso entrassem em choque com seus objetivos.

Por Peter Koenig, via teleSUR, tradução por Eduardo Pessine

Sede do parlamento iraquiano, em Bagdá, Iraque. Via Reuters.
Sede do parlamento iraquiano, em Bagdá, Iraque. Via Reuters.

O risco é enorme para os EUA. A decisão está ligada com a movimentação do país para manutenção de sua hegemonia global, através do domínio territorial e financeiro – ou seja, o dólar.

Porque os EUA não respeitam a decisão do parlamento iraquiano e retiram suas tropas do país? A resposta curta é: os EUA nunca respeitaram as decisões e a soberania de nenhum país caso entrassem em choque com seus objetivos.

O fato é – os EUA estão inflexíveis e não irão desocupar a região. O presidente sírio Bashar al-Assad solicitou a remoção das tropas do território de seu país – o que não aconteceu. O risco é muito grande para os EUA e sua hegemonia territorial e financeira.

O conflito com o Irã não acabou

O que está ocorrendo é uma trégua de reagrupamento, para em seguida continuar e escalar o conflito. As bases estadunidenses e a presença militar dos EUA no Iraque – de mais de 5000 tropas – são a forma mais eficiente de pressionar o Irã.

Além de controlar o estratégico e rico território do Oriente Médio, região essencial para a hegemonia global, a presença contínua dos EUA na região também está relacionada com os lucros da indústria bélica e com o preço dos hidrocarbonetos, especialmente o gás.

Como observamos, logo após o covarde assassinato do General Qassem Soleimani, as ações da indústria bélica dispararam, em antecipação à guerra e grandes vendas de armamentos. A economia da guerra lucra assustadoramente com as mortes, e cada vez mais a guerra e os conflitos são a força-motriz das economias ocidentais. A indústria da guerra e derivados já compõem cerca de metade do PIB dos EUA, cuja economia é impensável sem guerras. Sendo assim, o Oriente Médio é o campo de batalha perfeito, uma necessidade para o ocidente. Conflitos e guerras intermináveis já são uma necessidade. Imagine só: se os EUA desocupassem a região, a consequência poderia ser a PAZ. Isso é inadmissível. Em breve, até mesmo o seu emprego poderá depender diretamente da guerra, caso você viva no ocidente.

Existe também a questão do gás iraniano. Cerca de 20% da energia consumida diariamente pelo mundo, inclusive nas guerras, passa pelo Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Imediatamente após o assassinato de Soleimani, o preço do petróleo e gás aumentaram 4%, e em seguida se normalizaram. Isso apenas com a antecipação de um grande conflito que poderia reduzir a produção de gás iraniana ou bloquear a passagem de Ormuz. Em ambos os casos, um colapso da economia global não seria exagero.

Um parênteses: é absolutamente necessário que o mundo se livre dessa fonte nefasta de energia – os hidrocarbonetos – e se volte para outras fontes mais baratas, limpas e livres para abastecer nossas atividades industriais. Por exemplo, a energia solar, a qual a Terra recebe todos os dias mais de 10000 vezes o que é necessário para todas nossas atividades em todos os continentes.

Os EUA, com uma instável indústria de gás que perdeu o mercado europeu para a Nord Stream2 russa, busca controlar o preço dos combustíveis para reviver suas empresas endividadas. Qual outra forma melhor que controlar o Irã e suas enormes reservas de gás, compartilhadas com o Qatar?

Além disso, também existe a aliança entre Irã e China – sendo a última a maior consumidora de gás do primeiro. A China é vista por Washington como um competidor letal, e barrar o seu abastecimento de energia é um dos seus principais objetivos. Eles são incapazes de competir em igualdade – mentir, trapacear e manipular se tornaram parte do estilo de vida ocidental e estadunidense. Mesmo assim, a China ainda tem a Rússia, com as maiores reservas de gás do mundo, uma fonte alternativa de abastecimento de combustíveis necessitados pelos chineses.

Por fim, é improvável que os EUA deixem o Oriente-Médio, mesmo que alguns generais – e até mesmo alguns membros de alta-patente no Pentágono – acreditem que seria a melhor alternativa – eles vêem a luz, e ela não é de guerra, mas de PAZ.

Como retirar os EUA do Iraque?

O que o Iraque poderia fazer para expulsar os EUA de seu território e eventualmente de todo Oriente-Médio? Afinal, o parlamento iraquiano tomou uma decisão majoritária para recuperar sua soberania e autonomia, sem a presença de tropas extrangeiras. A maioria dos países com tropas no Iraque respeitaram essa decisão: a Dinamarca, Austrália, Polônia e Alemanha, todas estão se preparando para remover suas tropas do país. Apenas o Reino Unido se mantém ao lado dos EUA, se recusando a cumprir a decisão do parlamento.

O Iraque talvez queira fortalecer sua aliança com a Rússia e China, aumentando assim a pressão sobre os EUA para cumprir a decisão soberana para a retirada de suas tropas. Se isso será possível é difícil de se afirmar. Exceto caso a hegemonia do dólar sobre as economias ocidentais seja quebrada. Atualmente, o dólar vem perdendo forças na economia global, com países ocidentais buscando cada vez mais formas de desdolarizarem suas economias e de se associarem com o oriente, liderado pela Rússia e China, onde a desdolarização avança rapidamente.

Quando isso ocorrer, os ditames dos EUA sobre as nações ao redor do mundo não serão mais ouvidas, e Washington terá que repensar seu futuro – e muito provavelmente a presença estadunidense no Oriente-Médio passará a ser parte da história.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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