Internacional

Epidemia do novo coronavírus expõe a mentalidade colonial do ocidente

Por David Monyae, via China Daily, tradução por Eduardo Pessine

Rei Eduardo VII na recepção dos maharajahs, príncipes indianos, e dignatários anteriormente à sua coroação. Por Albert E. Harris.
Rei Eduardo VII na recepção dos maharajahs, príncipes indianos, e dignatários anteriormente à sua coroação. Por Albert E. Harris.

Xenofobia, viés ideológico e o medo ocidental da ascensão chinesa são os três pilares que sustentam os obstáculos contra os enforços para controlar o coronavírus na China. Recentemente, Kevin Rudd, o ex-primeiro ministro australiano e presidente da Instituto de Políticas da Sociedade da Ásia em Nova York, escreveu: “O mundo todo deve expressar simpatia e solidariedade com o sofrido povo chinês. São tempos difíceis, e o racismo implícito (e as vezes explícito) nas declarações ao povo chinês ao redor do mundo me fazem questionar o quão longe avançamos como uma humanidade fraterna”.

De fato, a fala de Rudd sobre a necessidade de uma abordagem global humanizada na luta contra a epidemia encaixa bem em uma expressão Nguni – um dialeto africano – que diz “inxeba lendoda alihlekwa”. O significado é “não se zomba das feridas do outro”.

Ao noticiar sobre o novo coronavírus, o Wall Street Journal publicou um artigo do professor da Bard College, Walter Russel Mead, entitulado “A China é o verdadeiro povo doente da Ásia” (“China is the Real Sick Man of Asia”, em inglês). Sem dúvidas o renomado professor e o jornal em questão sabem que o termo “sick man of Asia” é uma expressão pejorativa que emana do “século da humilhação” da China, nas mãos do colonialismo do Japão e das potências ocidentais. Foi usado pelas forças estrangeiras que arrasaram o país para justificar o tratamento desumano do povo chinês.

Essa linguagem colonial também era comum na África quando os estrangeiros consideravam sua religião, cultura e estilo de vida superior à daqueles povos nativos que viam como pestilentos e sórdidos.

Também aconteceram ataques envoltos em ideologia contra as tentativas das autoridades chinesas de conter rapidamente o surto. Existem diversos artigos de opinião publicados pela mídia ocidental que utilizam da epidemia para atacar o sistema chinês.

O principal objetivo desses ataques é fortalecer a visão hegemônica de que as democracias liberais administram as epidemias e crises de forma mais eficiente do que o suposto regime autoritário da China. A fraqueza desse argumento é sua falta de lastro histórico. Os EUA possuem uma longa relação de ingerência de epidemias e crises, sendo o exemplo mais recente a do furacão Katrina que atingiu Nova Orleans em 2005. O governo de George W. Bush falhou gravemente em sua resposta ao desastre, que afetou quase 80% da população – majoritariamente negra – da cidade.

O jornal britânico The Guardian publicou um artigo de Emma Graham-Harrison no dia 31 de janeiro (2020), em que ela afirma: “a China recebeu aplausos do mundo todo pela grande mobilização, incluindo o feito quase impossível de construir dois novos hospitais em duas semanas, ainda que Wuhan tenha se tornado sinônimo da nova epidemia”. Em seguida, a autora passou o verniz ideológico: “Assim que as informações sobre o ínicio da epidemia começaram a vazar da China, foi ficando cada vez mais claro que o mesmo sistema que permitiu a Pequim uma resposta tão notável, também permitiu o vírus a prosperar”.

Além disso, alguns personagens da mídia ocidental e oficiais estadunidenses estão usando a epidemia como ferramenta para barrar o crescimento da China. No dia 24 de janeiro (2020), a Foreign Policy descaradamente publicou um artigo entitulado “Bem-vindo à pandemia da Rota da Seda”(“Welcome to the Belt and Road Pandemic”, em inglês)

O secretário de comércio dos EUA, Wilbur Ross, afirmou ao se referir à epidemia na China: “Acho que isso irá ajudar a acelerar a volta de empregos para a América”.

Nesse momento crítico na luta contra o novo coronavírus, é necessário que se crie uma frente unificada tanto de combate à propagação da doença, quanto para encontrar uma cura. O continente africano em particular tem trabalhado incansavelmente ao lado da China dentro do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) na contenção de doenças. A África pode ajudar a China em seus esforços para controlar o vírus, e tem respondido sobriamente ao surto sem causar pânico desnecessário, ainda que existam desafios para fortalecer a estrutura médica do continente para responder ao coronavírus caso se espalhe na região. Mas para isso, precisam também conter três grandes doenças que chegam do ocidente: a xenofobia, o viés ideológico e o medo do crescimento chinês.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s