EUA

Revelações de espionagem da CIA com a Crypto deslegitimam a preocupação dos EUA com expansão da Huawei

Por Neil Clark, via RT, tradução por Eduardo Pessine

Sede da Crypto, empresa suíça de criptografia, na cidade de Steinhausen, na Suíça. Foto por Fabrice COFFRINI / AFP.
Sede da Crypto, empresa suíça de criptografia, na cidade de Steinhausen, na Suíça. Foto por Fabrice COFFRINI / AFP.

As revelações sobre a CIA manter o controle – secreto – da empresa suíça de criptografia Crypto escancara a hipocrisia das preocupações dos EUA com a “segurança interna” devido à expansão da Huawei e outras empresas não-estadunidenses.

Ao apontar o dedo para alguém, sobram três apontando de volta pra você, como diz o famoso ditado popular. Ditado que foi bem expresso pelas revelações surpreendentes dessa semana – publicadas pelo Washington Post – de que a CIA e a BND (serviço de inteligência alemão) controlavam secretamente a empresa suíça de critografia Crypto. Ambas agências instalavam “backdoors” em seus produtos que permitiam aos governos estadunidense e alemão (ocidental) espionar a comunicação de inimigos e aliados, que os usuários acreditavam que haviam sido encriptadas. Isso inclui comunicações confidenciais entre lideranças governamentais, diplomatas e militares.

Nos anos 1970s e 80s, afirmar que a Crypto era um braço da CIA seria ridículo e tratado como “teoria da conspiração” e “paranóia”. Os rumores, no entanto, se mostram verdadeiros. Novamente, uma “teoria da conspiração” se mostra verdadeira e nem um pouco “maluca” como antes vista. A verdade se mostrou, outra vez, mais peculiar que a realidade.

A quantidade de informações colhidas pela Crypto é impressionante: como reportado pela RT, “ao longo da década de 1980, cerca de 40% de todas as transmissões analisadas pela NSA passaram por dispositivos da Crypto”.

Que belo truque. Mais de 120 governos ao redor do mundo – exceto a antiga URSS e a China, que com razão, desconfiaram da empresa – utilizaram os dispositivos da Crypto. Entre esses, o Irã, Líbia, a Argentina e o Egito, todos pagando para que fossem espionados pelos EUA e a Alemanha Ocidental.

Os alemães abandonaram a operação em 1993, mas a CIA a manteve de pé pelos 25 anos seguintes. Isso nos leva a questionar: quais e quantos outros planos de espionagem dos EUA ainda desconhecemos?

No livro “Quem pagou a conta” de 1999, Frances Saunders detalhou como a CIA financiou toda uma rede de publicações e artistas através do Congress for Cultural Freedom (CCF).

Revistas e periódicos (que convenientemente atacavam o socialismo) foram financiados pela CIA, além de artistas, escritores, poetas e intelectuais. Durante a Operação Mockingbird, jornalistas proeminentes foram praticamente recrutados para a agência estadunidense. De acordo com Carl Bernstein, a CIA tinha mais de 400 jornalistas sob seu comando durante a Guerra Fria.

“Em vários momentos os documentos da CIA demonstram que jornalistas estavam engajados em trabalhos para a agência sob o consentimento da administração dos maiores jornais estadunidenses,” afirma Bernstein.

Os próprios registros da CIA mostram que, em 1991, a agência mantinha laços estreitos com “cada uma das grandes agência de notícias, jornais e emissoras de televisão do país”.

Agora sabemos que também controlavam a Crypto!

Conhecendo o modus operandi da agência, é difícil acreditar que a CIA não mantém “laços” similares e mecanismos de controle semelhantes atuando até hoje. Por que não teria?

As revelações sobre a Crypto não devem apenas chamar a atenção de todos acerca do grande poderio da CIA, mas devem também gerar desconfiança sobre os motivos das objeções estadunidenses sobre a participação de empresas russas e chinesas no desenvolvimento de infraestruturas e novas tecnologias de telecomunicações.

O antivírus russo Kapersky foi banido de todas as redes do governo estadunidense, enquanto a gigante chinesa Huawei é atingida com sanções – além de ameaças a outros países em relação a acordos de investimento para suas infraestruturas das redes 5G.

As lideraças estadunidenses afirmam que a Huawei poderia acessar as redes móveis através de “backdoors”…

… da mesma forma que os EUA fizeram com a Crypto?

O Wall Street Journal cita essas mesmas lideranças afirmando que a “Huawei tem esses recursos há mais de uma década”.

A preocupação aqui parece ser a de que a China passe a fazer o que os EUA veêm fazendo há décadas, como o uso de “backdoors” para espionagem. A hipocrisia não tem limites. O nível das preocupações (e das sanções) dos EUA nos demonstra uma coisa: ao contrário da Crypto, da Revista Encontro, do Comitê Nacional de Libertação da Europa, a Huawei não é uma fachada da CIA.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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