América Latina

Lavrov na América Latina: um giro político

Entre 5 e 8 de fevereiro, o chanceler russo, Sergei Lavrov, realizou uma viagem oficial por três países da América Latina e Caribe: Cuba, México e Venezuela, todos com uma política externa independente – quando não de conflito – em relação aos interesses geoestratégicos dos EUA.

Por Arantxa Tirado, via CELAG, tradução por Eduardo Pessine

O chanceler russo Sergei Lavrov em coletiva de imprensa após negociações para a formação de um comitê constitucional na Síria, na sede da ONU em Genebra, Suíça, 18 de dezembro de 2018. Foto por Denis Balibouse/REUTERS.
O chanceler russo Sergei Lavrov em coletiva de imprensa após negociações para a formação de um comitê constitucional na Síria, na sede da ONU em Genebra, Suíça, 18 de dezembro de 2018. Foto por Denis Balibouse/REUTERS.

O resultado do giro de Lavrov não se mede pelo número de acordos selados ou reativados, mas sim pelo esforço por consensos para a construção de uma nova geopolítica.

Entre 5 e 8 de fevereiro (2020), o chanceler russo, Sergei Lavrov, realizou uma viagem oficial por três países da América Latina e Caribe (ALC): Cuba, México e Venezuela, todos com uma política externa independente – quando não de conflito – em relação aos interesses geoestratégicos dos EUA. Essas alianças e a crescente presença russa na ALC é vista como uma ameaça pelos ianques[1].

Mas para além dos acordos técnicos de cooperação em matéria econômica, comercial, militar, diplomática ou política firmados em alguns dos países, o giro de Lavrov apresenta um forte caráter político. O The New York Times acusava que a Rússia o enviava para contrapor as sanções dos EUA à Venezuela – e assim tem sido[2]. Em todas suas manifestações, o chanceler se encarregou de deixar claro o desacordo russo com a política norte-americana em relação à Venezuela. A ALC não é o único lugar em que a Federação Russa tem interesses geoestratégicos conflitantes com os EUA: nas disputas na Ucrânia e Síria essa disputa geopolítica é aberta. Apesar da importância dessa viagem, não houve grande repercussão da imprensa internacional, toda compenetrada no processo de impeachment do presidente Donald Trump.

Não é um detalhe que, em paralelo à visita de Lavrov, o “autoproclamado presidente” da Venezuela e deputado da Assembléia Nacional, Juan Guaidó, também fez um tour internacional cuja parada final foram os EUA. A coincidência das viagens de Lavrov com a presença do opositor venezuelano nos EUA é significativa. Enquanto Guaidó apareceu junto à Trump, se reuniu com os parlamentares que encabeçam os ataques à Cuba, Venezuela e Nicarágua, com o diretor da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e com Luis Almagro, secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o chanceler russo lançou claras mensagens aos EUA, por conta de suas intromissões na Venezuela.

Cuba

A Rússia tem cooperação com Cuba – seu “sócio prioritário” – em matéria de cultura, energia, metalurgia, infraestrutura de transporte, tecnologias espaciais, comunicações e informática, farmacêutica e de biotecnologia[3], além de uma aliança histórica desde os tempos da União Soviética.

A visita de Lavrov à Cuba foi eminentemente política. Se avançou pouco em relação aos acordos alcançados em ambos países durante essa viagem, se tratando da coordenação em matéria de política exterior e do reforço da denúncia ao bloqueio estadunidense contra Cuba. Lavrov fez referência aos acordos assinados pelos presidentes Vladimir Putin e Miguel Díaz-Canel em outubro de 2019 durante a visita do último a Moscou e à próxima reunião da “Comissão Intergovernamental Cubano-Russa para a colaboração econômico-comercial e científico-técnica” que será sediada na Rússia[4]. O interesse pela área energética está na agenda, assim como a cooperação cultural. Em um gesto simbólico, Lavrov rendeu homenagem à Fidel Castro visitando seu túmulo em Santiago de Cuba.

México

O México é o segundo maior parceiro comercial da Rússia na ALC, depois do Brasil. Essa viagem serviu para reativar a “Comissão Mista Russo-Mexicana de Cooperação Econômica, Comercial, Técnico-Científica e de Navegação Marítima” que estava paralizada desde 2011. Depois de se reunir com o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, Lavrov destacou que, para além da cooperação militar, há intenção de avançar na cooperação nos setores de energia, automobilístico, construção naval, aeronáutica, química, farmacêutica, transporte ferroviário e agrícola[5].

O México detém a presidência temporária da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), o que tem criado expectativas sobre sua reativação[6]. Moscou espera que a presidência mexicana permita superar as contradições e reestabelecer um mecanismo de diálogo Rússia-CELAC para retormar a cooperação aeroespacial e de prevenção e contenção das consequências de desastres naturais, além de ativar um sistema regional de monitoramento antimicrobiano (com participação do Instituto russo-nicaraguense de biotecnologia “Mechnikov”)[7].

Lavrov enfatizou que o México e a Federação Russa defendem a soberania da Venezuela e a busca por diálogos para o fim da crise política, para que “os problemas da Venezuela se solucionem não na base da doutrina Monroe, como tenta fazer Washington, nem tampouco com intenções de provocar uma confrontação que sirva de pretexto para uma intervenção militar, mas sim apenas com métodos pacíficos, através do diálogo entre todas as forças políticas”[8]. Um diálogo que “deve se iniciar sem condições prévias” para que seja uma mediação e não uma imposição[9].

O apoio do governo russo à candidatura do México ao Conselho de Segurança da ONU para o mandato de 2020-2021, que se anunciou durante a viagem, se encaixa na lógica de buscar aliados nos órgãos multilaterais para a defesa da não-intervenção. A Federação Russa tem exercido o papel de “barragem de contenção” aos ataques contra Venezuela no Conselho de Segurança – o único que pode autorizar o uso de força na ONU e onde a Rússia tem poder de veto – com sua defesa veemente da legitimidade do governo de Nicolás Maduro[10]. A presença do México no conselho, um país que tem se destacado sob o governo de López Obrador pela defesa da soberania dos governos da Venezuela e Bolívia, somaria votos ao grupo que se opõe à postura dos EUA, que ajudaria a neutralizar os ataques à Venezuela e eventuais ataques a outros países não-alinhados com a política estadunidense.

Venezuela

Com a Venezuela, seu principal aliado geopolítico na região, a Rússia já assinou mais de 50 acordos de cooperação estratégica ao longo dos últimos anos. A cooperação entre ambos países se decide através de uma Comissão Intergovernamental de Alto Nível Rússia-Venezuela que se reunirá em Caracas em maio de 2020[11].

O giro de Lavrov apontou para um maior apoio a seus aliados na região, especialmente para mostrar o respaldo de Moscou à Caracas e sua estratégia de diálogo com alguns setores da oposição, assim como a celebração de eleições parlamentares esse ano[12].  A presença de Lavrov na Mesa de Diálogo Nacional durante sua visita à Caracas, juntamente com o ex-presidente espanhol e mediador José Luis Rodríguez Zapatero, pode ser interpretada como o aval russo à essa nova rodada de negociações entre governo e oposição. Uma clara mensagem aos EUA em meio às últimas ameaças de Donald Trump ao governo de Maduro durante o discurso frente ao Congresso[13], o qual Juan Guaidó foi convidado.

A Federação Russa tem denunciado também a política unilateral e intervencionista dos EUA com o bloqueio e “as sanções ilegítimas que seguem se recrudecendo pelos EUA” contra Venezuela e Cuba[14][15], que atentam contra a Carta das Nações Unidas e as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), nas palavras de Lavrov[16]. O chanceler classificou as sanções contra Venezuela como uma política de “mudança de regime” orquestrada pelos EUA com graves implicações econômicas e sociais: “a recessão econômica pela qual passa a Venezuela decorre das intenções, através de uma campanha executada para derrubar o governo legítimo, utilizando-se inclusive da força. É indignante que ações unilaterais dos EUA afetem o social[17]”.

Um giro político

Com esse giro, a Federação Russa tentou aprofundar seus laços com seus aliados estratégicos e parceiros comerciais na região, em uma estratégia de expansão da influência e dos interesses russos na ALC. No entanto, o resultado mais importante não se mede com o número de acordos assinados ou reativados, mas sim pela busca de consensos políticos para a construção de uma geopolítica alternativa à comandada pelos EUA para o ocidente e por extensão, para o conjunto do sistema internacional. A defesa da legitimidade do governo de Nicolás Maduro e o respaldo a seu processo de diálogo para garantir sua sobrevivência no poder está no centro dessa postura política. A Rússia aposta, assim como os países visitados, em um sistema internacional multipolar, em que o equilíbrio entre potências esteja no centro da agenda política e onde o Direito Internacional seja respeitado. Um ambiente de paz em que as empresas russas possam continuar seus investimentos nos países da ALC, e a cooperação tecnológica e militar com seus aliados possa se desenvolver sem acusação de ingerência. Um cenário em que a Rússia trabalha para frear o unilateralismo estadunidense buscando incrementar sua influência política, militar e espiritual, segundo o estabelecido em sua Estratégia de Segurança Nacional[18], em via de reforçar sua soberania e sua capacidade de influenciar na transição para a nova ordem geopolítica que está em construção.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] https://www.celag.org/rusia-en-america-latina-amenaza-para-eeuu/

[2] https://www.nytimes.com/reuters/2020/02/04/world/americas/04reuters-russia-venezuela-lavrov.html

[3] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4021963

[4] https://www.mid.ru/es/press_service/minister_speeches/-/asset_publisher/7OvQR5KJWVmR/content/id/4022309

[5] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4025776

[6] https://www.celag.org/mexico-en-la-celac-regreso-a-los-origenes/

[7] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4021963

[8] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4025776

[9] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4025776

[10] https://www.celag.org/eeuu-venezuela-consejo-seguridad/

[11] https://www.mppre.gob.ve/2020/02/07/vicepresidenta-canciller-lavrov-demostrado-compromiso-venezuela/

[12] http://mppre.gob.ve/2020/02/07/rusia-apoyo-dialogo-politico-venezuela/

[13] https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-state-union-address-2/

[14] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4021963

[15] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4022309

[16] https://www.mid.ru/es/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4025776

[17] http://mppre.gob.ve/2020/02/07/canciller-lavrov-inaceptables-ilegales-restricciones-gobierno-eeuu-contra-venezuela/

[18] https://www.consultant.ru/cons/cgi/online.cgi?req=doc&base=LAW&n=191669&fld=134&dst=100071,0&rnd=0.9962866484409987#0

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